Comunicar e equacionar as contas públicas

As projeções de mercado são alentadoras e corroboram a tese de que o pior já ficou para trás

Luiz Schymura *, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2018 | 05h00

Temos sido bombardeados pela imprensa com cenários alarmistas sobre a situação das contas públicas. Os técnicos da área procuram demonstrar de forma categórica a dramaticidade do momento. De fato, não há dúvidas: os números assustam. Contudo estou cético quanto à viabilidade de implantação das medidas necessárias para reverter o quadro. Por quê?

Para começar, estudos que apontam para o risco da realização de quadros catastróficos sempre existiram e, em que pese o rigor técnico dos trabalhos, tendem a superestimar as ameaças. Um dos casos mais notáveis ocorreu na virada para o século 19. Thomas Malthus, um respeitado intelectual, mostrou-se equivocado quando preconizou que a população cresceria mais rapidamente que a produção de comida. A fome seria inevitável. Da mesma forma, nos dias de hoje, muitos prognósticos aterradores são respaldados por exercícios acadêmicos bem fundamentados. Cito alguns exemplos. Recentemente, a jornalista Daniele Chiaretti descreve – matéria do jornal Valor Econômico de 6/12/2017 intitulada "Antibiótico na natureza gera superbactéria, alerta ONU" – o desafio de lidar com a rápida e crescente resistência das bactérias a antibióticos. Segundo Sally Davies, assessora médica do governo do Reino Unido, “se não agirmos agora enfrentaremos um terrível apocalipse pós-antibiótico”. Na mesma linha, se questionarmos um ambientalista, os perigos que estamos incorrendo pelos atos de ataque ao meio ambiente geram cenários alarmantes. Sem falar nos riscos apontados por técnicos de ocorrer um surto de febre amarela, dengue, etc. 

Supondo que algumas das previsões trágicas poderão se materializar, o que nos dá a garantia de que algo será feito a tempo? Nada. Mas a história nos ensina que inúmeras catástrofes foram evitadas e combatidas com eficácia, pois, à beira de um abismo, as pessoas – ou seus representantes – agem para dele se afastar. Portanto, antes de tudo, a percepção da queda iminente é o que permite a tomada das devidas providências a tempo de evitá-la.

Sendo assim, por que não acreditar na ação dos Poderes da República na reversão da crise fiscal? Porque é difícil para a classe política tomar medidas duras e impactantes sem respaldo popular. Quando me coloco na posição de um cidadão que não tem familiaridade com o tema, a magnitude do problema alardeado das finanças públicas soa exagerada. A severidade da situação não está clara. 

Logo de início surge uma questão de ordem: parte significativa da população não está disposta a pagar por um desajuste que, se houver, no seu entender é função da corrupção desenfreada que toma conta do País. Ainda mais quando se revela a amargura dos remédios que devem ser ingeridos para reverter o alegado desacerto nas contas do setor público. Os ajustes ditos necessários promovem perdas importantes, seja pela via do aumento de obrigações ou pela redução de benesses, fazendo com que a ideia do combate à corrupção como solução definitiva e suficiente seja defendida por tantos. 

Caso haja a compreensão de que os desvios são um dos problemas, mas não a causa central do desequilíbrio do Orçamento público, o foco passa a ser a investigação do quão próximo está a economia do despenhadeiro. É de esperar que a situação fiscal ruim já deva apresentar reflexos no desempenho dos principais indicadores econômicos. No entanto, não é isso que se observa. Pelo contrário. O discurso oficial afirma que estamos saindo da crise. O responsável por termos entrado nela já foi identificado e já a afastamos. As projeções de mercado são alentadoras e corroboram a tese do pior já ficou para trás. Os dados são contundentes. O crescimento do PIB em 2018 será em torno de 3%, a taxa de desemprego cairá e a inflação e os juros se manterão baixos. 

Portanto, cadê o desfiladeiro? Com a economia melhorando é complicado convencer as pessoas da gravidade do momento. O precipício tem que passar de uma hipótese para uma ameaça real. 

* PESQUISADOR DA FGV IBRE

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