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Com atraso, Belo Monte entra na fase final

Cronograma das obras foi comprometido por causa de manifestações e invasões de ribeirinhos, índios, ambientalistas, além de greves e decisões judiciais

Renée Pereira

21 Junho 2014 | 17h 17

As seis carretas que deixaram Taubaté, no interior de São Paulo, com as primeiras peças para montagem eletromecânica da Hidrelétrica de Belo Monte demoraram quase três meses para chegar ao destino final, em Vitória do Xingu, no Pará. Foram quase 3 mil quilômetros de estrada e rio carregando partes do pré distribuidor, que montado tem 11 metros de diâmetro, quatro metros de altura e 261 toneladas. A peça foi instalada na casa de força n.º 1, de Belo Monte, no dia 10 de junho, em evento com a presença de engenheiros, operários e do diretor presidente da Norte Energia, Duílio Diniz Figueiredo.

“Quando viemos aqui pela primeira vez perguntei ao consórcio (construtor) contratado qual seria o maior desafio na construção da usina. Eles me responderam que seria a logística e estavam certos”, afirmou Figueiredo, comemorando mais um passo da hidrelétrica, de 11.233 MW, mas sem esconder a preocupação com os atrasos da obra. O cronograma está um ano atrasado devido à série de paralisações causada por manifestações e invasões de ribeirinhos, índios, integrantes dos atingidos por barragens e ambientalistas, além de greves e decisões judiciais.

No sítio Pimental, as interrupções representaram 441 dias de atraso desde o segundo semestre de 2011. No sítio Belo Monte, foram 124 dias. Segundo o diretor presidente da Norte Energia, por causa das paralisações, a empresa está negociando com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a expansão em um ano dos prazos para a entrada em operação das primeiras turbinas...

Com atraso, Belo Monte entra na fase final
Sergio Castro

SCA2955 ALTAMIRA 10/06/2014 - ECONOMIA & NEGÓCIOS - ESPECIAL DOMINICAL - OBRAS DE CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE.FOTO SERGIO CASTRO/ESTADÃO.

De acordo com a “Cartilha de Belo Monte”, o cronograma original prevê a entrada em operação das seis unidades geradoras no Sítio Pimental, onde está a barragem principal, o vertedouro e casa de força complementar. A obra tem outros dois locais de construção: canais e diques e Sítio Belo Monte, onde está a casa de força principal com 18 turbinas.

As turbinas do Sítio Belo Monte estão previstas para funcionar a partir de 2016. “Por enquanto estamos negociando o cronograma de 2015. Não decidimos se vamos pedir algum adiamento para o Sítio Belo Monte. Estamos tentando manter a entrada em operação da primeira turbina em março de 2016”, diz Figueiredo. Se não conseguir convencer a agência, a empresa pode perder receita e ainda ser obrigada a recorrer ao mercado à vista para cumprir os contratos.

Além dos atrasos, Belo Monte também convive com o aumento dos custos. Hoje o volume de investimentos está em R$ 30 bilhões, afirma Figueiredo. “O aumento de R$ 25 bilhões para R$ 30 bilhões é inflação.” Mas a hidrelétrica já teve, pelo menos, outros dois orçamentos. O valor inicial calculado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) era R$ 16 bilhões e antes do leilão mudou para R$ 19 bilhões. “É maldade o que falam sobre o aumento de custos. Já arrematamos o projeto da usina orçado em R$ 25 bilhões”, diz o presidente da Norte Energia.

De qualquer forma, para evitar prejuízos maiores, Belo Monte corre contra o tempo para acelerar as obras atrasadas. Hoje são 25 mil trabalhadores – acima das 23 mil pessoas previstas inicialmente para o pico da obra – se revezando em três turnos diários nos três sítios da usina. Com o fim do inverno e, consequentemente, das chuvas, a construção ganha um ritmo mais acelerado, com o vaivém frenético de 3 mil máquinas, tratores e caminhões.

Durante o inverno, a empresa dispensou vários trabalhadores já que o volume de serviço era baixo. Um executivo da Norte Energia afirmou que a rotatividade dos trabalhadores da obra é grande, em torno de 30%, mas que o cadastro de pessoas interessadas em trabalhar na construção da usina é extenso. O comerciante de Altamira Waldir Narzetti sabe bem o que isso significa. “Tive de aumentar a minha folha de pagamento para conseguir segurar os funcionários. Ainda assim, não tem sido suficiente. Todo mundo quer trabalhar na usina.”

Embora tenha começado a fase de montagem dos equipamentos, ainda há muita obra de terraplenagem para ser feita nos próximos meses, ou anos. Além da conclusão do canal e diques, a preparação dos reservatórios ainda exigirá muito trabalho pela frente. Por enquanto, é um amontoado de terras e rochas que precisam ser detonadas e retiradas do caminho. No total, a hidrelétrica vai alagar uma área de 503 km², sendo que uma parte já é alagada naturalmente durante a cheia do Rio Xingu.

Segundo dados da Advocacia Geral da União (AGU), hoje há 27 ações contra Belo Monte. Nenhuma, porém, tem decisão em vigor determinando a paralisação das obras ou do licenciamento. São aguardados os próximos capítulos dessa que hoje é considerada a maior obra de infraestrutura do País em andamento. 

 

 

Mega canal da hidrelétrica muda paisagem do Xingu

Sergio Castro

O enorme canal que vai ligar o Rio Xingu ao reservatório intermediário da Hidrelétrica de Belo Monte começa a ganhar formas e mudar a paisagem local. Os 20 quilômetros de extensão da obra já foram abertos e estão em estágios diferenciados de trabalho. Por enquanto, apenas 1 km está concluído. Outros estão em fase de revestimento do leito e taludes do canal ou na etapa de aprofundamento do terreno.

A expectativa é concluir todo o trabalho até o fim do ano. Mas a meta não será uma tarefa fácil de cumprir, especialmente com o histórico de paralisações desde o início das obras da hidrelétrica. Além disso, parece um trabalho sem fim. A construção do canal, que na prática é um rio artificial construído no meio da Amazônia para desviar a água do Xingu, exige a escavação de 110,8 milhões de m³ de rocha e solo – volume equivalente ao Canal do Panamá. Todo esse material encheria 5 milhões de caminhões basculantes.

Hoje 1.400 máquinas, tratores e caminhões trabalham freneticamente para cumprir os prazos do canal, que terá 25 metros de profundidade, 210 metros de largura na base e 360 metros na superfície. Toda a retirada de rocha e solo é feita em camadas. “Primeiro fazemos a abertura do canal para a cota 84 (em relação ao nível do mar). Retiramos todo o material, criamos uma frente de serviço e praça de manobra para as máquinas e caminhões. Depois começamos tudo de novo, com detonações de rocha e retirada de material para a cota 75, que será o fundo do canal”, afirma o engenheiro da Norte Energia, Marcelo Boaventura.

Com o solo nivelado, é hora de fazer o revestimento do leito e dos taludes. As rochas retiradas de outros locais da obra são trituradas e usadas para cobrir o fundo do canal. As pedras precisam ter tamanhos e pesos similares, para aguentar o volume de água que vai passar pelo canal: a vazão será de 14 mil m³ por segundo, afirma Boaventura.

Por estar numa área sensível do ponto de vista ambiental, o projeto exigiu uma série de soluções diferenciadas. Nos 20 quilômetros de extensão do canal de derivação, passavam dezenas de igarapés cujo curso foi interrompido com a construção de diques para evitar o alagamento da área de trabalho das máquinas e caminhões.

O engenheiro da Norte Energia explica que foram criados cinco sistemas de drenagens com canais paralelos nas margens do grande canal principal para absorver a água desses pequenos rios. Alguns igarapés tiveram seu curso invertido. Corriam para um lado e agora vão desaguar no Rio Xingu. A empresa garante que a medida não provocará impactos ambientais ao meio ambiente. No total, serão construídos 27 diques para barrar os igarapés ou para evitar que a água do reservatório intermediário de Belo Monte se espalhe para regiões mais baixas.

Ao contrário da maioria das usinas, em que a construção se concentra num único local, Belo Monte tem três grandes frentes de trabalho: Pimental, Bela Vista e Belo Monte. O barramento e o vertedouro principal ficam no Sítio Pimental, onde está sendo instalada também a Casa de Força Complementar, há 40 km de Altamira. Desse ponto, por meio do canal de derivação, parte da água do rio será desviada para a Casa de Força Principal, no sítio Belo Monte, que terá 18 turbinas.

Pelo gigantismo da obra, dá para entender porque índios e ribeirinhos temem que o rio seque abaixo da barragem principal quando a usina começar a funcionar. Mas os executivos garantem que a hidrelétrica terá um rígido sistema para controlar o volume mínimo de água no rio, definido pela Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), no processo de licenciamento ambiental.

Mas a vida dos ribeirinhos já mudou. Quem antes andava sem restrições pelo Rio Xingu agora tem de passar pelo Sistema de Transposição de Barcos construído pela Norte Energia, no Sítio Pimental. Desde fevereiro de 2013, dois sistemas estão em operação: um para barcos pequenos, como rabetas e voadeiras, e outro para embarcações maiores. No primeiro caso, a embarcação é rebocada por um trator num percurso de 700 metros. No outro, carretas são responsáveis pela transposição dos barcos. Entre o início do ano e final de março, foram realizadas 259 transposições, com um total de 1.169 usuários atendidos.