Agliberto Lima|Estadão
Agliberto Lima|Estadão

Cade pode barrar compra da Liquigás pela Ultragaz

Sem o aval do órgão, o grupo Ultra terá que pagar uma multa contratual de R$ 280 milhões à Petrobras, o equivalente a 10% do negócio de R$ 2,8 bilhões

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2018 | 21h42

BRASÍLIA - A relatora do processo de compra da Liquigás pela Ultragaz no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Cristiane Alkmin, votará pela reprovação da operação nesta quarta-feira, 28, de acordo com fontes que acompanham as negociações. A operação será analisada pelo órgão e o voto contrário da relatora poderá ser a pá de cal no negócio. Sem o aval do Cade, o grupo Ultra terá que pagar uma multa contratual de R$ 280 milhões à Petrobras, o equivalente a 10% do negócio de R$ 2,8 bilhões.

Sem conseguir acordo com a relatora, como é o usual no conselho, o grupo Ultra negociava até esta segunda-feira, 26, com outra conselheira, Polyanna Vilanova, que deve  apresentar um voto em separado pela aprovação do negócio condicionada à venda de ativos, que poderá  ser seguido por outros conselheiros.

De acordo com fontes que acompanham as negociações, vários conselheiros têm restrições a aprovar a operação e a tendência é que o negócio seja barrado. Com a líder do mercado de gás de botijão (GLP) comprando a segunda colocada, a fusão das duas empresas foi considerada complexa desde o anúncio, em novembro de 2016, ao elevar a concentração de mercado das nova companhia a mais de 60% em alguns municípios.

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Em agosto do ano passado, um parecer da superintendência do Cade recomendou a reprovação da operação por entender que “não há pacote de remédios que enderece de forma adequada todas as preocupações identificadas”.

Nos últimos meses, a relatora Cristiane e os advogados da Ultra e da Liquigás se reuniram várias vezes, na tentativa de encontrar um acordo que viabilizasse a aprovação da operação, mas não teriam encontrado uma solução considerada “contundente” pela relatora.

Segundo o Estadão/Broadcast apurou, a relatora Cristiane Alkmin chegou a estudar várias propostas, desde vender marcas menores até a própria marca Liquigás. Esbarrou, no entanto, em uma barreira regulatória: uma regra da Agência Nacional do Petróleo (ANP) impede que uma empresa envase um botijão grafado com o nome de outra concorrente.

Com isso, seria inviável vender a marca Liquigás e se desfazer de todos os botijões da empresa ao mesmo tempo, que estão espalhados por todo o país. “A conselheira chegou à conclusão de que se trata de um caso que não pode ser salvo”, disse uma pessoa com acesso ao caso.

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A Ultra lançou mão então da última cartada para aprovar o negócio na semana passada e passou a negociar com Polyanna, que havia conseguido a maioria do conselho no caso da compra da Votorantim pela Arcelor, no início do mês, aprovando esta operação condicionada à assinatura de um acordo.

O caso é importante tanto para a estatal - que está em processo de desinvestimentos de ativos não estratégicos - quanto para o Ultra, que se isolaria na liderança com essa transação.

Em agosto do ano passado, o grupo Ultra já teve barrado outro importante negócio pelo órgão antitruste - a compra da rede de postos Ale pela Ipiranga. A avaliação de fontes da área é que a Ultra “menosprezou” o Cade nos dois casos.

O conselho, que tinha um longo histórico de aprovações desde que passou a analisar operações previamente, em 2012, passou a ter o braço mais pesado desde o ano passado, após ser envolvido na delação de executivos da JBS.Em 2017, o Cade reprovou também a compra da rede Estácio pela Kroton e a compra da Mataboi pelo grupo JBJ - antes disso, tinha reprovado apenas cinco outras operações.

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Procurado, o grupo Ultra disse que não se pronuncia a respeito do julgamento. A Liquigás disse que não se pronuncia sobre a venda pois o negócio é de responsabilidade única e exclusiva da Petrobrás, sua detentora. A Petrobrás, por sua vez, disse que não comentaria.

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