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Caminho é aproximar escola e empresa

Estudo aponta que somente 22% dos egressos de cursos profissionalizantes trabalham na área em que se formaram

Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

04 Setembro 2015 | 03h00

Um dos caminhos apontados pelos especialistas reunidos no evento Fóruns Estadão Brasil Competitivo - Educação para o Trabalho é aproximar as escolas profissionalizantes do mercado de trabalho. O professor da FGV André Portela Souza apresentou estudos mostrando que só 22% dos egressos dos cursos profissionalizantes trabalham atualmente na área em que se formaram, sendo que 58% nunca nem sequer passaram pelo setor. 

“Há um descasamento entre a estrutura de postos de trabalho e a oferta de educação profissionalizante. Uma das hipóteses é que o mercado de trabalho está mudando muito rápido, mas nós também podemos estar achando que a nossa jabuticaba é melhor que as outras”, criticou Souza, afirmando que é preciso flexibilizar a oferta de vagas e também a grade curricular. 

Lembrando que crescimento econômico depende de aumento da produtividade, ele mencionou que o ponto-chave é combinar a distribuição de talentos com postos de trabalho. “Uma empresa não cria postos de trabalho altamente avançados em tecnologia se não tiver trabalhadores para aquela vaga. E uma pessoa não vai querer se formar se não tiver um posto de trabalho para aquela profissão.”

Para o diretor-geral do Senai, Rafael Lucchesi, há pouco diálogo entre universidades e empresas. Ele citou que o Brasil tem 41 especialidades de engenharia e talvez fosse o caso de fazer como a Alemanha, que reformulou os currículos e optou por uma formação menos especializada. “O importante é formar um decisor altamente qualificado para organizar, como engenheiro, a produção”, afirmou, citando o exemplo do Protocolo de Bolonha, adotado na União Europeia em 1999.

Na avaliação dele, as escolas viraram as costas para o mercado de trabalho. Lucchesi mencionou algumas iniciativas que poderiam ajudar a mudar esse panorama, como maior estímulo ao empreendedorismo, oferta de planejamento de carreiras para os alunos e mesmo exigências de que parte dos docentes venha do mercado de trabalho.

Parceria. O diretor de recursos humanos da Robert Bosch América Latina, Fernando Tourinho, apresentou um exemplo bem-sucedido de parceria entre o mercado de trabalho e as escolas profissionalizantes. Ele lembrou que, quando a companhia abriu uma unidade nova em Pomerode (SC), não havia nenhum curso profissionalizante na região que atendesse às necessidades da fábrica. Então a Bosch doou equipamentos e conseguiu trazer uma escola do Senai para a cidade.

Tourinho destacou que, fora dos grandes centros, a disponibilidade do ensino técnico ainda é limitada. “Escolas mais próximas das empresas conseguem resultados melhores.”

Souza, da FGV, lembrou que as leis trabalhistas no Brasil são muito rígidas e, às vezes, impedem a extinção de profissões que já foram superadas pela tecnologia. 

Ele citou um caso do início dos anos 2000, quando o Congresso aprovou um projeto de lei do deputado Aldo Rebelo que proibia o autosserviço nos postos de combustíveis, com a desculpa que isso poderia eliminar 300 mil postos de trabalho dos frentistas. “O que nós precisamos é de medidas compensatórias, ‘retreinar’ as pessoas que estão nessas profissões que morrem. Não podemos impedir o aumento da produtividade, da relação capital-trabalho. Será que não temos condições, como sociedade, de nos abrir para o novo?”, questionou Souza.

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