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Com ou sem Código, cresce demanda por muda nativa

Votação da nova lei de reposição florestal segue indefinida, mas mercado de mudas nativas está aquecido, dizem viveiristas

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FERNANDA YONEYA ,
O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2011 | 03h07

Mesmo diante do impasse do Código Florestal - após novo adiamento, a votação do projeto de lei de reforma do código está marcada para hoje, data que comemora também o Dia da Árvore -, produtores de sementes e mudas nativas seguem com mercado aquecido, dada a crescente demanda por serviços de reposição florestal. As exigências da atual lei estão por trás da maioria dos casos de reflorestamento, mas hoje já há projetos de plantios voluntários, de interessados em valorizar a propriedade ou por simples consciência ecológica.

"Em regiões muito degradadas, como o Estado de São Paulo, a restauração florestal tem se mostrado uma grande oportunidade de negócio", diz o professor Ricardo Ribeiro Rodrigues, do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal (Lerf) da Esalq/USP. Em 2001, segundo levantamento do Instituto de Botânica, havia 55 viveiros cadastrados e eram produzidos 13 milhões de mudas (277 espécies) por ano. Em 2009, o número de viveiros cadastrados passou para 114; as espécies para 582, e a produção de mudas chegou a 30 milhões por ano, com capacidade para 53,3 milhões de mudas/ano.

"Vale lembrar que o plantio só é necessário nas áreas extremamente degradadas; áreas não tão prejudicadas têm a capacidade de se regenerar sozinhas. Isso sai do senso comum de dizer que restauração custa caro e que o Brasil vai quebrar com o cumprimento do atual Código atual", diz Rodrigues.

A demanda por mudas tem sido grande em função da quantidade de áreas a serem restauradas - sobretudo as áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal previstas pelo atual Código Florestal, segundo o professor Paulo Kageyama, da Esalq. "Só no Estado de São Paulo estima-se um déficit de 2 milhões de hectares de APP, considerando que as matas ciliares somam, em média, 10% da propriedade e que o total do Estado é de 22 milhões de hectares", diz.

Com a recomendação técnica de plantar 2 mil mudas por hectare, isso representa cerca de 4 bilhões de mudas. "O Estado tem de 20 a 30 viveiros que produzem mais de 1 milhão de mudas/ano, diz a Secretaria de Meio Ambiente, portanto muito longe da necessidade."

Diversidade. Para o diretor do Jardim Botânico do Instituto de Botânica, Luiz Mauro Barbosa, o setor avançou muito, sobretudo em relação à tecnologia de produção de sementes e à diversidade de espécies. "Há dez anos, eram 25, 30 espécies. Hoje são mais de 80 disponíveis. A diversidade é crucial para sustentar uma mata", diz.

Para garantir uma boa diversidade de espécies, o produtor Guaraci Diniz, do Sítio Duas Cachoeiras, em Amparo (SP), trabalha em parceria com outros viveiristas. "Em vez de competição, vira cooperação. Trocamos sementes e, como cada um é de uma região, elevamos o número de espécies."

Diniz, que também dá cursos de coleta e identificação de sementes de árvores brasileiras, está instalando viveiro próprio, com capacidade inicial de 10 mil mudas, de pelo menos 150 espécies diferentes. "A ideia é a de que o viveiro atue na capacitação de mão de obra, pois falta pessoal qualificado no setor", diz. Hoje, parte do sítio é Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

Compensação. O mercado de compensação ambiental divide-se em três tipos: o da compensação obrigatória, que consiste, basicamente, na reparação de dano ambiental por meio do plantio de árvores; o compulsório, que envolve grandes empreendimentos passíveis de licenciamento ambiental, e o voluntário, sem fins comerciais. "Tem todo tipo de cliente", diz o biólogo especialista em conservação Otávio César Cafundó de Moraes, da Brasil Diverso Soluções Ambientais.

Moraes vê futuro promissor para o mercado, mas também chama a atenção para a carência de profissionais que executem - e bem - projetos de reflorestamento. "Não é só plantar. Para formar floresta é preciso adotar técnicas de plantio e avaliar que espécies atraem aves e outros animais, por exemplo. Se a floresta consegue atrair animais, estes trazem mais sementes e a enriquecem, tornando-a viável ao longo do tempo."

Após constatar essa lacuna, também resolveu investir na produção de mudas e está instalando, em Sorocaba (SP), um viveiro. "Um dos gargalos do setor é a semente. Garantir um lote de mudas viável e com variabilidade genética é difícil." O viveiro tem capacidade para 45 mil mudas/ano, com meta de chegar a 300 mil/ano.

A coleta de sementes é feita o ano todo, mas no Estado de São Paulo, o fim do inverno é considerado o pico da "safra". Em um mês de coleta, o biólogo conseguiu 46 espécies. Além de ter "olho clínico" para o negócio, Moraes diz que é essencial que o produtor tenha mudas para pronta entrega e faça controle do estoque. "Quem consegue aliar essas duas coisas a um trabalho de pós-venda, que é o acompanhamento do projeto, tem mercado."

Profissional disputado no mercado, o técnico agrícola Emilson José Rabelo, do viveiro Ambiental Mudas Nativas e Exóticas, em Araraquara (SP), tem talento inato para identificar espécies e é experiente coletor de sementes. "É um trabalho árduo. Tem que entrar na mata de madrugada, subir em árvore, enfrentar calor, bichos. Tem que gostar muito." O viveiro produz, por ano, mais de 1 milhão de mudas, de 120 espécies nativas. A maioria é vendida em tubetes, mas ele produz também mudas em saquinhos e em potes. "Cada cliente quer de um jeito."

Tubete ou saquinho. Os tubetes, diz, são para clientes que vão plantar grande quantidade, acima de 10 mil mudas. "Esses querem preço e facilidade no transporte, porque onde são transportados 100 saquinhos, cabem 2 mil tubetes", explica Rabelo. A muda no saquinho atende a projetos que necessitem de plantas mais desenvolvidas. Já as mudas de pote, mais caras, têm foco em projetos maiores, como arborização de ruas, fazendas e condomínios. "Mesmo com a indefinição do código, muitos produtores estão investindo em reflorestamento. É uma forma de se antecipar à lei, mas também demonstra maior consciência ecológica."

"Se o Brasil tiver 30 bons coletores de sementes, é muito", diz o consultor Flores Welle, de Holambra (SP). Com produção de 150 mil mudas de mais de 100 espécies nativas, Welle quer, em um ano e meio, expandir a área e produzir 400 mil mudas. "Fazer o controle de estoques dá trabalho, mas é bom fazer", diz ele, que elabora e executa projetos de recuperação ambiental e, se o cliente quiser, faz a manutenção da área.

O agrônomo André Gustavo Nave, diretor do Viveiro Bioflora, em Piracicaba (SP), que produz 4 milhões de mudas de mais de 150 espécies, atesta a importância de uma boa gestão do viveiro. "O maior gargalo é planejar a produção em escala. Isso, por sua vez, tem relação direta com uma reposição bem elaborada, que respeita o processo de formação de uma floresta original", diz. "No interior paulista predomina a floresta estacional semidecídua. É diferente do cerrado, que é diferente da mata atlântica."

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