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Brasil terá 3 anos de aumento de desemprego, prevê OIT

Combate à pobreza e à desigualdade serão prejudicados com aumento, que deve estabilizar em 2017 com taxa de 7,3% 

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Jamil Chade/Correspondente em Genebra,
O Estado de S. Paulo

20 Janeiro 2015 | 06h27

O Brasil sofrerá um aumento do desemprego durante três anos e a alta se estabilizará em um novo patamar mais elevado apenas em 2017. A nova tendência reverte um período de melhoria no mercado do trabalho e cria dificuldades para avanços sociais e no combate à pobreza. 

A previsão é da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que, em seu informe anual sobre o mercado de trabalho, alerta que a desaceleração da economia brasileira terá um custo social e que a expansão do crédito como forma de crescimento da economia não era algo "sustentável". A alta do desemprego no Brasil segue uma tendência de aumento da taxa nos países emergentes que, até 2014, pareciam isentos da crise mundial. 

Pelos dados da OIT, o desemprego no Brasil passou de 6,5% em 2013 para 6,8% em 2014. Neste ano, a taxa deve dar um novo salto e chegará a 7,1%. Nem a Olimpíada ou a Copa do Mundo teriam conseguido reverter a tendência. Em 2016 e 2017, a taxa subirá para 7,3%.

O índice não atingirá a marca de 8% registrado em 2007. Mas, ainda assim, ficará acima da média mundial e, em 2016, o desemprego no Brasil será superior à média dos países desenvolvidos. EUA e Europa estiveram no centro da crise mundial, que afetou de forma importante o mercado de trabalho nas economias maduras. 

Guy Rider, diretor-gerente da OIT, não deixa dúvidas sobre a situação do Brasil. "Os dados são decepcionantes", declarou. "O crescimento é praticamente zero". Para ele, uma combinação de fatores explica a alta do desemprego no Brasil. Um deles seria a alta dependência do País no desempenho das commodities. A queda dos preços internacionais teria afetado o setor e contribuído para o desemprego. 

Outro aspecto criticado pela OIT foi o fato de que, nos últimos anos, a economia brasileira cresceu "com base na expansão do crédito". "Isso não era sustentável", declarou Ryder. "Vimos uma desaceleração decepcionante". 

Questionado pelo Estado, o britânico deu sua receita para que o Brasil possa evitar entrar em um ciclo ainda maior de desemprego. "O País precisa de uma maior diversificação de sua atividade produtiva", defendeu. Para isso, segundo ele, recursos terão de ser investidos na educação e treinamento da população. 

SOCIAL

Na avaliação da OIT, o desemprego e uma economia que não cresce começam já a afetar a capacidade dos governos da América Latina, entre eles o Brasil, de continuar a reduzir as taxas de desigualdade social.  

Em sua avaliação, a entidade aponta que o ritmo da queda da desigualdade perdeu força nos últimos anos, depois de importantes êxitos. Entre 2003 e 2013, a proporção de pessoas com salários de menos de US$ 1,25 passou de 14,1% para 5,5%. Já a classe média - que ganha cerca de US$ 13 por dia - passou de 17,8% para 30%. Os números de pobres passaram de 225 milhões para 164 milhões nesse período. 

"Mas esse avanço perdeu força", alerta a OIT. O total de pessoas trabalhando com salários miseráveis ficou praticamente estável em 2013, com uma queda mínima de 0,2%. 

"Diante da perspectiva econômica fraca para a região, obter novos ganhos na redução da pobreza será um desafio importante", declarou a entidade em seu informe. Além disso, salários continuam a crescer abaixo da produtividade, o que pode ser um obstáculo para os esforços de romper a dependência de commodities.  

Outro fator negativo é a baixa produtividade na América Latina, o que é caracterizado pela OIT como "uma praga" na região. Entre 2003 e 2012, a alta da produtividade foi de apenas 1,5% por ano, abaixo da média mundial de 2%. Com o fim do boom das commodities, o resultado hoje é a incapacidade da região de crescer. Para a OIT, faltam investimentos em infra-estrutura. 

De acordo com a OIT, a realidade do aumento do desemprego não se limitará apenas ao Brasil e atingirá o restante da América Latina que, depois de anos de crescimento forte, passou a ter uma expansão de sua economia abaixo da média das economias ricas.

Em 2015, pela primeira vez desde 2002, a região terá um desempenho mais fraco que EUA e Europa. O desemprego voltou a subir, pela primeira vez desde 2009, e a falta de possibilidades de trabalho para os mais jovens é mais grave hoje que nas economias avançadas.

Assim como no caso do Brasil, a região apostou apenas nas commodities. O problema é que, entre 2011 e 2014, o preço dos minérios caiu em 65% e nenhuma outra alternativa foi avaliada. 

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