Como transformar economias osmóticas em autopropelidas

Os investimentos chegam nos ciclos de abundância internacional, em busca de ativos baratos, juros, ou isenções

Luiz Hanns*, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2017 | 05h00

Talvez você ainda lembre da escola, que a osmose promove o transporte passivo de água, que flui pela membrana celular em direção ao meio mais salino. No caso das economias osmóticas, três fluxos passam por sua membrana: investimentos, saldos de exportação e modernização.

Os investimentos chegam nos ciclos de abundância internacional, em busca de ativos baratos, juros, ou isenções. Na escassez vão se embora. Os saldos da exportação vêm com a alta de preços das commodities e subsidiam consumo e projetos duvidosos. Na baixa só restam dívidas. A modernização vem com a crise, importa-se as melhores reformas econômicas e institucionais, mas passado o pânico se afrouxam (responsabilidade fiscal, lei de patentes, etc.).

Muitos osmóticos como Brasil, Índia, ou México, absorvem práticas bem sucedidas do entorno de modo errático. Outros, mais consistentes, logram calibrar suas osmoses num nível modesto de desenvolvimento, como Portugal, ou Chile.

Diferente de países autopropelidos, que se apoiam mais no próprio motor que nas condições externas. Como Holanda e Canadá, ou os ex-pobres, Coréia do Sul e Irlanda, ou os ainda-pobres, Vietnã e China. Todos poupam, investem, se modernizam, têm pautas flexíveis de exportação e projetos setoriais e nacionais. Como conseguem?

Seguem três posturas: almejam metas ambiciosas detalhadamente planejadas; obstinam pela eficiência na execução dos planos; e retificam constantemente os processos. Essas três atitudes não foram surgindo em decorrência de reformas econômicas e institucionais, elas eram seu ponto de partida. Desde o início, eram credos de lideranças dedicadas a implantá-las na gestão pública, nas empresas e a inseri-las na educação (que sustenta o desenvolvimento a longo prazo). Além disso, como David contra Golias, essas lideranças apostavam que seus países poderiam alcançar e superar o topo.

No Brasil, apesar da falta desses credos, também pretendemos superar o atraso investindo na educação, mas que modelo adotaremos? Hoje miramos em dois eixos – melhorar conhecimentos acadêmicos, aferidos em provas do Pisa, e incrementar habilidades socioemocionais (adotadas nos melhores programas mundiais). Ambos eixos são vitais, mas não bastam para formar cidadãos com competência no planejar, executar e retificar.

A teoria socioemocional surgiu em sociedades disciplinadas, planejadoras e pragmáticas. Lá o desafio escolar é motivar, promover criatividade, empatia, autocontrole, autonomia e cidadania. As três competências e a ética, já estão no tecido social desses países, por isso não são ensinadas num programa à parte, fazem parte dos projetos de habilidades socioemocionais.

No Brasil desrespeitamos regras, negligenciamos compromissos e trocamos a realidade por pensamento mágico, entre outras insuficiências.  Aqui as três competências e a ética esbarram em inércias sistêmicas. É preciso reforçá-las em programas especiais.

Por exemplo, desde sempre pessoas e povos evoluíram “adotando as melhores práticas”, isto é, escorando-se em conhecimentos elaborados por outros e depois inovando. Um problema do subdesenvolvimento é ignorar conhecimentos duramente obtidos por outros povos, ou copiá-los sem adaptar. Como poderíamos ensinar nossos alunos a fazê-lo?

De início, por meio de estórias, jogos e rodas de conversa. E depois, de acordo com a idade, em atividades, como arrumar a sala de aula, organizar campeonatos, ou discutir problemas do bairro, como arborização, saneamento. Desde cedo habituando a perguntar: há em outros lugares dentro e fora do Brasil soluções excelentes que poderíamos adotar e aperfeiçoar?

E mostrando que aprender a “adaptar melhores práticas” é essencial não só para eles, mas também para o futuro do país. Ao conectar a aquisição desta, e de outras competências, a um esforço coletivo pelo desenvolvimento, confere-se aos alunos um senso de cidadania e propósito nacional. Algo que seria inadequado nos programas socioemocionais em países avançados, mas essencial para nações atrasadas.

Mas “adaptar melhores práticas” seria apenas um dos tópicos em um programa para ensinar as três competências. O importante é lembrarmos que essas competências não são decorrência natural da educação, desde início precisarão estar no âmago dos nossos projetos pedagógicos, ou continuaremos osmóticos.

*PSICÓLOGO E ANALISTA DE COMPORTAMENTO

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