REUTERS/Carlos Barria
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Conseguirá Trump vencer uma guerra comercial com a China?

A última vez que os Estados Unidos impuseram tarifas de grande alcance, na década de 1930, o efeito foi um prolongamento e agravamento da Grande Depressão

Ishaan Tharoor, The Washington Post

25 Março 2018 | 17h11

Durante anos o presidente Donald Trump vem clamando contra a ameaça do comércio chinês. Segundo ele, a China usa práticas comerciais pouco éticas que prejudicam a economia americana, roubam empregos americanos e contribuem para um enorme déficit comercial que hoje está em US$ 375 bilhões.

“O presente desequilíbrio comercial não é aceitável”, disse o presidente em novembro, quando proferiu um discurso para líderes e autoridades asiáticas no Vietnã. “Os Estados Unidos não mais farão vista gorda às violações, artifícios ou agressão econômica. Esses dias acabaram”.

Na quinta-feira ele finalmente adotou medidas contra Pequim. E anunciou sua decisão de impor tarifas sobre as importações chinesas que chegam a US$ 60 bilhões ao ano e limitar a capacidade dos chineses de investir no setor de tecnologia americano.

Trump e sua equipe defendem as ações alegando que está é a maneira de reafirmar a “soberania” americana nos campos da diplomacia internacional e do comércio. Uma investigação iniciada pelo governo em agosto encontrou uma variedade de práticas desleais na China, relacionadas em particular a um aparente roubo ou transferência forçada de propriedade intelectual de empresas americanas. E, do mesmo modo que as medidas que adotou anteriormente, elevando as tarifas sobre algumas importações de alumínio e aço de vários países, incluindo alguns aliados dos Estados Unidos, suas decisões mais recentes são mais um sinal de que ele está levando a cabo suas promessas de campanha.

No Twitter, Trump declarou: “como candidato prometi que, se eleito, utilizaria todos os instrumentos legais para combater o comércio desleal, proteger os trabalhadores americanos e defender nossa segurança nacional. Hoje, demos mais um passo no cumprimento dessa promessa”.

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Os anúncios feitos provocaram uma forte queda das bolsas de valores e intensificaram os temores de uma iminente guerra comercial. Segundo o Economist,  para cada empresa americana favorável às políticas protecionistas de Trump,  três mil  são contra as medidas.

“Comércio não é um jogo em que uns perdem e os outros ganham. Ele ajuda a aumentar o padrão de vida das pessoas em todo o globo”, disse Steve Odland, CEO do Committee for Economy Development, instituição que defende o livre comércio, escrevendo no website da CNBC. “Precisamos de produtos baratos de fora do país para aumentar nosso padrão de vida. E como somos apenas 5% da população mundial, necessitamos ter acesso a mercados para nossos próprios produtos, para expandir nossa economia. Não podemos fazer isto sem os outros”.

E horas depois do anúncio feito por Trump, Pequim mostrou que pretende revidar. “A China não deseja travar uma guerra comercial, mas não tem medo de uma guerra comercial”, foi o comunicado emitido na manhã de sexta-feira pelo Ministério do Comércio da China, em Pequim.

Segundo o Ministério, “foi feita uma lista de 120 produtos num valor equivalente a US$ 1 bilhão, incluindo frutas frescas e vinho, sobre os quais será imposta uma tarifa de 15% se os dois países não solucionarem suas divergências comerciais, dentro de um prazo estipulado”, reportou meu colega David J. Lynch.

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Não foram dados mais detalhes sobre os produtos que Pequim pode taxar, mas opções não faltam. A China, grande importadora de jatos comerciais fabricados pela Boeing, poderá se voltar para a Airbus ou outras empresas não americanas, com o fim de prejudicar o setor de aviação americano. Empresas de tecnologia como Apple e Intel, que têm importantes empresas de manufatura na China, poderão ser alvo de medidas punitivas.

Pequim também pode adotar as mesmas medidas retaliatórias que possam ser adotadas pela União Europeia contra os Estados Unidos, como a imposição de tarifas sobre as motocicletas Harley-Davidson. E desvalorizar o Yuan, tornando as exportações chinesas ainda mais competitivas – e enfurecendo Trump ainda mais.

E há o setor de agricultura, caso em que a China pode ter em mira as importações americanas de sorgo e soja. “A China pode comprar mais da América do Sul: o Brasil exportou mais soja do que nunca este ano – quase 51 milhões de toneladas, e quase tudo foi para a China”, observou o NPR. “Caso a China adote medidas contra as importações americanas de soja, isto prejudicará os agricultores americanos, que são a base de apoio de Trump”.

Pequim parece estar bem ciente disso. “Se a China reduzir à metade as importações de soja dos Estados Unidos, isso não terá nenhum forte impacto sobre o país, mas os plantadores de grãos dos Estados Unidos irão lamentar”, observou o editorial do Global Times agência de mídia estatal. “E são na maioria eleitores de Trump. Que eles o confrontem”.

Na verdade, os consumidores americanos é que perderão em qualquer tipo de pressão exercida pela China. “Não existe nenhuma maneira de impor tarifas sobre US$ 50 bilhões de produtos importados chineses sem evitar um impacto negativo sobre os consumidores americanos. Não devemos nos equivocar, essas tarifas visam a China, mas quem pagará a conta serão os consumidores quando fizerem suas compras diariamente”, disse Hun Quach, vice-presidente da área de comércio internacional da Retail Industry Leaders Association, para meus colegas.

No Twitter, Trump afirmou que “quando um país (EUA) está perdendo bilhões de dólares no comércio com praticamente cada país com o qual realiza negócios, guerras comerciais são boas e fáceis de vencer. Exemplo, quando reduzirmos o desequilíbrio comercial em US$ 100 bilhões com um determinado país e eles não criam problemas, vencemos. É fácil!”.

Embora o perene pesadelo de Trump seja o déficit comercial entre os dois países, os economistas sublinham que ele não entende como o comércio global funciona. “Barreiras comerciais retaliatórias impostas por outros países afetarão as exportações americanas e compensarão as exportações mais baixas, significando que o déficit comercial não vai desaparecer”, escreveu Eswar Prasa no Washington Post. “Além disto, exportações menores significarão menos emprego – uma possível conseqüência inesperada da política adotada por Trump”.

Prasad em seu artigo alertou que Trump não deve disparar o primeiro tiro de uma batalha que ninguém deseja travar. “Uma guerra comercial vai ferir todos os combatentes: afeta as empresas e a confiança do consumidor, limita as exportações e prejudica o crescimento. Muitas empresas americanas dependem das poucas barreiras comerciais para criar cadeias de suprimento internacionais que reduzem os custos e aumentam a eficiência. E elas podem ser desfeitas com as novas tarifas. A última vez que os Estados Unidos impuseram tarifas de grande alcance, na década de 1930, o efeito foi um prolongamento e agravamento da Grande Depressão. Vencer uma guerra comercial destruindo as importações e exportações pode ser uma vitória de Pirro.

Mas Trump parece decidido. Não se sabe claramente como as coisas seguirão a partir de agora. “Não sabemos como isto vai terminar”, afirmou Scott Kennedy, diretor do projeto relacionado a empresas chinesas no Center for Strategic and International Studies. “A situação pode ser resolvida em alguns meses ou sair do controle e se transformar em uma rivalidade estratégica mais ampla”.

Funcionários do governo falam de uma reformulação do sistema internacional pós-Segunda Guerra Mundial, cujas regras aparentemente não mais favorecem os interesses americanos, uma idéia censurada pelos críticos.

“Na forma atual, o conceito de América em primeiro lugar é uma ameaça aos fundamentos do sistema de comércio multilateral”, escreveu Michael Johnson, ex-negociador comercial britânico, em  postagem num blog do Fórum Econômico Mundial. “Os EUA parecem estar se afastando da sua história como principal incentivador de um sistema comercial internacional aberto”, acrescentou.

Os críticos de Trump esperam que ele não tire imprudentemente também o sistema internacional da sua trajetória. / Tradução de Terezinha Martino

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