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Clima vai favorecer agricultura, mas não alivia energia

Anna Carolina Papp - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 17h 07

Na previsão de meteorologistas, chuvas devem animar produtores de grãos, mas serão insuficientes para encher reservatórios do País

 As condições climáticas dos próximos meses devem favorecer a produção de grãos na safra 2014/2015. Segundo meteorologistas, as chuvas chegam com força em outubro e, diferentemente do ano passado, os riscos de seca e quebra de safra estão minimizados. No entanto, a ocorrência de uma modalidade diferente do fenômeno El Niño exige cuidados no Sul do País, com chuvas mais irregulares, embora atenue os riscos de seca no Norte e Nordeste.

Segundo Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, pancadas de chuva no Sudeste e Centro-Oeste do País devem chegar já a partir da semana que vem, mas ainda de forma irregular. Com isso, quem pretendia dar a largada no plantio logo após o vazio sanitário – janela entre uma safra e outra para evitar a continuidade de doenças de uma mesma cultura –, que termina em 15 de setembro, pode ter de esperar.

Sergio Neves/Estadão
Produtores de soja esperam chuvas mais regulares para aumentar a produção

“Isso pode causar certa apreensão nos produtores, pois muitos talvez se arrisquem já pensando na safrinha, e podem acabar tendo de fazer o replantio”, diz o meteorologista. “Já em meados de outubro as coisas começam a entrar nos eixos – as chuvas ganham força, abrangência e frequência.”

A Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja/MT) também espera chuvas mais regulares no Mato Grosso a partir de outubro, que vem se consolidando como o mês do plantio; mas afirma que alguns agricultores arriscam a “semeadura no pó” – plantar antes das chuvas.

A entidade espera que a produção de soja na próxima safra supere os 90 milhões de toneladas. Segundo o IBGE, apesar de ameaçada pela estiagem no início do ano, a safra 2013/2014 dificilmente perderá o título de recorde até então, alcançando 86,6 milhões de toneladas – 6% mais do que a safra anterior.

El Niño. Neste ano, os meteorologistas aguardavam o fenômeno El Niño – aquecimento das águas do Pacífico, que provoca sobretudo chuvas intensas no Sul e seca no Nordeste. “Estamos com apenas meio grau de aquecimento acima da média. Para ter o impacto esperado, as águas estariam dois ou três graus Celsius acima da média”, diz Cristopher Vlavianos, presidente da comercializadora de energia Comerc.

“O El Niño será não só mais fraco, mas chama a atenção que o aquecimento está ocorrendo numa área diferente”, diz Oliveira, da Somar. “Está mais ao meio do Pacífico, e não na costa da América do Sul.”

A ocorrência do falso El Niño muda a influência do fenômeno no País. Um efeito é que ele mitiga a seca que afetaria Norte e Nordeste caso houvesse o El Niño clássico, trazendo chuvas a importantes regiões produtoras, como a Bahia. 

Em contrapartida, a Região Sul, que teria chuvas intensas, deve contar com precipitações mais irregulares, como na safra 2004/2005. “Não há motivo para medo, mas apenas para cautela, pois não há aquela garantia de São Pedro. Vai chover no Sul, mas de forma mais irregular”, diz Oliveira.

Já Alexandre Nascimento, meteorologista da Climatempo, avalia o cenário como favorável. “Apesar da chance da irregularidade de chuvas no Sul, o fenômeno beneficia a região de não ter chuva demais, o que também não é bom.”

Energia. Já para o setor elétrico, as condições climáticas não são tão animadoras. “A chuva da agricultura não é a mesma que enche reservatório”, diz Oliveira. Segundo ele, enquanto na agricultura o mais importante é a frequência, ainda que com quantidade abaixo da média, para encher reservatórios é necessária uma chuva mais intensa e persistente. “Dias de sol com pancadas de chuva não servem nesse caso. Seria necessário uma zona de convergência do Atlântico Sul, ou uma frente fria parada sobre São Paulo trazendo chuvas por vários dias.”

Nascimento, da Climatempo, diz ainda que, além de não haver previsão de chuvas intermitentes sobre o Sudeste a ponto de fazer diferença nos reservatórios, o El Niño, ainda que mais fraco, eleva a temperatura. “Estará mais quente, então devemos ter consumo maior de água e energia, o que deixa o quadro ainda mais crítico.”