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Brasil: um caso de sucesso na preservação ambiental

Eva Botkin-Kowacki - CS Monitor

28 Agosto 2014 | 20h 08

Celso Júnior/Estadão
Revoada de garças na região do Baixo Amazonas, no Estado do Pará

Os cientistas climáticos associam cerca de 10% do aumento anual nas emissões globais de carbono aos efeitos do desmatamento. Mas um novo estudo aponta para uma guinada promissora.

Nos anos 1990, o desmatamento tropical consumia 16 milhões de hectares ao ano, de acordo com relatório divulgado em junho pela Union of Concerned Scientists (UCS). Atualmente, cerca de 13 milhões de hectare de floresta são eliminados anualmente, uma queda de aproximadamente 19%.

As árvores crescem absorvendo dióxido de carbono, que é retido em suas raízes, troncos, galhos e folhas, emitindo oxigênio em seu lugar.

"Essas florestas são os pulmões da Terra", diz Glenn Hurowitz, diretor administrativo da Climate Advisers, organização que defende políticas para o controle do carbono.

Mas, ao morrerem, essas árvores deixam de absorver o dióxido de carbono, devolvendo quase todo esse gás à atmosfera. "Parecia não haver como reverter a maré" do desmatamento, sublinha o relatório da UCS. "Mas, atualmente, o quadro geral é bem mais positivo."

O relatório cita algumas iniciativas que levaram ao declínio do desmatamento. Os pesquisadores analisaram principalmente as políticas de governo, programas de incentivo e reformas econômicas, limitando a abrangência do estudo aos países e regiões que apresentaram sucesso claro e tangível.

"No fim, o relatório mostra que cada euro, dólar, peso, rúpia, dong e franco africano investido é dinheiro bem gasto", diz Doug Boucher, principal autor do estudo, em material divulgado à imprensa. "A recompensa supera em muito o custo."

O Brasil empregou com eficácia um conjunto de métodos de preservação. A floresta amazônica absorve pelo menos 16 toneladas de carbono por hectare, de acordo com estimativas da UCS.

"Parte do que faz dessa uma história de sucesso é o fato de as iniciativas terem sido promovidas por todo o espectro de forças atuantes", diz a coautora do estudo, Pipa Elias, consultora da UCS. No Brasil, os cidadãos e as organizações não-governamentais pressionaram o empresariado e o governo a realizar mudanças. "As sociedades civis pressionam as empresas a adorarem medidas, e então as empresas pressionam o governo para que este aja."

O governo aprovou uma série de leis limitando o desmatamento, incluindo a ampliação das áreas protegidas e a repressão à extração ilegal de madeira. Embora o setor privado tenda a ser o mais difícil de convencer, diz Pipa, as indústrias brasileiras da carne bovina e da soja concordaram com uma moratória no corte de mais árvores.

"Acho que o Brasil em especial percebeu que proteger as florestas é um ingrediente essencial para garantir o acesso global aos seus produtos", disse Hurowitz, que não participou do estudo.

Mas Pipa diz que não há receita direta para o sucesso. "O estudo revela que as iniciativas são muito diversificadas nos vários locais observados." Ela explica que a maioria das regiões precisa levar em consideração seus fatores econômicos individuais.

Uma iniciativa destacada pelos autores por sua eficácia é o REDD+, mecanismo criado pelas Nações Unidas. O programa, cuja sigla em inglês significa Redução de Emissões Provenientes do Desmatamento e da Degradação de Florestas, canaliza recursos dos países desenvolvidos para o mundo em desenvolvimento como inventivo à preservação.

O plantio de novas árvores é também essencial, diz Pipa. A China foi elogiada por seus esforços de reflorestamento, mas esses assumiram em geral a forma de monoculturas ao estilo das plantations, com baixa biodiversidade, diz Pipa. Ela explicou que a China não costuma plantar árvores nativas, algo que as pesquisas mostram dar melhores resultados.

Os programas sustentáveis de reflorestamento incorporam o conhecimento das espécies nativas. Árvores que gostam da luz solar são as primeiras a serem plantadas, e as espécies que preferem sombra vêm em seguida. Esses métodos criam lares para os animais nativos, provendo também um pequeno volume de madeira de corte sustentável.

"Na maioria dos países em que isto ocorreu em grande escala, é preciso enfrentar uma crise para que as mudanças ocorram", diz Pipa sobre o desmatamento.

"Precisamos mudar nossa percepção do que consiste uma crise" para que os países e regiões sintam a necessidade de agir mais cedo, e não mais tarde, acrescenta ela. Uma das grandes preocupações é a Indonésia, por exemplo, onde o desmatamento aumentou apesar de uma moratória do governo no corte de árvores em florestas primárias responsáveis pela absorção do carbono - e onde o monitoramento oficial tem sido questionado. Ainda assim, há otimismo.

"Costumamos falar em 2020 como meta, um ano no qual o desmatamento não precisará mais ocorrer", diz Pipa. Ela está se referindo ao desmatamento líquido: se uma empresa corta árvores para criar um produto, ela teria de plantar um número idêntico de árvores no mesmo local.

O relatório da UCS comentou a situação de muitas regiões tropicais, como Brasil, Guiana, Madagascar, Quênia, Índia, México, Vietnã, Costa Rica, África Central, El Salvador, Tanzânia e Moçambique.

"O relatório vai demonstrar às empresas e países mais lentos que os países em desenvolvimento estão adotando medidas para proteger suas florestas, e isso lhes traz prosperidade. "É maravilhoso poder contar com esses exemplos globais", diz Hurowitz. "O desmatamento não é inevitável."/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL