Tecnologia faz renda crescer no campo e trabalho informal cair, aponta estudo

Márcia De Chiara , O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 05h00

Desde que começou a cursar agronomia na Universidade Estadual de Londrina (PR), Gustavo Okano Alves Pinto, de 22 anos, queria trabalhar na área digital. No segundo ano da faculdade, um professor lhe apresentou a agronomia digital. Ela une o conhecimento da agronomia tradicional e um grande número de dados coletados no campo em tempo real, além de informações sobre o passado das lavouras. Com isso, é possível decidir o melhor momento, por exemplo, de plantar, gastando menos.

“Percebi que aquela toada da agronomia tradicional estava muito batida”, lembra Okano. De lá para cá, ele começou a procurar cursos e estágios paralelos à faculdade para se tornar um agrônomo digital. Hoje, prestes a concluir a faculdade, acredita que com essa qualificação extra poderá conseguir um emprego com salário inicial até 25% maior do que o pago a um agrônomo tradicional. “A agronomia digital é um mar de calmaria: pouca gente trabalhando e uma demanda forte por profissionais qualificados.”

O que o estudante percebeu na prática aparece nos resultados de uma radiografia do mercado de trabalho do agronegócio, feita pelo Centro de Estudos do Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Nos últimos cinco anos, o agronegócio tem absorvido cada vez menos mão de obra, sobretudo informal. Isso ocorreu por causa da incorporação de novas tecnologias no campo, mais intensivas em capital, que ampliaram a produtividade. O resultado foi o aumento da remuneração dos trabalhadores, num ritmo mais intenso do que o da economia em geral. O campo admitiu profissionais qualificados, como Okano, e pagou mais por isso.

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O estudo inédito, baseado em dados da Pnad do IBGE e coordenado pelo economista Felippe Serigatti, revela que entre 2012 e 2017 a população ocupada no agronegócio caiu 1,9% ao ano. Em 2012 eram 19,7 milhões de pessoas e, no fim do ano passado, 18 milhões.

A queda foi mais acentuada no trabalho informal (- 3,4% ao ano), mas também houve recuo nos trabalhadores formais do agronegócio (-1,4%). Na agricultura, que é um dos segmentos do agronegócio, a retração na ocupação foi bem maior: de 5% ao ano nas contratações informais e de 4,9% nas formais. “O agronegócio tem absorvido cada vez menos mão de obra informal e com menos qualificação. Isso pode parecer uma má notícia, mas não é”, afirma Serigatti. 

Ele argumenta que, com o uso intensivo de tecnologia, a produtividade e a renda dos ocupados aumentou. Entre 2012 e 2017, o rendimento médio real (descontada a inflação) do trabalho no agronegócio cresceu 7%, muito acima do avanço registrado para os trabalhadores de todos os setores da economia no período, de 4,6%. Na agropecuária, o avanço acumulado em cinco anos foi de 9,2% e na agricultura, de 8,3%.

Caos. Serigatti explica que a redução de mão de obra no campo não levou ao aumento do número de desempregados. “Não compartilho dessa hipótese de que a liberação dessa mão de obra tenha levado ao caos social.” Com mais produtividade, o agronegócio, ampliou a renda nas cidades do interior e os desempregados do campo foram trabalhar no setor de serviços.

O economista faz essa afirmação com base no desempenho da economia do interior que, de acordo com o IBGE, foi melhor do que o das regiões metropolitanas. Entre 2000 e 2015, o PIB das cidades dos interior cresceu 3,7% ao ano, enquanto o das regiões metropolitanas avançou 2,5% e o do País subiu 3%. 

Um estudo da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) confirma a tendência apontada pela FGV, porém com números diferentes. Renato Conchon, coordenador do Núcleo de Economia da CNA, diz que a fatia da mão de obra ocupada no agronegócio, que era de 32% em 2014, caiu para 19% em 2017. “O campo está contratando menos e pagando mais”, afirma.

A parcela de trabalhadores que recebiam até um salário, que era 33,6% dos ocupados em 2014, recuou para 29,8% em 2016. No mesmo período, a fatia dos que não tinham instrução ou até dois anos de estudo diminuiu de 34,4% para 32,3%. “O campo como mercado de trabalho para os sem qualificação está cada vez menor”, observa.

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Márcia de Chiara, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 05h00

A falta de trabalhador qualificado é um gargalo que pode comprometer o crescimento do agronegócio no médio prazo, pressionando custos, sobretudo em lavouras com uso intenso de tecnologia, como a soja.

No Mato Grosso, o maior produtor de soja do País, que neste ano deve colher 32 milhões de toneladas, existe um déficit de mão de obra especializada, conta o diretor executivo da Associação dos Produtores de Milho e Soja (Aprosoja), Wellington Andrade. “Não tenho números sobre o tamanho do déficit, mas ouço relatos de produtores sobre a dificuldade de encontrar trabalhadores qualificados.” 

Ele conta que a quantidade de mão de obra qualificada formada pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Mato Grosso não é suficiente para atender à demanda.

Não é por acaso que o estudo da FGV sobre o mercado de trabalho no campo aponta que a soja foi a atividade do agronegócio que melhor remunerou os trabalhadores. No ano passado, a mão de obra empregada no cultivo do grão recebeu, em média, R$ 2.610,48 por mês, uma cifra 26% maior do que a remuneração média da população ocupada em todas as atividades no País (R$ 2.078) e acima do agronegócio como um todo (R$ 1.406). Andrade, da Aprosoja-MT, e o economista Renato Conchon, da CNA, concordam que a escassez de trabalhadores qualificados tem pressionado os salários dentro da porteira. 

O economista da CNA explica que a produtividade no campo considera os fatores terra, tecnologia e mão de obra. No caso da terra, há limitações na expansão de área. Na tecnologia, os ganhos de produtividade alcançados até agora podem não se repetir no futuro. É exatamente na mão de obra, segundo ele, que há espaço para crescer a produtividade. “O desempenho do agronegócio pode estar ameaçado, se não houver oferta de trabalhadores qualificados para operar máquinas e agrônomos para interpretar dados.”

Herlon Oliveira, CEO da Agrusdata, empresa especializada em projetos de lavouras digitais, vê, na prática, o gargalo de mão de obra qualificada e a valorização dos profissionais com conhecimento na interpretação de uma grande quantidade de dados, que é o coração da agricultura digital.

Há dois anos e meio implantando projetos de agricultura digital, Oliveira conta que tem 40 clientes, a maioria produtores de grãos. “Há uma corrida para agricultura digital, que ampliou a demanda por projetos e profissionais treinados.” Ele explica que, com a agricultura digital, é possível cortar em até 9% o custo das lavouras, por conta do uso acertado dos dados na tomada de decisões. Mas a oferta de agrônomos digitais ainda é pequena.

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José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 05h00

A bordo de uma colheitadeira de R$ 1,4 milhão, no conforto do ar condicionado, o operador de máquina Lourival Obnesorg, de 47 anos, aciona o piloto automático e observa os painéis que medem o índice de perdas e de umidade da soja que vai enchendo o reservatório de carga. Nos últimos dez anos, desde que deixou de roçar pasto e arrancar feijão à mão, ele passou de motorista de caminhão e tratorista para uma das profissões mais valorizadas do campo: “piloto de colheitadeira”, como dizem por lá. 

Lourival é um dos nove funcionários de campo da fazenda Jequitibá do Alto, em Buri, no sudoeste paulista, e tem um ganho bruto mensal de R$ 2,8 mil, equivalente ao de um professor da rede municipal com curso superior. Mesmo tendo só o 2º grau,

Obnesorg tornou-se perito em máquinas com alta tecnologia embarcada, como colheitadeiras, pulverizadores e plantadeiras, acompanhado a evolução do trabalho no campo. “Comecei com o trator, estudando tudo sobre a máquina, depois fiz curso de operação de plantadeira em Ponta Grossa (PR) e, há cinco anos, peguei a primeira colheitadeira.”

O operador conhece todos os detalhes do equipamento e, mesmo com o piloto automático em operação, interfere para melhorar o desempenho. “A máquina pode fazer muita coisa sozinha, mas não gosto de ficar só olhando.” Na safra, Obnesorg trabalha até dez horas por dia, mas não precisa ir longe para estar em casa. Ele mora numa casa confortável, na propriedade, com a esposa Janaína e as filhas Ingrid, de 13 anos, e Talita, de 5 – a moradia, água e energia são fornecidas pela fazenda, como benefícios.

O produtor Frederico D'Ávila, dono da fazenda, conta que, além dos homens de campo, tem outros cinco funcionários que mantêm o secador, os silos, o sistema de irrigação com 13 pivôs centrais e a área administrativa. “São 15 funcionários comigo, pois exerço a função do administrador, fazendo a programação da safra, definindo as áreas de plantio, cultivares e cuidando da comercialização.”

Ele conta que a maior parte dos trabalhadores está na fazenda desde que era administrada pelo seu pai, o engenheiro Aluizio Monteiro D’Ávila. “Não é uma mão de obra fácil de achar, por isso investimos na qualificação dos que se interessam, têm cuidado com as máquinas e são leais a empresa.”

É o caso do operador Aguinaldo Batista, de 44 anos, que começou a trabalhar com o pai de Frederico e já foi braçal, roçando pasto e construindo cercas. Além de trator e colheitadeira, ele fez curso para operar o pulverizador, equipamento de alta sensibilidade e muita tecnologia. “É tudo controlado por computador e GPS, mas a gente precisa estar preparado para intervir na hora certa, corrigindo alguma operação ou passando algum posicionamento por rádio para o companheiro em outra máquina”, descreve.

Aguinaldo tem dois irmãos que também abriram mão de carreiras na cidade para permanecer no campo, na Jequitibá do Alto. Marcelo também opera máquinas e Edinelson trabalha no setor administrativo. Com os nove funcionários de campo, D’Ávila cultiva 1,5 mil hectares por ano, produzindo 9,6 mil toneladas de grãos – cerca de 30% de soja. “Se terceirizasse o secador e o transporte, poderia ter ainda menos mão de obra, mas prefiro ter todo o processo sob nosso controle.” 

Migração. O frentista Eliel Soares, de 33 anos, já teve os dois pés no campo, em Capão Bonito, cidade da mesma região, mas não conseguiu acompanhar a evolução do setor. “Foram seis anos trabalhando na propriedade rural do meu sogro, num sistema em que eu era meio empregado e meio comodatário. Não tinha registro em carteira, folga ou férias. Fazia de tudo, desde tirar leite até arar a terra com trator, mas não aguentei.” Ele conta que a propriedade, pequena para a região, não comportava máquinas com muita tecnologia. 

Sem vislumbrar chances de melhorar a renda, ele se preparou para disputar um emprego na cidade, fazendo um curso técnico de auxiliar administrativo e o primeiro ano de curso superior em administração. Acabou conseguindo emprego de frentista, num posto de combustíveis. “Tive que disputar uma vaga com muitos trabalhadores rurais que deixaram o campo, mas acabei acertando.” 

Soares conta que, entre salário e benefícios, como cesta básica e cartão de alimentação, tira cerca de R$ 2 mil mensais e se considera bem remunerado. O ganho, segundo ele, é o suficiente para manter a família – ele, a mulher e uma filha de dez anos. “Meus pais ainda moram no campo, mas meu irmão também já veio para a cidade.”

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