Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Capitalismo vermelho ou rosa?

Ninguém consegue ser bem-sucedido na China sem boas relações com o governo, diz especialista

THE ECONOMIST

21 Setembro 2015 | 03h00

"Não há empresas verdadeiramente privadas na China”, declara um veterano consultor de multinacionais. De certa forma ele tem razão. Na economia da potência asiática, o Estado e o Partido são onipresentes e seu papel é garantido em lei. Além disso, como sustenta Kent Kedl, da consultoria Control Risks, especializada em riscos políticos e administração de crises, “ninguém consegue ser bem-sucedido na China com uma atuação estritamente limitada ao universo privado. É preciso proximidade com pessoas poderosas. Mas isso pode ser tanto um ativo, como um passivo.” Os cupinchas de Bo Xilai, o ex-todo-poderoso presidente do Partido Comunista (PC) chinês, que agora está na cadeia, sabem bem disso.

Para descobrir se determinada companhia chinesa tende a se comportar como “campeã” estatal, ou como empresa de mercado, é preciso fazer três perguntas. Primeiro: a companhia atua num setor estratégico da economia? Peter Williamson, professor da Judge Business School, da Universidade de Cambridge, diz que o governo chinês sempre interfere em empresas que atuam em setores considerados estratégicos, mesmo quando se trata de multinacionais. Mas o oposto disso também é verdade. Estatais que operam em setores para os quais o governo dá pouca importância podem se comportar como se fossem empresas privadas. A fabricante de eletrodomésticos Gree Electric é controlada pelo Estado, mas seu presidente, Dong Mingzhu, um empresário que defende sua independência com unhas e dentes, transformou-a numa companhia altamente competitiva.

Segundo: quem toma as decisões sobre salários, promoções e contratações? Em estatais de grande porte, como a petrolífera Sinopec, o departamento de organização do Partido mantém os executivos mais importantes sob seus cuidados. O presidente do Alibaba, Jack Ma, vê a coisa da seguinte maneira: se os membros do conselho de administração e da diretoria são escolhidos pelos acionistas, a empresa é privada.

Mas as aparências às vezes enganam. A Academia Chinesa de Ciências ainda controla cerca de um terço da Legend Holdings, fazendo com que o conglomerado fundado por Liu Chuanzhi pareça uma estatal. Mas, graças a reformas na estrutura acionária, implementadas por Liu, a administração da corporação é independente. Yang Yuanquing, presidente da subsidiária mais famosa do grupo, que leva o nome de Lenovo, observa que muitos dos principais cargos de sua diretoria já foram ocupados por estrangeiros: “Se o governo controlasse a companhia, isso jamais teria acontecido”.

A pergunta mais difícil de ser respondida diz respeito às relações da empresa com o Partido. Algumas lideranças empresariais vestem com gosto a carapuça vermelha. Wang Jianlin, o bilionário que preside o vasto conglomerado privado Dalian Wanda, é um filho dileto da elite. E, quando se trata de cultivar relações com pessoas influentes, ele não dá ponto sem nó. Muitas das divisões de seu grupo, de produtoras cinematográficas a parques temáticos, atendem ao desejo dos líderes comunistas de cultivar o “soft power” do regime. Isso “é extremamente benéfico”, diz Wang com entusiasmo, pois garante a sua empresa “mais apoio financeiro, e especialmente, apoio estatal”.

Mas o fato de que um empresário tenha boas guanxi (relações com pessoas influentes) não quer dizer, necessariamente, que o Partido controle sua empresa. As estatais desfrutam de vantagens enormes, e isso obriga as empresas privadas a manter proximidade com o Partido, argumenta Scott Kennedy em relatório da Gavekal Dragonomics. “Os empresários chineses estão mais para rosa do que para vermelho”, diz ele.

Se os funcionários são membros do Partido, como ficam suas lealdades? Kedl diz que a atuação das unidades partidárias no interior das empresas em geral é extremamente benigna. Ma, do Alibaba, que não é comunista, observa que há membros do Partido entre seus principais executivos. Liu diz o mesmo sobre a Legend. O homem que mais fez para modernizar o setor privado chinês solta uma bomba: o chefe do núcleo partidário de sua empresa é ninguém menos que ele próprio.

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