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Com medo, montadoras multiplicam os recalls

Cleide Silva - O Estado de S. Paulo

14 Junho 2014 | 18h 50

Após escândalos, fabricantes fazem ‘recalls preventivos’ e batem recorde de convocações  

Em menos de seis meses, o número de veículos convocados para reparos no Brasil já equivale a 84% dos modelos envolvidos em recall em todo o ano passado. Desde janeiro, 552,3 mil automóveis, comerciais leves, caminhões e motos foram chamados para correção de defeito de fábrica. Em 2013 inteiro, foram 660,6 mil unidades.

O total de veículos envolvidos em 28 campanhas de janeiro até agora é 147% maior que o de igual período de 2013, que também teve 28 convocações, segundo o Procon/SP. Uma única campanha da General Motors feita em maio, para 238,3 mil carros, já ultrapassa as 223,3 mil unidades de um ano atrás. Mesmo sem esse recall, o volume seria 40% maior.

Nos Estados Unidos, só a GM convocou neste ano cerca de 14 milhões de veículos, mais da metade do volume de todas as fabricantes no ano passado, de 22 milhões de unidades. Analistas acreditam que a marca recorde de recalls de 2004, de 30,8 milhões de veículos, será ultrapassada. China e Japão também contabilizam números recordes de recall neste ano.

Werther Santanta/Estadão
Desde janeiro, 552 mil veículos no Brasil passaram por revisões para a correção de defeito de fábrica

Recall preventivo. O impressionante número de veículos que devem passar por reparos para consertar defeitos que colocam em risco a segurança dos usuários é resultado de recalls preventivos que estão sendo feitos pelas fabricantes.

As ações preventivas se intensificaram após as complicações enfrentadas pela GM nos EUA, que demorou 11 anos para reconhecer um defeito na chave de ignição de vários modelos, todos já fora de linha, que resultou em pelo menos 13 mortes. Em fevereiro, a empresa fez recall para 2,6 milhões de carros.

Pela demora, a GM foi multada em US$ 35 milhões. Sua presidente, Mary Barra, teve de se explicar ao Congresso. Após auditoria interna, ela demitiu 15 executivos por negligência.

“Há um pânico, uma síndrome entre as empresas e elas estão realizando muitas chamadas preventivas”, afirma Francisco Satkunas, diretor da SAE Brasil, que reúne engenheiros e técnicos do setor automotivo. “Este ano haverá uma explosão no número de recalls.”

Em avaliação. Depois das críticas em relação ao caso das chaves de ignição, a GM americana decidiu fazer recall de todos os veículos que ainda estavam em avaliação na Administração Nacional de Segurança de Tráfego em Rodovias (NHTSA), agência ligada ao Departamento de Transporte americano. O órgão recebe relatórios com possíveis defeitos e determina o recall.

“Isso explica o número elevado de recalls, mas foi uma decisão voluntária da companhia para facilitar o processo”, informa o presidente da GM América do Sul, Jaime Ardila. “Alguns dos recalls são por questões simples, com risco muito baixo.”

Para Ardila, na indústria como um todo, inclusive no Brasil, os recalls têm aumentado porque “os carros são mais complexos e as montadoras fazem um maior esforço por atuar preventivamente.” Segundo ele, não é uma situação nova, mas um processo que começou há algum tempo. “Minha interpretação é que todos vamos continuar a aumentar o número de recalls para proteger os clientes.” 

O recall dos 238,3 mil veículos da GM foi decidido após a empresa ter detectado defeitos no lote de filtros de combustível recebido num único dia. “Como o fornecedor não tinha certeza de quando poderia ter acontecido o problema, decidimos fazer um recall de todos os carros produzidos com peças desse fabricante desde setembro do ano passado, quando ele fez mudanças no processo de produção”, explica Ardila.

Grupo especial. Depois do recall de 2010 que envolveu mais de 8 milhões de modelos Corolla por problemas de aceleração involuntária, que também resultou em mortes, a Toyota criou um grupo especial chamado de Smart Team para identificar defeitos e solucioná-los antes que ocorram acidentes. Todas as filiais do grupo, inclusive a brasileira, têm equipes como esta.

Segundo Steve St. Angelo, presidente da Toyota América Latina e Caribe, o grupo mantém contatos com consumidores, lojistas e agências governamentais para saber de reclamações e avaliá-las. Também envia técnicos para avaliar acidentes com carros da marca.

“Antes, só fazíamos um recall após 100% de certeza de sua necessidade; agora, se detectamos um problema, fazemos por precaução”, diz St. Angelo. As decisões de convocação, antes concentradas na matriz japonesa, agora ficam a cargo de cada região. A Toyota é a segunda montadora com maior número de recalls no mundo e no Brasil.

Para Márcio Marcucci, diretor de fiscalização do Procon/SP, o que está ocorrendo não deve ser visto como uma banalização de recalls. “O recurso é previsto na lei para evitar acidentes de consumo”, diz. “Mas, se por um lado é bom, por outro revela a necessidade das empresas e maior controle na produção.”

Sofisticação. O sócio da PriceWaterhouseCoopers, Marcelo Cioffi, ressalta que recalls têm sido cada vez mais frequentes por causa da sofisticação dos veículos. “Quanto mais tecnologia embarcada, mais chances de problemas.” Grande parte das novas tecnologias, integradas por sistemas eletrônicos, foi criada justamente para dar maior segurança aos usuários, como airbags e freios ABS. “Não é porque tem mais recall que a tecnologia não funciona; ao contrário, ela reduziu significativamente o número de mortos em acidentes.”

Satkunas, da SAE, diz que 70% das convocações têm como origem defeitos nos componentes. Cada automóvel tem em média 3 mil a 4 mil peças. O fato de um carro ser global, contudo, não significa que um recall lá fora seja necessário para um mesmo modelo produzido no Brasil, pois os fornecedores podem ser diferentes.

Cioffi diz que, por enquanto, a onda de recalls não teve impacto nas vendas. No caso do recall da GM americana, “há uma análise por parte dos consumidores de que a empresa, ainda que tardiamente, está promovendo as correções necessárias”.