Com técnicos, produtividade cresce

Especialistas chamam a atenção para a necessidade de aprimorar o ensino técnico no País para conquistar o interesse dos jovens

WLADIMIR DANDRADE, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2012 | 02h11

Empresas, governos e entidades civis precisarão se juntar no movimento de qualificação de mão de obra no País, para adequar a necessidade de trabalhadores especializados na sustentação dos investimentos futuros. Segundo os especialistas, a solução passa pelo aprimoramento do ensino técnico e pelo aprendizado dentro das empresas, levando o jovem se especializar enquanto estuda, antes de buscar o primeiro emprego.

O esforço conjunto poderá resultar em reformas na legislação trabalhista e promover o ensino técnico como boa alternativa de carreira e perspectiva de remuneração atraente, avalia Stéphane Garelli, diretor do instituto suíço de formação de executivos, Centro de Competitividade Mundial da IMD Escola de Negócios.

Garelli afirma que o Brasil precisa desenvolver sistemas de ensino que permitam ao jovem estudante desenvolver habilidades sem necessidade de cursar ensino superior - caminho que a maioria da população não pode pagar. No último Anuário Mundial da Competitividade (WCY, na sigla em inglês), divulgado pelo IMD em maio, o indicador que mostra a disponibilidade de força de trabalho qualificada em vários setores de atuação coloca o Brasil na 57.ª colocação, de um total de 59 nações avaliadas.

Garelli cita exemplos de países europeus, onde jovens recebem formação das empresas durante um período do dia, sem deixarem de lado a escola regular. "Esse sistema de aprendizado tem sido muito desenvolvido na Alemanha e na Suíça. As pessoas se tornam operacionais no mercado de trabalho mais rapidamente se comparado com o período mais longo de formação acadêmica. É preciso que os trabalhadores desenvolvam suas habilidades nas empresas, investir em treinamento."

Em Dubai e Abu Dabi, no Oriente Médio, cita Garelli, os governos exigem das multinacionais, como contrapartida da atuação das empresas no local, a criação de colégios técnicos para treinar a força de trabalho local. "Companhias estrangeiras podem ser importantes agentes da formação da mão de obra local e transferir novas habilidades para os trabalhadores do país."

O problema da falta de mão de obra qualificada no Brasil decorre do cenário positivo da economia brasileira, diz Carlos Arruda, coordenador do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral, instituição responsável pelos dados do Brasil no WCY, do IMD. De acordo com ele, as oportunidades de emprego disponíveis no mercado brasileiro desestimulam o jovem a aprofundar a sua formação. "A educação se tornou algo importante, mas não prioritário", diz.

Uma das consequências desta situação é a "baixíssima" produtividade do brasileiro. No WCY o Brasil ocupa a 52.ª posição no ranking de 59 países que mede a rentabilidade do trabalhador em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Os dados, de 2011, mostram que a rentabilidade anual média da mão de obra brasileira é de US$ 22.914. Na Argentina é de US$ 45.558; no Canadá, chega a US$ 78.887; e nos Estados Unidos, US$ 106.098. "À medida que incluímos mais gente no mercado de trabalho com baixa qualificação, menos valor agregamos à nossa economia", afirma Arruda.

Um dado que pode ilustrar a escassez de profissionais com condições de levar a um aumento da produtividade da economia nacional é a baixa formação de profissionais graduados nas áreas de ciência e engenharia. De acordo com o WCY, apenas 15,2% dos alunos das universidades brasileiras estão matriculados em cursos dessas áreas, o pior porcentual entre 56 países analisados nesse quesito. No Chile a parcela atingiu 29,3% e na China, 55,08%.

"As engenharias ficaram presas a uma redução da demanda pelos profissionais após o milagre econômico (da década de 70). Muitos, então, foram trabalhar no setor financeiro", conta o diretor da Fundação Dom Cabral. "Se um país quer crescer com agregação de valor, tem de formar profissionais nessa área (engenharia)", diz.

Resistência cultural. No Brasil, a qualificação técnica da mão de obra é dependente do chamado Sistema S, formado por organizações criadas pelos setores produtivos e que inclui o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), entre outros.

Este conjunto de instituições, no entanto, não consegue atender o tamanho da necessidade atual das empresas por profissionais. "Embora com avanços nos últimos anos, essa qualificação não está sendo suficiente para atender à demanda atual e muito menos a futura", afirma a diretora da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Eaesp), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Maria Tereza Fleury.

De acordo com ela, existe no País uma herança cultural da valorização do bacharelado que cria resistências quanto a outros caminhos para a formação profissional. "O Brasil precisa dar um reconhecimento ao ensino técnico semelhante ao que recebe uma pessoa com curso universitário", afirma.

Mas aos poucos, ela observa, ocorre na sociedade brasileira uma flexibilização do conceito sobre a formação técnica. "Já começamos a ver, em uma série de grupos sociais e entre os jovens que hoje saem do primeiro grau, uma mudança de olhar."

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