Caçadores das moedas perdidas

As criptomoedas já são um mercado de mais de duzentos bilhões de dólares, que está dando apenas seus primeiros passos

Guy Perelmuter*, O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2017 | 07h34

A atividade bancária acompanhou o desenvolvimento do comércio desde a Antiguidade, assumindo seu perfil atual no início do século XV na Europa - em particular, na Itália, então o centro financeiro de um mundo que começava a conhecer o Renascimento. O uso da palavra "Banco" para descrever as atividades financeiras provavelmente originou-se nesta época, visto que as transações eram realizadas em "bancas" - palavra italiana antiga que significa "mesa". Apesar de uma longa história, algumas características do negócio bancário permanecem praticamente inalteradas - como, por exemplo, o conceito de moeda como unidade de valor. Já vimos neste espaço que a forma de atuação de diversos serviços está mudando significativamente. Mas a tecnologia avança agora sobre algumas das pedras fundamentais do modelo tradicional de funcionamento dos bancos.

Instituições financeiras, e bancos em particular, são provedores de uma lista ampla de serviços: empréstimos, transferências, pagamentos, gestão de recursos. São cuidadosamente regulados e fiscalizados em todo o mundo, em função da dependência entre as atividades agrícolas, industriais e de serviços com um sistema financeiro saudável. Seu principal produto é o dinheiro, que está passando por uma inovação importante com a introdução das chamadas criptomoedas. Tradicionalmente, sistemas financeiros são centralizados e coordenados pelas autoridades monetárias de cada país - que também agem de forma integrada globalmente, visando manter a estabilidade, robustez e segurança do sistema. A chamada "base monetária" é definida pelos bancos centrais, que podem emitir mais dinheiro - fornecendo assim mais liquidez para o sistema - conforme sua interpretação da situação econômica como um todo.

A implementação mais conhecida de uma criptomoeda - o bitcoin - foi idealizada por uma figura misteriosa conhecida como Satoshi Nakamoto, que pode ser uma ou várias pessoas que trabalharam juntas por cerca de dois anos provavelmente a partir da costa leste dos EUA, da América Central ou da América do Sul no modelo lançado em 2009. Ao contrário das moedas tradicionais, não há controle por parte de um agente central: quando um determinado tipo de criptomoeda é lançada, as regras sobre qual será a quantidade máxima daquele tipo específico de criptomoeda que será criado e qual a velocidade com a qual irá se atingir este valor são determinados. Analogamente à extração de minérios preciosos, que existem em quantidade finita no planeta, as criptomoedas também têm seu estoque pré-definido. E assim como os mineiros extraem as pedras preciosas da terra, criptomoedas também são "encontradas" por uma comunidade de mineiros virtuais, em velocidade semelhante à extração de ouro no mundo real.

A "extração" de criptomoedas é um processo computacionalmente intensivo, e é a forma como mais "unidades monetárias" são colocadas em circulação. Existem centenas de tipos de criptomoedas atualmente, cada uma com sua implementação digital: bitcoin, ethereum, ripple, dash, litecoin e monero são apenas alguns exemplos. A cotação do bitcoin, por exemplo, flutua significativamente e hoje um bitcoin (BTC) vale cerca de sete mil dólares (USD) - no final de 2016, estava cotado abaixo dos mil dólares. Como há cerca de 16,7 milhões de bitcoins em circulação, isso quer dizer que seu valor total já ultrapassa cem bilhões de dólares. Estima-se que ainda há quatro milhões de bitcoins a serem "mineirados" no mundo, e muitos estão à caça destas moedas. Já o ethereum (ETH) possui o segundo maior valor de mercado entre as criptomoedas, ultrapassando os US$ 30 bilhões.

Mas quem estiver disposto a caçar essas moedas precisa dedicar tempo e recursos computacionais para resolver problemas complexos, com o objetivo de criar um ambiente estável, seguro e à prova de fraudes. O sistema de controle da extração e registro das transações com as criptomoedas - incluindo a inserção de novas moedas no mercado - é chamado de blockchain, literalmente uma "cadeia de blocos". Suas implicações transcendem o mundo das criptomoedas, e será este nosso tema para semana que vem. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Mais conteúdo sobre:
Economia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.