Com corte da Selic, parte da renda fixa já perde para poupança

Tesouro Selic, CDBs e fundos DI com taxas de administração mais salgadas passaram até a perder da caderneta, incentivando o investidor mais conservador a se aventurar em produtos mais arriscados

Jéssica Alves, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2017 | 20h30

O ciclo de queda da Selic este ano causou um grande impacto no retorno da carteira de investimentos do brasileiro. Com o corte de 0,50 ponto porcentual da taxa básica de juros, para 7% ao ano, a rentabilidade de boa parte dos ativos de renda fixa, que antes eram sinônimo de ganho fácil, passou a encostar na da poupança. Já produtos como o Tesouro Selic, CDBs e fundos DI com taxas de administração mais salgadas passaram até a perder da caderneta, incentivando o investidor mais conservador a se aventurar em produtos mais arriscados – justamente em ano de eleição. 

Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), fundos de renda fixa com resgate de seis meses a um ano só ganham da poupança em rentabilidade quando a taxa de administração é menor que 1% ao ano.

A poupança agora sai na frente desses produtos pois é isenta de Imposto de Renda (IR). Com a Selic igual ou abaixo de 8,5%, como é o caso atual, a remuneração da caderneta é a Taxa Referencial (definida pelo Banco Central) mais 70% da Selic.

Cálculos feitos pela professora de finanças e sócia da BSG DuoPrata, Betty Grobman, apontam que, descontado o IR, uma aplicação de R$ 10 mil no Tesouro Selic – título público cujo rendimento é atrelado à Selic – renderia em um ano 5,43% – perdendo para a poupança, que daria ao investidor um retorno de 5,58% no mesmo período.

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Os fundos de renda fixa DI – que seguem o CDI, taxa que anda de mãos dadas com a Selic – que cobrem 1,15% ao ano de taxa de administração teriam retorno de 5,23% – e também perderiam para a caderneta de poupança. Para o cálculo do fundo DI, foi considerado o retorno médio (92% da taxa DI) de fundos com aplicação inicial mínima a partir de R$ 10 mil, levanto em conta os quatro maiores gestores. 

Os retornos dos investimentos mais conservadores ficam mais atrativos quando se tratam de produtos de bancos menores – que, por apresentarem mais risco, oferecem um ganho maior, com rendimento acima de 100% do CDI. No entanto, para a salvaguarda do investidor, esses papéis contam com a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que cobre até R$ 250 mil por CPF e por instituição bancária em caso de calote.

"O dinheiro aplicado em Tesouro Selic, CDBs e fundos que seguem a Selic serão o dinheiro para o dia a dia. Não é para investir, é só para emergência”, diz Valter Police, planejador financeiro pela Planejar. Para obter retornos maiores, o investidor, segundo ele deveria partir para papéis mais arriscados, como Bolsa, fundos de ações e multimercado – que misturam em um mesmo pacote renda fixa, ações e moedas.

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Para o próximo ano, segundo analistas, não haverá muita novidade na Selic. O mercado espera pela manutenção da taxa básica em torno de 6% ao ano até dezembro de 2018.

O mesmo já não ocorre com a inflação, que pode ficar acima de 4% e pressionar o juro real a ficar abaixo de 2%, dando fôlego para o investidor migrar para aplicações de risco, mesmo com um dos juros maiores do mundo. 

Incertezas. Apesar de a Bolsa ser o investimento de maior retorno – com avanço de 21,65% no ano, Jason Vieira, economista da Infinity Asset, acredita que o grande desafio será investir em um cenário ainda muito incerto. “Não temos nem candidato ainda. O único nome dado como certo é o Bolsonaro. Esse nível de incerteza é um grande complicador”, diz. 

O economista acredita que pode haver ganhos até metade do ano, enquanto os candidatos são definidos. “Não é para o investidor perder o timing de entrar na Bolsa, mas tem que saber o tempo de sair.” Com a incerteza, segundo Vieira, o mais natural é o investidor migrar para fundos multimercado, considerados como a porta de entrada para a renda variável. 

Inflação. Com a taxa básica de juros em torno de 7% ao ano, analistas explicam que o Tesouro Selic – antes considerado o “queridinho” das alternativas à caderneta de poupança – passa a ser indicado só pela conveniência, ou seja, para o curto prazo, como a reserva de emergência, que exige liquidez.

Ao aplicar nesse papel, o investidor agora terá um rendimento menor do que as oferecidas por outras opções do Tesouro Direto – plataforma de negociação de títulos públicos –, como os títulos prefixados ou atrelado à inflação, explica a especialista Betty Grobman. 

Diante desse cenário, os títulos mais indicados são os de longo prazo indexados à inflação (NTN-B), por garantir ganho real – desde que o investidor mantenha a aplicação até o prazo vencimento. Caso resgate antes do prazo, corre o risco da marcação a mercado, ou seja, de o papel se desvalorizar.

Para o planejador Valter Police, essa é uma boa aplicação para diversificar a carteira de longo prazo. Os títulos com vencimento em 2035 e 2045 pagam a inflação no período mais juros de 5,47%.

Prefixados. No caso do Tesouro prefixado, ou seja, quando já na compra o investidor sabe qual juro receberá de rentabilidade, o investidor corre o risco de haver uma disparada da inflação, que deverá corroer o investimento. 

Os papéis para 2020 e 2045, contudo, estão pagando 8,26% e 10,03%, respectivamente, valor acima da taxa básica. 

“Se imaginar que a Selic vá no ano que vem até 6,5%, faltaria pelo menos quatro reuniões do Copom para ela voltar ao patamar que os títulos estão pagando”, explica Betty. O “sacrifício” nessa aplicação, contudo, é que o resgate também só é aconselhável no vencimento, tal qual os atrelados à Selic. Se a venda desses títulos for feita antes do vencimento, o investidor fica sujeito ao valor de mercado, podendo ter prejuízo.

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