Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

Brasil é 'viciado em commodities', diz ex-secretário da Fazenda

Economista Márcio Holland afirmou que produtos primários tornam País vulnerável a alterações externas, mas espera melhora na economia a partir do fim de 2016; evento da Fundação Lemann e da Universidade de Columbia em NY discute desafios brasileiros

Thiago Mattos, especial para a Agência Estado

20 Novembro 2015 | 03h00

NOVA YORK - O economista e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Márcio Holland destacou nesta quinta-feira, 19, em evento em Nova York, a possibilidade de um cenário positivo na economia brasileira para o fim de 2016. O economista foi um dos convidados do Lemann Dialogues 2015, evento realizado pela Universidade Columbia, em Nova York, que reúne acadêmicos do Brasil e do mundo para discutir questões econômicas e políticas públicas brasileiras.

"A situação de agora é uma combinação de muitos fatores: crise política, recessão e crise fiscal que acontecem ao mesmo tempo. Por ser um País viciado em commodities, o Brasil fica vulnerável a alterações externas", disse Holland. "Daqui a um ano, a economia brasileira deve estar numa situação melhor e poderemos começar a ver luz no fim do túnel."

Apesar de esperar um curto prazo dramático para a economia, com possibilidade de rebaixamento do rating do País e potencial risco de desvalorização cambial, Holland salientou a chance de alívio de cerca de dois pontos porcentuais da pressão inflacionária já no primeiro semestre de 2016. "Até lá, o governo deverá ter apresentado resultados fiscais e ter cortado gastos", afirmou o economista, que se diz otimista quanto ao futuro.

Com o tema "Inovação no setor público brasileiro", o evento também teve a participação da ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, primeira palestrante do dia. Ela destacou a adoção de programas sociais recentes, como o Programa Bolsa Verde, que transfere renda a famílias rurais, e o Programa Cisternas, que beneficia 1,2 milhão de famílias com caixas d'água para armazenar água da chuva em áreas do semiárido nordestino. "O Brasil exporta tecnologias sociais para todos os países da América Latina. Não estamos inovando em uma pequena vila, tudo o que fazemos chega a milhões de pessoas num curto espaço de tempo", disse.

Críticas. Em uma das falas mais contundentes deste primeiro dia de palestras sobre políticas públicas brasileiras na Universidade Columbia, a professora de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Lena Lavinas afirmou que o problema fiscal brasileiro não será resolvido com o corte de gastos sociais e atribuiu a falta de equilíbrio das contas públicas do País à manutenção de privilégios fiscais para os mais ricos.

"Enquanto cada criança beneficiada pelo Bolsa Família ganhou R$ 406 em 2013, os dependentes das famílias mais ricas que pagam Imposto de Renda receberam R$ 2.063 cada um em renúncia fiscal", disse Lena, citando dados de pesquisa dela.

Ao analisar deficiências do sistema educacional, o professor de Economia da Universidade Harvard Werner Baer criticou o modo de funcionamento da educação privada no Brasil. "A maioria das instituições educacionais quer apenas faturar e foca em alunos de alta renda", disse o professor.

Partidos. Os palestrantes também debateram temas como acesso da população a saneamento básico, o engajamento político através da tecnologia e as consequências políticas do alto número de partidos políticos no País, este último tema o mais extensamente explorado pelos palestrantes.

O professor de Economia da Universidade Columbia Albert Fishlow criticou o sistema político brasileiro. "A melhor reforma para o País é se livrar dos inúmeros partidos que desintegram o sistema político brasileiro", disse Fishlow.

"Não devemos nos livrar, mas sim melhorar os partidos no Brasil", contrapôs Frances Hagopian, professora visitante de Estudos Brasileiros em Harvard.

Os escândalos de corrupção envolvendo políticos brasileiros foi comentado pelo jornalista Paulo Sotero, que participou à tarde de uma discussão sobre reforma na democracia representativa. "Quase 30% dos representantes eleitos pelo povo brasileiro para fazer as leis têm problemas com as leis. Uma inovação recente no sistema político no Brasil é o cumprimento da lei. Isso é uma grande novidade no País", disse Sotero, dando como exemplo as recentes prisões da operação Lava Jato e do mensalão.

Riscos. O diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, participou como facilitador da última palestra do dia. "A história do Brasil é marcada por pular para a fase seguinte sem completar a fase anterior. Temos malária e temos uma das maiores presenças no Facebook. Temos que lutar contra problemas básicos e questões sofisticadas ao mesmo tempo", disse Gandour. A discussão sobre inovação também contou com a presença do presidente do Banco do Nordeste, Marcos Holanda, que falou sobre microcréditos para pessoas pobres.

Nesta sexta-feira, a ex-candidata à Presidência do Brasil Marina Silva é uma das palestrantes do evento. O Lemann Dialogues é realizado anualmente desde 2010 e é promovido pela Universidade Columbia e pela Fundação Lemann.

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