Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Produtores irlandeses pedem 'embargo imediato' da carne brasileira na Europa

Assunto deve ser levado a reuniões da OMC nesta semana; associação irlandesa quer que a UE barre toda a importação nacional

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 Março 2017 | 08h08

GENEBRA - Maiores concorrentes da carne brasileira no mercado europeu, os produtores irlandeses pedem oficialmente à Comissão Europeia o "embargo imediato de toda a importação de carne do Brasil". Em um comunicado emitido na manhã desta segunda-feira, 20, a entidade que representa o setor indicou que entrada do produto nacional é "ultrajante". Os europeus confirmam que pediram para falar do assunto em reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC). A entidade se reúne a partir de terça-feira para debater temas fitossanitários. 

Na agenda do encontro da OMC, fechada há dez dias, não constava nenhuma crítica à carne do Brasil. Mas a reportagem apurou que, desde a eclosão do novo caso, os principais parceiros comerciais se mobilizam para levantar o assunto durante a reunião. Diversos governos também indicaram que querem pedir reuniões bilaterais com o Brasil nesta semana para obter esclarecimentos sobre a fraude na carne. 

"A UE tem alertado de forma repetida sobre os riscos da importação de carne da América do Sul ", disse o presidente da Associação Irlandesa de Produtores de Carne (ICSA), Patrick Kent. "É ultrajante que a UE continue dando uma segunda chance ao Brasil, mesmo depois que o Escritório de Veterinária tenha produzido informes continuamente mostrando deficiências das práticas no Brasil", disse. 

"O pior de tudo é a tentativa de sacrificar a qualidade da produção de carne na Europa ao negociar um acordo comercial bilateral com os países da América do Sul", atacou. "O impacto disso seria minar totalmente os produtores europeus e irlandeses, inundando a Europa com carne brasileira, barata e abaixo do padrão", denunciou. 

O uso da fraude no Brasil como argumento para fechar as fronteiras não ocorre por acaso. Estudos da própria UE estimam que as exportações do Mercosul para a Europa poderiam aumentar em 14 bilhões de euros em dez anos, graças a um acordo comercial entre as duas regiões. E quem mais sofreria com a abertura de mercados ao Brasil seriam os produtores irlandeses, que hoje tem tarifa zero para o restante da Europa. 

A estimativa aponta que, até 2025, os europeus ampliariam em 29 bilhões de euros suas compras de produtos agrícolas de países envolvidos em acordos comerciais com Bruxelas. Metade viria do Mercosul.

No total, isso representaria um salto em 24% nas exportações do Cone Sul para o mercado europeu. 

Os ganhos do bloco sul-americano com um acordo, na estimativa dos próprios europeus, seriam quase três vezes maiores do que os americanos poderiam obter no setor agrícola com um eventual tratado de comércio com a UE. Segundo as estimativas oficiais de Bruxelas, os exportadores dos EUA registrariam um incremento em 4,8 bilhões de euros em vendas até 2025. 

Um dos principais ganhos viria do setor de carnes. No segmento de produtos bovinos, o estudo da UE estima que "mais de 80% do aumento de importações viria do Mercosul". "A balança de comércio se deteriorará profundamente", admitiu a Comissão Europeia. O aumento em vendas para o bloco do Cone Sul seria de pelo menos 1,4 bilhão de euros. Outros 900 milhões de euros ainda seriam gerados no aumento de espaço para a carne suína e frangos do Mercosul no mercado europeu. 

O Itamaraty, junto com técnicos do Ministério da Agricultura, se prepara para dar uma resposta, trazendo os detalhes da investigação da PF e tentando evitar um embargo. Mas, ao mesmo tempo, o governo vai insistir que o escândalo não envolveu exportações e que, portanto, uma suspensão do comércio não seria justificada. O governo também vai bater na tecla de que foram as autoridades nacionais quem investigaram e puniram o esquema e que, portanto, não tentam esconder o caso.  

Mas o Estado apurou que parlamentares e produtores europeus passaram o fim de semana em contato para tentar incrementar o lobby e pressionar as autoridades europeias a rever seus planos de autorização de importação da carne nacional. Na sexta-feira, a reportagem revelou com exclusividade que as maiores cooperativas agrícolas da Europa (Copa e Cogeca) usariam o caso para pressionar os diplomatas europeus a frear novas concessões ao Mercosul. 

A pressão sobre Bruxelas, porém, passou a ser real no domingo. Na Irlanda, o partido Sinn Féin foi um dos que apelou publicamente para o fim das importações. O representante do partido para temas agrícolas, o deputado Martin Kenny, alertou que o caso brasileiro revela "as condições contra as quais os fazendeiros europeus precisam competir". 

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