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Com juro alto e aperto no crédito, consórcios de veículos ganham espaço

De janeiro a novembro, as novas cotas para veículos leves cresceram 9,3% em relação a 2014; na contrapartida, financiamentos recuaram 15,4%

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Anna Carolina Papp,
O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2016 | 05h00

Num cenário de recessão econômica, com crédito caro e escasso, a indústria automobilística vem colecionando indicadores negativos, tanto em produção como em vendas. No entanto, se os financiamentos de veículos se tornaram um compromisso financeiro pesado para o consumidor, as cotas de consórcio vêm cabendo mais no bolso e ganhando atratividade.

De janeiro a novembro do ano passado, o número de participantes de consórcios de veículos leves cresceu 9,3% em relação ao mesmo período de 2014, segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac). Já o número de veículos financiados recuou 15,4% na mesma comparação, segundo informações da Cetip, central de depósitos de ativos e títulos.

“O consórcio é um modelo de autofinanciamento em que os interessados formam um grupo por meio de uma administradora, compram uma cota e, para ter direito ao crédito, podem ser contemplados por sorteio ou lance, explica Paulo Rossi, presidente da Abac. “O crescimento do setor foi expressivo no ano passado porque o consumidor está enfrentando muita restrição de crédito, que está caro e escasso”, afirma.

Para entrar em um consórcio, os consumidores devem procurar uma administradora cadastrada pelo Banco Central e se juntar a um grupo com o valor da carta de crédito do veículo que desejam. A vantagem em relação às linhas tradicionais de financiamento, como o CDC, está nas taxas muito mais baixas. O consórcio não cobra juros, mas possui uma taxa de administração e, geralmente, uma taxa de fundo de reserva, destinado a um seguro de garantia de crédito.

“Nos consórcios, a taxa de administração fica em torno de 0,80% ao mês. Já nos financiamentos, as taxas de juros são em média de 2,5 ao mês”, explica Miguel Ribeiro de Oliveira, diretor de Estudos Econômicos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac).

A desvantagem do consórcio é que é focado no médio e longo prazo. Se o grupo contratado for de 60 meses, o participante precisa esperar ser sorteado – o que pode demorar – ou ser obrigado a dar um lance expressivo, geralmente superior a 40%, para tentar arrematar o veículo antes. “No financiamento, você entra na concessionária e sai dirigindo o automóvel. No consórcio, não tem como saber. Por isso, não é indicado para quem tem pressa”, diz Oliveira.

Crescimento. Maurício Gomes Maciel, Diretor da Bradesco Consórcios, aponta que o número de novos participantes cresceu 13,4% de janeiro a novembro de 2015 em relação ao mesmo período de 2014. Foram entregues 127 mil veículos, num total de R$ 4 bilhões. “A indústria do consórcio tem contribuído para amenizar a retração da indústria automobilística”, afirma Maciel.

A taxa média do consórcio do veículo é de 14% ao longo do período todo. Ao ano, já com o fundo de reserva, é de 2,83% . “A inadimplência também foi baixa em 2015 – fechou em torno de 3,9%, pouco acima da de 2014, que ficou em 3,6%”, diz.

Disciplina. Apesar de se mostrar uma opção vantajosa para quem busca o sonho do veículo próprio, especialistas alertam que o consórcio pode não ser vantajoso em todos os casos.

“O consórcio só é recomendado caso a pessoa não precise do bem imediatamente e tenha dificuldade para guardar dinheiro, sem a disciplina para separar e aplicar”, afirma Nelson de Sousa, professor de finanças do Ibmec/RJ. “Caso o consumidor tenha a opção de guardar o dinheiro na poupança ou em alguma aplicação, é mais vantajoso, pois não tem de pagar as taxas”, afirma. “Além disso, é preciso ficar atento a algum tipo de correção e aos custos embutidos. Às vezes a pessoa está naquela ansiedade e não lê o que está assinando”, completa.

Diferenças. Logo após pagar a segunda parcela de um consórcio de 72 meses, em dezembro, Samuel Mota, de 55 anos, foi surpreendido por uma carta notificando sua contemplação no sorteio. “A minha ideia era vender um carro bastante usado na faixa de R$ 8 mil e dar como lance, mas nem precisou”, conta. 

Com a carta de crédito, de R$ 44 mil, comprou um Honda Fit. “Fiz muitas avaliações financeiras. O correto seria juntar o dinheiro numa poupança, mas eu tinha uma certa urgência”, diz o professor, que dá aula em duas escolas e tem de se deslocar rapidamente. “Mas, entre financiamento e consórcio, optei pelo consórcio, pois é uma operação sem juros. Mesmo com as taxas de administração e os custos adicionais, fica muito mais em conta.” Após o sorteio, as parcelas foram reavaliadas de R$ 400 para R$ 800. “Ainda assim, é bastante interessante e cabe no bolso”, afirma. “Num financiamento, eu teria de dar R$ 15 mil de entrada e financiar o resto a uma taxa de uns 3,5% ao mês.” 

Já a psicóloga Carla Campana, de 31 anos, não teve a mesma sorte. Ela já paga o consórcio há três anos, mas ainda não foi contemplada. Mesmo assim, não se arrepende da decisão: “Sempre tive um perfil de consumo bem conservador; aí quando fui ver o financiamento, notei que compraria um carro e pagaria por dois”, conta. 

Carla desembolsa R$ 400 por mês na parcela, e nunca deu um lance. Como ela e o marido não tinham pressa para a aquisição do veículo, decidiram esperar. “Nos viramos bem sem o carro. Há algumas restrições, diminui um pouco a autonomia, mas usamos transporte público, táxi, bike e carona”, diz ela, que mora no Jaguaré, zona oeste de São Paulo.

Já o sociólogo Daniel Fuentes, de 32 anos, viu no consórcio uma forma de complementar o montante recebido pela seguradora após o furto de um veículo, em outubro. “Quero comprar um carro R$ 15 mil acima do valor que recebi”, diz. “Para parcelar essa diferença, em vez de fazer um empréstimo, optei pelo consórcio, pois podia dar um lance logo de cara e sair com a carta de crédito. A diferença de preço das taxas de um consórcio para um financiamento é brutal, não tem nem como comparar a diferença de juros de um para o outro.”

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