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Como Richard Thaler ganhou o Nobel de Economia falando sobre coisas tolas

Vencedor do prêmio fala sobre sua curta carreira no cinema e como ele começou na economia comportamental, além das peculiaridades humanas que constituem o trabalho de sua vida

Jeff Sommer, The New York Times

17 Outubro 2017 | 18h08

Richard H. Thaler ficou sabendo na manhã de segunda-feira que recebera o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas por suas “contribuições para a economia comportamental” - um campo que ele ajudou a criar. Thaler, professor na Universidade de Chicago, também escreve a coluna Economic View para The New York Times, que eu edito. Então, ao amanhecer, logo após o anúncio do Nobel, enviei-lhe um e-mail. “Bravo!!!”

Também lembrei a ele que sua coluna era aguardada naquela manhã. “Feliz em conversar! ” Ele respondeu. “Sem coluna esta semana !!!”. Razão pela qual, na terça-feira, acabamos conversando por telefone. Falamos do prêmio, é claro -, mas também de sua curta carreira no cinema, sobre como ele começou na economia comportamental (isso envolve castanha de caju) e as peculiaridades humanas que constituem o trabalho de sua vida.

Aqui está uma versão editada e condensada da conversa.

P. Como você vai? Ouvi dizer que ganhar um Nobel é estressante.

R. Ontem foi um longo dia e estou começando a perder a voz. Você é a última pessoa com a qual vou conversar, e depois vou ao jogo do Cubs.

- Já que você não pode terminar a coluna, diga-me algo interessante. Talvez possamos usá-lo em vez dela. Por exemplo, como você escolheu essa coisa de economia comportamental?

- Minha carreira começou com castanhas de caju. Coloquei numa tigela e as escondi na cozinha.

- Qual o sentido profundo da castanha de caju?

- Você sabe que sou vítima de todas as coisas sobre as quais eu falo. Castanha de caju? Elas são um problema de autocontrole. Eu tinha colegas de quarto. Estávamos comendo as castanhas muito rapidamente. Na realidade, havia dois problemas - comer demais, isso é autocontrole, além de miopia.

- Onde entra a miopia?

- O jantar vai chegar em 20 minutos. Você sabe disso, mas não consegue parar de comer. Mas eu encontrei uma resposta. Se castanhas não estiverem à sua frente, você fica menos tentado de comê-las. Na verdade, se você precisar levantar e ir até a cozinha – como naquela casa enorme em que eu vivia como estudante de graduação em Rochester - você acaba não comendo exageradamente. - Que sacada hein? Pois estive estudando coisas desse tipo durante anos.

- A primeira vez que liguei para você foi quando li sobre a mosca no urinol.

- Isso foi o que atraiu sua atenção?

- Sim. Então, lembre-me. Colocar aquela mosca no urinol fazia parte de uma experiência científica?

- Não, não houve experiência. Era algo que faziam no aeroporto de Amsterdã. Eles simplesmente colocaram a mosca (pintada) no urinol e propuseram dados não validados. E você se arrisca. Muitas pessoas o fizeram.

- Eu não deveria ter prestado atenção nisso?

- Não estou dizendo isso. Foi interessante. Em Amsterdã, eles descobriram que, quando os homens veem uma mosca em um urinol, há uma mudança comportamental. Houve uma melhora, digamos, na pontaria, reduzindo os respingos. Tornei famosa a mosca no urinol. Cass Sunstein e eu escrevemos sobre a mosca em nosso livro, Nudge, o Empurrão para a Escolha Certa. A mosca pode ser o mais famoso cutucão do mundo.

- Os cutucões funcionam porque nós seres humanos não somos seres inteiramente racionais, certo?

- Certo. Na segunda-feira, quando ouvi que ganhei o Nobel, coloquei uma camiseta velha com as palavras “Quasi Rational” (livro que ele escreveu em 1991) sobre isso. 

- Quais são as nossas peculiaridades mais importantes?

- Eu criei uma lista de coisas estúpidas que as pessoas fazem. Nem todas essas coisas foram feitas por mim. Muitas foram. Uma das grandes é o gasto irrecuperável.

- O que isso significa?

- Gastos irrecuperáveis? Prestamos muita atenção a eles. Por exemplo: um amigo meu e eu, de volta a Rochester, recebemos dois ingressos para um jogo de basquete que aconteceria em Buffalo. Mas houve uma grande tempestade de neve. Meu amigo me disse que não havia como chegar a esse jogo agora, na tempestade de neve, e não fomos. Mas, ele disse, você sabe, se nós tivéssemos pago por esses bilhetes, teríamos ido. Sentia-se diferente pelo fato de não termos pago: não tivemos custos irrecuperáveis. Se tivéssemos pago, teria sido diferente. Isso é louco, para a economia clássica, mas é a verdade. Então, os custos irrecuperáveis entraram na minha lista.

- O que mais há nela?

- Eu tinha um amigo que teve uma terrível febre de feno ao aparar seu gramado. Eu disse a ele: por que não contrata um garoto para fazer isso por você? Isso foi há anos. Ele disse que custaria US$ 10 e ele não pagaria. Então eu perguntei: você cortaria o gramado de seu vizinho por US$ 20? Ele disse: hei! Nem por US$ 50! Mas para a economia tradicional, isso não faz sentido. E meu amigo era um economista! Sabe, o preço da oferta e o preço da demanda devem ser praticamente iguais. Não deveria haver dois preços diferentes. Segundo os economistas. Mas mesmo meu amigo, um economista, não pensou na forma como os economistas deveriam pensar. Então eu fiz essa lista das coisas engraçadas que eu via as pessoas fazendo. Há mais deles no meu livro, Comportamento Inadequado - A Construção da Economia Comportamental, coisas que não faziam sentido na teoria tradicional. Foi assim que tudo começou. A teoria precisou ser mudada.

- Qual foi a sua maior descoberta?

- O maior, de longe, foi descobrir o trabalho de Danny Kahneman e Amos Tversky. 

- Dois grandes psicólogos. Daniel Kahneman ganhou um Nobel em economia em 2002. Amos Tversky já havia morrido. E Danny Kahneman disse que você ensinou a ele e a Amos Tversky a economia. Isso está correto?

- Bem, de certa forma, sim: ensinei-lhes economia e eles me ensinaram psicologia. Em Stanford. E agora, temos economia de comportamento. De certa forma, sim.

- Você tornou-se muito popular. Apareceu no filme A Grande Aposta, como você mesmo, “o pai da economia comportamental”. E as abordagens que você defende - cutucões, reestruturando “a arquitetura de escolha” de coisas desde displays para comida de cafeteria a projetos de planos de previdência privada, 401 (k) - estão tendo um grande efeito no mundo. Para onde vai isso?

- Eu realmente não sei, mas o Banco Mundial fez uma contagem. Em 75 países ao redor do mundo, as pessoas já estão adotando tais ideias. Está explodindo. 

- O dinheiro Nobel: você já começou a gastá-lo?

- O que eu fiz foi uma espécie de piada sobre isso. Disse que iria gastá-lo da forma “irracional possível”. O Prêmio Nobel vai ser “dinheiro para diversão” - para uma ocasião, quando minha esposa e eu quisermos uma garrafa de vinho de US$ 50. "Dinheiro para diversão” é outra coisa que não faz sentido para os economistas tradicionais. Porque existe apenas dinheiro; não há "dinheiro divertido". Tudo deve ser o mesmo. O que me leva à "contabilidade mental". Provavelmente é o que me tornou mais conhecido.

- Como você explicaria isso?

- A melhor explicação, na verdade, está em um vídeo no YouTube com Gene Hackman e Dustin Hoffman. Você deveria usá-lo. 

- Vamos ver se podemos. (Não, não podemos. Contém uma palavra que não publicamos a menos que um político diga isso.) Ajude-me. O que é contabilidade mental?

- Bem, Hackman diz que quando ambos eram jovens atores ele estava na casa de Dustin Hoffman e Hoffman pediu-lhe um empréstimo. Hackman entra na cozinha e vê todos os frascos com rótulos – “entretenimento” e “livros” e “aluguel” - e todos têm dinheiro dentro. Exceto um, o que diz “comida”. Então ele diz a Hoffman: “Você tem muito dinheiro, por que precisa de dinheiro? ”. E Hoffman responde: “não há dinheiro na jarra de comida. Não consigo tocar no outro dinheiro. " Eles riem, continuam, são engraçados, mas você sabe, é sério. Porque todos nós fazemos isso. Isso é contabilidade mental – colocar dinheiro em diferentes potes em sua cabeça – uma coisa estúpida de se fazer?

- Em algum nível, você pode pensar nisso como estúpido, como violar o pressuposto básico do economista de que o dinheiro é fungível (que pode ser substituído por outro de mesma espécie, qualidade e quantidade). Essa é uma boa palavra do New York Times.

- Sim. O dinheiro é dinheiro. É tudo a mesma coisa. Então, colocá-lo em caixas mentais não é inteiramente burro?

- É inteligente. Ajuda. Isso ajuda colocar dinheiro em uma “cesta para aposentadoria”, por exemplo. No caso da previdência privada, 401 (k), o dinheiro é muito "mais pegajoso" do que o dinheiro em outro lugar: ele tende a permanecer lá. O que ajuda as pessoas a pouparem para aposentadoria. Em resumo, na vida cotidiana, não queremos lidar com muitos problemas matemáticos. As pessoas apenas imporão regras gerais, como, por exemplo: não pagarei mais de US$ 30 por uma garrafa de vinho, a menos que seja uma ocasião especial. Então, eu recorro ao “dinheiro para diversão”. E agora, eu tenho uma conta mental para isso: o dinheiro do Nobel. 

- Isso é meio bobo.

- Claro que é, Jeff. Mas essas coisas tolas são o trabalho da minha vida.

Tradução de Claudia Bozzo.

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