Brasileiros jacobinos e girondinos

Identificar, julgar e punir todos os culpados é uma necessária lição de cidadania e consolidação das instituições

João Crestana*, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2017 | 05h00

A época de 1790 foi uma das mais significativas. Os franceses, em busca de valores democráticos, ou enojados com seus representantes, empreenderam mudanças drásticas na administração nacional, e essas criariam um acervo de vivências institucionais para o mundo. Duas forças principais disputavam a hegemonia, tentando impor sua visão de nação. Os girondinos, mais conservadores, sentavam-se à direita na Assembleia, e os jacobinos, mais radicais, à esquerda. Aliás, daí surgiu o conceito correspondente.

Os jacobinos impuseram o “Reino do Terror”, executaram o rei e milhares pela guilhotina, fazendo valer suas ideias. Em 1794, os girondinos prevaleceram, mas o terreno, fértil de sangue e punições, fez florescer Napoleão, o gênio militar que restabeleceu a ordem e implantou, na espada e na pólvora, novo modelo estrutural, base para as instituições atuais em muitas nações democráticas.

O Brasil de hoje parece se espelhar na dicotomia francesa daquela época. Brasileiros se dividem entre jacobinos, ansiosos por eliminar os corruptos de plantão, ou os que estão de pijama após a pilhagem, e girondinos buscando fazer com que o pragmatismo prevaleça e os trâmites governamentais continuem a funcionar, mesmo que precariamente, em busca de realizações econômicas e sociais, consentâneas com sua ideologia.

Os papéis se alternam, quando um partido ou outro se encontra no poder. Quando o PT está no poder, caça aos petistas; quando o PMDB manda, punam-se os peemedebistas. Os protagonistas mudam entre parar tudo e punir ou preservar o mando e implantar sua visão de Nação. 

O Brasil parece ter desabrochado daquele país cujo povo cordato se limitava a esperar o próximo salvador da pátria, flagrante infantilidade republicana. A tecnologia multiplicou o poder das comunicações, dúvidas e incertezas permeiam, dividindo famílias, amigos e instituições antes monolíticas e consensuais. Mas a indignação e o desencanto se revezam na mente do brasileiro, a nortear suas ações. Às vezes há a revolta e manifestações coletivas; outras, desesperança e negação da própria cidadania.

A questão parece ser se devemos paralisar o País para julgar e punir exemplarmente os corruptos ou se admitimos um resquício de dúvida sobre culpabilidades e permitimos que o País funcione, implantando as necessárias reformas em práticas anacrônicas, visivelmente daninhas ao desenvolvimento e à inserção no rol de países ditos de Primeiro Mundo.

Se a análise é estratégica, a longo prazo, é óbvio que a corrupção não é tolerável, não se admite nação decente e aspirante a um lugar entre os grandes, se quem domina o poder são as organizações criminosas, travestidas ou não de características democráticas. 

Já no cotidiano, nossos funcionários precisam de salários, hospitais devem continuar o atendimento, escolas e creches, continuar sua precária lide, empregos devem ser criados, o consumidor ativo deve continuar puxando a roda da produção.

Como conciliar estas duas visões e assegurar que a vida continue e se encontrem os reais culpados e a punição seja visível aos cidadãos? E é indispensável esse caráter didático, já que os jovens começam a desprezar a honestidade, privilegiando a esperteza nociva, ou pior, mudam-se para outros países e levam consigo nossa capacidade de pensar, de produzir tecnologia, de educar para o bem e para o construtivo. 

É essencial que as forças produtivas, associativas, acadêmicas, de comunicação e religiosas se movam em busca de solução conciliadora das duas visões antagônicas que asfixiam a Nação. Identificar, julgar e punir todos os culpados é uma necessária lição de cidadania e consolidação das instituições positivas, porém não se justifica paralisar o País para que isso seja feito, muito menos é aceitável agir acima da lei, ou tratar outros abaixo dela, para prender os criminosos. 

Esperar por alguém que, tal como Napoleão, venha nos conduzir e impor suas convicções é tolice. Chega de imaturidade política, de infantilidade democrática. Vamos nós mesmos garantir nossa liberdade, aceitar nossas responsabilidades e construir uma Nação altaneira, produtiva, com cidadãos educados para o bem e para a igualdade de oportunidades. 

*ENGENHEIRO, MESTRE PELA STANFORD UNIVERSITY, FOI PRESIDENTE DO SECOVI

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