Pier Marco Tacca/Getty Images
Pier Marco Tacca/Getty Images

'Brasil não sai da crise econômica se não resolver a crise política'

Economista nascida em Roma, no entanto, afirma que a Operação Mãos Limpas, que inspirou a Lava Jato, foi benéfica para a Itália: ‘Depois veio o crescimento’

Entrevista com

Teresa Ter-Minassian

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

27 Março 2016 | 05h00

A economista italiana Teresa Ter-Minassian ficou 37 anos no Fundo Monetário Internacional (FMI). Presenciou crises econômicas pelo mundo afora, incluindo no Brasil. Ex-diretora do Departamento Fiscal do FMI, chefiou a missão brasileira do fundo entre 1997 e 2001. O real estava em plena implantação e o País sofria solavancos externos constantes. Hoje, como consultora do Fundo e de outras instituições internacionais, como o Banco Mundial, Teresa é categórica ao afirmar que nada do que viu ao longo de sua carreira se compara a crise brasileira atual. “Estou verdadeiramente preocupada com a situação de vocês”, disse. “Não há dúvida de que a grande diferença dessa crise econômica no Brasil, em relação a outras, é a situação política.” 

Italiana nascida em Roma, ela se lembra dos impactos da operação Mãos Limpas, que inspirou a Lava Jato no Brasil. “Houve um forte impacto sobre a economia, mas depois veio a recuperação: a Mãos Limpas foi boa para Itália.” 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que a economista concedeu ao Estado, por telefone, de Washington. 

A sra. acompanha o Brasil e deve estar vendo que a deterioração da economia parece ter acelerado.

Claro que sim, e estou verdadeiramente preocupada com a situação de vocês. Afortunadamente, o Brasil tem suas, digamos, defesas externas. Tem um volume alto de reservas, que faz com os mercados internacionais fiquem tranquilos sobre a solvência do País. Mas, do ponto de vista interno, a atividade econômica continua em queda, o desemprego segue aumentando e a inflação está alta, mesmo que esteja cedendo. A questão é que será muito difícil reverter a situação econômica caso o quadro político não apresente melhoras. Todos os dias, diariamente, no mínimo por uma hora, eu leio notícias do Brasil. Os grandes temas não são mais econômicos, e sim políticos. Eu não sou especialista em política e nem consigo dizer exatamente qual seria a saída para a crise política, mas com o nível de incerteza atual, a economia não vai melhorar. 

A economia é refém da política: não há como sair da crise econômica sem resolver a política?

Essa é a minha visão - a minha e de todos os observadores da economista brasileira. Não há dúvida de que a grande diferença dessa crise econômica no Brasil, em relação a outras, é a situação política. O governo perdeu o controle da base aliada. O PT tem um discurso. O PMDB, outro. O ministro da Fazenda diz que o País precisa de reformas, como a da Previdência, mas o ministro da Previdência questiona a importância das mesmas medidas. Não se sabe nem qual é o futuro da presidente. Tudo isso não ajuda a economia. E ainda há o impacto da Lava Jato, uma grande discussão a respeito da corrupção, sobre a indústria da construção, sobre a Petrobrás e toda a sua cadeia de fornecedores, que tem um peso importante para o País. O resultado de tudo isso é que a incerteza política se espalha. Compromete os ânimo dos investidores. Também recai sobre os consumidores o aumento do desemprego, que tem impacto sobre a renda. As pessoas se retraem. Na minha opinião, para uma retomada econômica que gradual e sustentável, é fundamental reduzir a incerteza política. Por falta de apoio, o governo não conseguiu passar nem a CPMF. É impossível fazer um ajuste fiscal significativo nesta situação. Não se faz reformas sem apoio político. Não consigo ver saída para a crise na economia sem a solução da crise política. 

A sra. já acompanhou crises em vários países. Já viu algo parecido com o que está ocorrendo agora no Brasil?

Não, nunca. Você pode ter crises na economia, instabilidades financeiras, oscilações no câmbio. Mas tudo se resolve por mecanismos normais. Aqui estamos vendo uma crise ocorrendo no primeiro terço de um mandato e é difícil prever se a presidente vai ficar no cargo até o fim. Ninguém sabe. O governo resiste. Utiliza todas as armas que pode para ficar. 

A sra. é italiana, e a Itália é o país onde ocorreu a operação Mãos Limpas, que inspirou a Lava Jato no Brasil. Qual foi o impacto das Mãos Limpas lá? 

Sim, claro: a Mani Pulite (mãos limpas, em italiano). Houve um forte impacto no curto prazo, principalmente sobre os investimentos públicos. As obras públicas praticamente pararam por um tempo. Por meses, nada andou. Empresários envolvidos pagaram multas altíssimas e os empresários que não foram envolvidos não queriam fazer negócios com o governo para não serem acusados de cometer algum tipo de corrupção. Houve um forte impacto também no crescimento da economia. Não me lembro dos números porque já faz algum tempo. Houve impacto também na política. Presenciamos uma renovação partidária. Quem estava mais envolvido perdeu votos. Nomes tradicionais e antigos tiveram que se retirar da política. Sumiram. Houve, digamos, uma reestruturação da cena política. Foi um terremoto. Mas no fim, a economia se recuperou. O nível de corrupção caiu. Ao menos, o relato do número de casos de corrupção hoje é menor. Mas isso não significa que tudo está bem no quadro político da Itália. O quadro político lá não é fácil, porque há muita fragmentação partidária. Nos últimos dois anos, uma certa estabilidade política permitiu que o governo fizesse reformas estruturais, que eram muito necessárias, no mercado de trabalho e na previdência social. A operação Mãos Limpas foi, ao final, boa para a Itália. 

O que a equipe econômica pode fazer nesse ambiente?

Deve ser muito difícil ser ministro da Fazenda do Brasil agora. Não deve estar sendo fácil para o Nelson (Nelson Barbosa, ministro da Fazenda). No atual ambiente político, medidas econômicas, mesmo quando na direção correta, não vão ter o mesmo impacto positivo que teriam num ambiente normal. Mas a equipe econômica tem que continuar fazendo o que puder. O importante é pelo menos evitar medidas que aumentariam o desgaste com os mercados financeiros - como uso das reservas para financiar os gastos públicos. 

Na semana que passou, Barbosa reviu a projeção de superávit para um déficit de quase R$ 100 bilhões. É o momento de fazer isso? Não piora a instabilidade?

A receita com impostos continua caindo. Seria impossível para qualquer governo manter um superávit primário nas atuais condições. Na verdade, quando o orçamento foi divulgado, já ficou meio claro que eles não conseguiriam cumprir a meta. E o déficit no ano pode ser maior, porque não se tem uma ideia de quanto ainda mais a atividade econômica pode cair. Na minha visão, seria bom que fizessem um esforço maior na contenção de despesas discricionárias, mas, mesmo assim, seria muito difícil fazer um superávit. Em outras palavras, a dívida do setor público vai continuar subindo, o que tende a provocar instabilidade nos mercados. 

A sra. está dizendo que se nada for feito, o Brasil caminha para o não pagamento da dívida, para um calote?

Isso não é algo que eu vejo acontecendo em um futuro próximo. Toda essa discussão que tenho visto sobre calote brasileiro, para mim, é prematura. Mas é verdade que se continuar como está, sem o País não implementar medidas que possam fazer uma reforma estrutural das contas públicas, a situação ficará insustentável. A dívida ficará insustentável. De novo: é difícil dizer quando. Há muitos estudos econométricos e farta literatura acadêmica tentando definir qual é o nível sustentável de uma dívida pública. Mas, na prática, não existe definição para isso. Mas hoje é fácil ver que a trajetória da dívida é de alta e a que a taxa de crescimento dessa dívida também tem sido alta. 

O cenário econômico tende a piorar, então?

Na minha opinião, os mercados hoje estão em estado de espera para ver o rumo da política. Se a situação política se normalizar e o governo - seja qual for - conseguir apoio no Congresso para fazer as reformas necessárias, o cenário melhora. Mas se a incerteza se prolongar, com a inoperância e a incapacidade de o governo tomar medidas mais estruturais, vai ser difícil evitar uma crise financeira.

O que exatamente a sra. chama de crise financeira?

Ela pode se manifestar de diferentes maneiras. Pode ocorrer fuga de capitais. Pode ser necessário elevar ainda mais as taxas de juros para poder tornar os papéis da dívida pública mais atraentes, até para os investidores internos, domésticos. Pode ser que haja nova aceleração da inflação. É difícil prever como (a crise) pode se manifestar. 

A sra. chefiou a missão do FMI ao Brasil no fim dos anos 90, um momento econômico delicado. O que foi feito de certo lá atrás?

O ajuste fiscal não foi apenas enérgico, ele foi crível, porque veio acompanhado da Lei de Responsabilidade Fiscal. Havia a percepção de que o governo estava sob o controle da situação. Essa sensação ajudou a suavizar o impacto do ajuste e levou a uma recuperação mais rápida. Mas a raiz daquela crise era mais fácil de ser corrigida do que a de hoje.

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