Complacentes contra intolerantes, quem vencerá?

É provável que este ano, em nome da governabilidade, a complacência ainda prevaleça de novo

Luiz Hanns*, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2017 | 05h00

Os charmosos complacentes sempre estiveram por toda a parte, do Oiapoque ao Chuí, na administração pública e privada, infiltrados entre os corruptos e os honestos, na esquerda e na direita. São nosso Bem e nosso Mal.

Enquanto em muitos países os conflitos distributivos geram confrontos abertos, nossos complacentes – nas famílias, empresas e no governo – são piedosos e sabem como é duro frustrar-se com um “não”, tentam dar esperança, e quando não há mais como disfarçar o fato de que não há o suficiente para todos, tiram um pouquinho de um para dar a outro. Até que aquele que ficou sem reclame demais. Aí, tiram do terceiro e repõem ao primeiro. Para que nem abusadores, nem abusados se decepcionem.

A coisa funciona mais ou menos assim: reclamam dos salários? Conceda um aumento, depois suba seus preços, que o lojista convence o cliente a comprar a crédito, que não é dívida, é parcelamento que cabe no bolso. E se faltar dinheiro? O governo subsidia, é só subir impostos e dar isenções a quem chora mais. E se crescer a dívida pública? Refinancia-se, ou se enrola com inflação. Que depois se combate com juros altos, compensados por subsídios para pobres e ricos. E se, no meio do caminho, o filho colar nas provas, o fornecedor não cumprir prazos, o amigo guiar alcoolizado, ou fizerem greve abusiva? Sempre se pode dar mais uma chance, mudar regras, pedir vista do processo.

Afinal, inflação, impunidade e déficit, as três facetas da complacência, só fazem bem, oxigenam e trazem paz social. Por aqui, não toleramos frustração, ao menos não por muito tempo, é preciso sonhar.

Mas e agora que as coisas desandaram de vez, Lava Jato, crise fiscal, colapso no sistema prisional, nos tornaremos um país duro? Sem jeitinho, sem piedade, nem ilusão?

Nas crises, os charmosos complacentes sempre tiveram a competência de acionar um freio de arrumação, se preciso trocavam governos e faziam duras reformas, que sinalizavam que agora era para valer. E era, até que novamente retomávamos nosso charming lifestyle quando a crise amainasse.

Desta vez, só não dará certo se aumentar o número de brasileiros chatos, intolerantes com abusos, que cobram estudo dos alunos, responsabilidade fiscal, respeito no trânsito, cumprimento dos prazos, realismo previdenciário, fim da impunidade.

A bem da verdade, algumas dessas providências já foram tentadas por FHC, Lula, Dilma e Temer. O problema é que os aposentados, os estudantes, os corruptos, os cidadãos honestos, os políticos, os empresários e os sindicalistas, todos sofreriam demais. Daí os complacentes recomendarem ceder aqui, mudar um pouco lá, sem forçar demais a oposição, nem a base de apoio, nem a sociedade. Afinal não seria nosso estilo.

Por isso, é provável que em 2017, em nome da governabilidade, a complacência prevaleça de novo. Mas, em algum momento, entre 2018 e 2100 esse modelo entrará em colapso.

Isso ocorrerá quando a complacência for reconhecida como um grande inimigo e os brasileiros chatos se mobilizarem, na mídia, nas instituições, nas escolas e nas ruas, num verdadeiro combate a ela, tal como hoje se luta contra a corrupção, e o racismo. E mostrarem que se pode dizer “não”, sem medo de frustrar filhos, vizinhos, funcionários ou chefes. E enunciarem que só após décadas de trabalho duro usufruiremos de alguma prosperidade.

Terá então chegado a hora de discutirmos nacionalmente um pacto distributivo. E de elite e população assumirem que qualquer escolha terá custos enormes. Aí finalmente teremos conquistado a verdadeira governabilidade, sejamos de esquerda, direita ou centro.

Mas algo assim poderia acontecer no Brasil? Na verdade, já existe a palha seca no desejo latente da população por seriedade, falta as lideranças trazerem tochas para fazer fogo. Essa prontidão popular e como tirar nossas lideranças de sua lassidão é tema para próximos artigos.

Enfim, tudo menos charmoso que nossa fina arte de harmonizar o contraditório com tanto jogo de cintura, nosso Bem e nosso Mal...

*PSICÓLOGO E ANALISTA DE COMPORTAMENTO

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