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Brasileiros com curso superior viram pintor ou garçom nos EUA

Com o índice de desemprego voltando a patamares elevados, brasileiros com nível superior também encontram dificuldade para conseguir uma vaga – e agora estão mais dispostos a sair do País em busca de oportunidades.

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Eduardo Barretto/Especial para o Estado

09 Janeiro 2016 | 19h13

Os Estados Unidos aparecem como um destino atrativo, já que a economia americana, mesmo que longe de números robustos, vive seus melhores momentos desde a crise de 2008. Mesmo que o “sonho americano” na verdade ofereça vagas como pintor, garçom ou mecânico, os salários mais atrativos têm cativado os brasileiros.

Além de atrair brasileiros para trabalhos sem qualificação como os apresentados abaixo pelos três jovens, os Estados Unidos também viraram destino de um contingente maior de estudantes do Brasil.

De um ano para cá, o número de estudantes brasileiros nos EUA cresceu 78,2% – a maior alta observada no relatório anual “Open Doors”, do Instituto de Educação Internacional.

Segundo o relatório, o programa federal Ciências sem Fronteiras foi um dos principais motores para a ascensão do Brasil do 14.º para o 6.º lugar no ranking de países que mais enviam estudantes. Segundo o Itamaraty, dos brasileiros que vivem no exterior, entre 35% e 40% estão nos EUA.

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'Não podia mais perder tempo'

Matheus Seicenti é formado em Ciências Aeronáuticas há três anos. Trabalhou durante três meses. Cansado de esperar sua carreira decolar, pegou um avião para os EUA no dia 6 de outubro.</p>

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10 Janeiro 2016 | 03h00

Graduado pela Universidade de Uberaba (Uniube), o piloto comercial, natural de Monções (SP), estava sem trabalho desde agosto. Na maior parte do tempo, voava de graça para pegar horas de voo, principalmente por São José do Rio Preto (SP), Goiânia (GO) e Palmas (TO).

“Eu já tinha cansado de esperar por um emprego que desse certo. E como vou fazer 26 anos em janeiro, vi que não podia perder mais tempo e que precisava ganhar dinheiro logo”, conta Matheus.

Nas eleições de 2014, o piloto trabalhou em Palmas para um deputado federal – que saiu derrotado das urnas, vendeu o avião e ainda deve salários a Matheus. Ele ainda voou para uma empresa de energia elétrica em Macapá, mas os voos eram esporádicos.

Matheus trabalhou somente com avião monomotor, ganhando R$ 250 por hora de voo. Em bimotor, voou somente para acumular horas. “Desde que me formei, me falavam assim: ‘No próximo ano, a aviação vai voltar a melhorar’”.

Quando chegou a Brighton, em Massachusetts, trabalhou pintando casas, instalando revestimentos de madeira do lado de fora de residências e, por causa do tempo frio, está empregado em um restaurante, preparando hambúrgueres. Ele já ganha mais do que o dobro do salário no Brasil, onde pilotos começam ganhando cerca de R$ 2 mil por mês.

O paulista pretende ficar nos Estados Unidos até a economia do Brasil melhorar, ou até juntar uma boa quantia em dinheiro. “Previsão de anos, de quanto tempo eu vou ficar, eu não tenho muito não. Vai depender”, conta.

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‘Meu sonho mesmo era ser juiz’

Luís Fernando Azevedo, de 25 anos, é um dos formados da turma de Direito da PUC-GO do segundo semestre de 2014. Completou um ano de graduado do seu “curso dos sonhos”. Mas já desistiu de seguir carreira.</p>

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09 Janeiro 2016 | 19h16

“Meu sonho mesmo era ser juiz, mas as coisas não fluíram para isso”, conta o advogado, que morava em Goiânia e chegou aos EUA em 12 de agosto.

Luís já conhecia o piloto Wesley Morais, que havia trocado Goiás pelos EUA. E foi Wesley que foi dando informações a ele de como estava o “sonho americano”. Seis meses depois de Wesley, Luís saiu de Goiânia e desembarcou em Boston. “Ele me falou: ‘aqui é tranquilo, tem trabalho, não precisa se preocupar. O ruim é só a neve’”, lembra o advogado, que já trabalhou na Procuradoria Geral do Estado de Goiás.

Nos primeiros três meses, já mudou de cidade três vezes – sempre no Estado de Massachusetts. Lavou pratos e pintou casas, mas agora, no inverno, limpa colégios e entrega pizzas. “O que eu ganho em uma semana aqui eu ganhava em um mês no Brasil”, afirma.

“Pelas circunstâncias em que o Brasil está hoje, é impossível, é fora de cogitação você continuar batendo na mesma tecla, tentando viver em um País que não te faz crescer, que não te dá abertura. Depois desse escarcéu de um ano para cá, o Brasil está ficando para trás”.

Luís não faz ideia de quando voltará ao País. Enquanto isso, junta dinheiro da limpeza de escolas e das entregas de pizza e manda parte dos rendimentos para a família regularmente.

Ele reconhece também as dificuldades: conta que penou para receber salários de um patrão brasileiro. Mas ele diz não se abalar. “Tem hora que bate um aperto de lembrar que deixei tudo para trás e estou aqui hoje. Mas é impossível voltar agora”, conta o advogado.

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'São cinco anos de atraso'

O piloto comercial Wesley Morais não foi a Massachusetts no início do ano para estudar Aeronáutica no renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT), mas para lavar pratos, pintar cercas e consertar caminhões. Ele é um dos brasileiros que, a fim de escapar da crise, abriram mão de suas profissões e de seu País em busca de emprego.</p>

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09 Janeiro 2016 | 19h15

“Meus clientes não estavam tendo dinheiro para me pagar”, conta o piloto de 24 anos, que voava para um advogado. “Depois das eleições, veio a devastação.” Os pequenos empresários, afirma, logo cortaram custos, e os voos minguaram.

Assim que chegou aos EUA, Wesley, formado pela PUC-GO havia um ano e meio, conseguiu um emprego na cozinha de um restaurante, lavando louças: 30 dias por mês, 12 horas por dia.

Porém, o jovem de Minaçu (GO) ficou aliviado ao perceber que poderia se manter em Boston e ainda pagar o que resta do financiamento de seu curso superior, já que o bacharelado em Ciências Aeronáuticas foi 100% bancado pelo Financiamento Estudantil (Fies). “Sem exigência de qualificação, já estava ganhando praticamente o que eu ganhava aí no Brasil formado”, afirma Morais sobre o primeiro trabalho nos EUA.

Em cerca de seis meses, Wesley viu seu salário engordar bastante. Agora, quase um ano depois, trabalha em uma oficina que personaliza caminhões clássicos. Ele também encontra tempo para um curso técnico de carpintaria. O piloto comercial, que envia dinheiro para a família todo mês, almeja um emprego na construção civil.

Sem folgas, não reclama de cansaço: “São cinco anos de atraso”, afirma, referindo-se ao período em que ficou estudando e fazendo cursos. “Não dá para descansar, mas não pode ficar parado. Ninguém espera por ninguém aqui.”

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