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WILTON JUNIOR|ESTADÃO

ENTREVISTA: Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central

Economia

Luiz Inácio Lula da Silva

‘Com impeachment o risco Brasil cai imediatamente’

Para economista, melhor quadro para o País seria um governo de transição com o apoio da oposição

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Luiz Guilherme Gerbelli, Naiana Oscar e Alexandre Calais

19 Março 2016 | 12h18

Na quinta-feira, enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomava posse como ministro da Casa Civil, um insistente buzinaço vindo da rua invadia o escritório do ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore, em São Paulo. Eco de uma das semanas mais agitadas do País nas últimas décadas.

Para Pastore, a ida do ex-presidente Lula para o governo foi um erro, e a economia deve sofrer se a presidente Dilma Rousseff permanecer no cargo. Mas acredita que pode haver um cenário mais tranquilo com a saída da presidente, e os mercados apontam para isso. Para ele, o melhor quadro seria um governo de transição liderado pelo vice-presidente Michel Temer, com o apoio da oposição. “Se houver uma solução política como essa, eu acho que a coisa funciona muito bem”, disse. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como o sr. analisa o quadro da economia brasileira?

Há uma crise fiscal e política ao mesmo tempo, e uma alimenta a outra. A crise fiscal é de tal natureza que são necessárias reformas para solucioná-la. Tem um crescimento de gastos incompatível com qualquer aumento de receita. O País está fazendo déficits primários continuamente, o que está produzindo um crescimento muito forte da relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB).

Como resolver o fiscal?

Ou o governo promove um brutal aumento da carga tributária ou faz as reformas. A questão da reforma é a seguinte: o custo político é altamente impopular e o benefício só vem anos lá na frente. Se fosse um governo com poder político, suporte, ele enfrentaria as reformas. Só que temos um governo que está caindo pelas tabelas.

Quais as consequências dessa situação?

Ocorrem várias manifestações no mercado. O governo perdeu o embasamento político, e a probabilidade de se fazer as reformas é nula. Se a probabilidade é nula, o quadro tende a piorar. E o que isso gera? A relação dívida/PIB no conceito brasileiro está em 65%. Ela está crescendo por causa do déficit primário e pela recessão. Nas nossas projeções, ela vai chegar neste ano perto de 80% do PIB e, no ano que vem, próximo de 90% do PIB. Quando isso ocorre, você dispara reações.

Que reações seriam essas?

Uma reação é o prêmio de risco subindo. O prêmio de risco pode ser o CDS (Credit Default Swap) ou o Embi (Emerging Markets Bond Index). Quando o Brasil tinha uma política fiscal razoável, o Embi ou CDS brasileiro estavam caminhando junto com o do México – 100, 150 pontos. Em 2013, o Brasil começou a fazer traquinagem com a política fiscal e o Embi se aproximou do da Turquia. Agora, está lá no 550. Ficará nesse patamar se esse governo continuar. Se tiver impeachment, cai imediatamente.

Como essa volatilidade do mercado dos últimos dias prejudica os investimentos?

Para realizar investimentos, as empresas ou têm capital ou têm de fazer dívida. E um pedaço da dívida é externa. Vamos dizer o seguinte: o menor risco que existe é o soberano do país. Uma empresa tem o risco soberano mais o do negócio. O prêmio de risco soberano do Brasil saiu de 250 para 550 pontos de 2014 para cá. Quando a empresa olha para esse cenário, o que ela faz: se esse governo cai, esse prêmio volta e eu posso investir. Se esse governo não cai, a única coisa que tenho de fazer é reduzir dívida. O investimento vem abaixo.

Como já está vindo...

Há uma situação fiscal que esse governo não resolve, um País no qual o PIB cai e não consegue voltar a subir. A situação fiscal vai piorando, vai subindo o prêmio de risco, vai depreciando o real, joga na inflação. Tudo isso contrai o investimento, a economia entra em recessão e numa crise contínua. Se esse governo continua completamente amarrado, sem capacidade de fazer reforma nenhuma, é piora no quadro. Que reação eles podem ter? A reação, no fundo, é tentar fazer milagre.

Mas existe algum milagre?

Gastar.

Mas gasta o que não tem.

Gasta e piora o quadro. Agrava o problema fiscal.

O sr. acredita num cenário de mudança de governo?

Na minha visão, o cenário de impeachment está cada vez mais provável porque estamos numa situação econômica horrível. Você ouve a rua. Nunca ouvimos isso. Ontem (quarta-feira) à noite, aquele panelaço, eu nunca ouvi aquilo. Totalmente espontâneo. Eu não sei se vai ter impeachment ou não, mas essa melhora de mercado (registrado na semana passada) é o aumento da probabilidade de impeachment.

O que significaria uma mudança de governo?

Algum tempo atrás, o vice-presidente Michel Temer soltou o documento chamado “Uma Ponte para o Futuro”. Ele não soltou isso só para fazer o exercício de escrever um paper de economia. O Temer deve ter imaginado que, se ele virar presidente do País, vai ter de fazer alianças para governar. Essas alianças têm de começar no campo das ideias, e não no toma lá dá cá. Eu sei que, quando esse documento foi elaborado, várias pessoas receberam telefonemas para mandar ideias.

Qual é a avaliação do sr. sobre o documento?

Aquele documento poderia ter sido escrito pelo Armínio Fraga ou pelo Eduardo Giannetti (assessores econômicos de Aécio Neves e Marina Silva na campanha presidencial de 2014). É uma agenda que está na cabeça da oposição. Suponha que o Temer junte a oposição e diga que quer um governo de transição até 2018, faça as reformas e não se candidate na próxima eleição. Se houver uma solução como essa, eu acho que a coisa funciona muito bem.

Mas com forte oposição do PT.

Oposição vai ter sempre. O que precisa ter é consenso dentro do Congresso para aprovar as medidas. Não é uma tarefa fácil. Agora, se houver uma situação na qual o governo não tem união, capacidade de montar a agenda, aí o quadro é mais complicado. Na minha visão, se o País der alguns passos na economia e usar aquela agenda de arrumação fiscal que está na cabeça do Marcos Lisboa, do Samuel Pessôa e do Mansueto Almeida, o CDS brasileiro vem para baixo e o real valoriza. Tira pressão sobre a inflação e vai poder ocorrer uma queda de juro um pouco mais precoce do que em outra circunstância.

O crescimento volta?

Em alguns meses pode haver um pouquinho mais de consumo, investimento e exportação líquida. Em um ano, um ano e meio, o País pode adquirir um crescimento sustentável, de 1,5%, 2%, 2,5% ao ano. Imagina um ministro como o Armínio – estou colocando o meu dream team –, eu acho que a reação da economia brasileira pode ser relativamente rápida.

O que o sr. achou da indicação do ex-presidente Lula para o ministério?

Eu acho que foi um erro. Na verdade, o que precisava seria que a Dilma reconhecesse que o País precisa de reformas e fizesse uma coalização política com quem pode suportá-la para fazer as reformas. E não é isso que o Lula oferece. O caminho seria a Dilma romper com o PT e fazer uma aliança com PMDB e a oposição.

Isso daria uma sobrevida?

Isso daria a ela a governabilidade, mas não ao PT. Ela estaria vindo para o lado da oposição. Mas a opção dela está muito clara.

A volta do Lula pode representar uma guinada para a esquerda na economia, com o uso das reservas para investimento, por exemplo?

O Brasil tem hoje um problema de solvência interna e não tem problema externo. O balanço de pagamentos está em equilíbrio. Suponha que o País vendesse US$ 200 bilhões de reservas. O investidor olha o desequilíbrio fiscal atual e, se o País começa a vender reservas para estimular a atividade econômica, ele pensa que está começando a surgir o risco de insolvência externa. O prêmio de risco vai subir mais. A tendência do real será de depreciar mais forte. Para evitar a depreciação, será preciso queimar muito mais reserva. Se entrar por essa avenida de vender reservas, o governo pode acentuar o desequilíbrio.

O número de recuperações judiciais tem crescido no País. O que vai acontecer com as empresas?

Essa é a recessão mais profunda dos últimos 35 anos. Em geral, as empresas perderam receitas, o custo continua alto e a margem delas foi lá para baixo. Uma das facetas de uma recessão como a atual é falência, recuperação judicial, empresas que fecham as portas.

Essa crise pode chegar ao setor financeiro?

Os grandes bancos já pararam de emprestar há mais de dois anos. Eles olharam isso lá na frente e reduziram.

Se não houver uma troca de governo, quais serão as condições da economia em 2018?

Com Dilma no governo, a nossa projeção é que o PIB caia um pouco mais do que 4% este ano. No fim deste ano, o PIB para de cair, mas não tem nenhuma força que o faça se recuperar.

O que vai acontecer com o desemprego?

A nossa principal projeção é que o desemprego vai chegar a 13% este ano pela Pnad Contínua. Com esse nível de desemprego, o consumo vem abaixo. Parte dessa reação (nas ruas) vem da subida do desemprego.

A impressão é que essa confusão toda tem mais a ver com a economia.

Tem a ver com duas coisas: economia e corrupção. Esse negócio de corrupção irrita. Pega na veia.

Se a economia estivesse indo bem, as pessoas estariam se manifestando contra a corrupção?

Se a economia estivesse indo bem, a reação seria muito menor. Seguramente. A insegurança das pessoas hoje é muito grande.

O sr. vê o risco de uma convulsão social?

Eu não tenho resposta para isso. Eu fui para a rua no domingo (13 de março). Fui para a Paulista às 14h30. E a Paulista foi enchendo, enchendo... Às 16 horas, não dava para voltar. Estava um do lado do outro. Na quarta-feira à noite, eu comecei a ouvir buzinaço, panelaço, vuvuzela. Nunca vi essa coisa espontânea de o povo ir para a rua. Existe uma pressão popular muito grande. Muita gente tem medo do PT, do que o partido pode mobilizar. Mas eu acho que a mobilização da sociedade espontânea é muito maior do que a do PT.

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