ESTADAO CONTEUDO
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Consumidores aproveitam crise para fechar bons negócios e economizar

Desemprego em alta, renda em queda e inflação de quase dois dígitos obrigam comerciantes e prestadores de serviços a aumentar os descontos

Gabriel Hirabahasi e Thales Schmidt \ ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 Outubro 2015 | 03h00

A piora do cenário econômico, que atinge em cheio o setor de serviços, vem dando cada vez mais poder aos consumidores. A combinação de desemprego em alta, renda em queda e inflação de quase dois dígitos tem obrigado comerciantes, proprietários de imóveis e prestadores de serviços a negociar mais e aumentar os descontos. Para quem está disposto a barganhar, portanto, a crise está repleta de bons negócios.

Dos pequenos aos grandes valores, sempre vale a pena pechinchar. A profissional de Relações Públicas Denise Clarice, que mora em Bauru (SP), conseguiu um desconto de 30% na troca dos óculos. “Só a armação custava R$ 650 e ainda tinha o valor da lente, de R$ 200.” A vendedora baixou o valor para R$ 750, mas Denise não aceitou. “Quando estava quase levantando para ir embora, ela fechou por R$ 600, que era exatamente o que eu queria”, conta.

Em tempos de megaliquidações e de proximidade da Black Friday, que ocorre na última sexta-feira de novembro, alguns alertas são importantes. Sair de casa sabendo o que deseja facilita a comparação de preço e qualidade e evita as compras por impulso. Se o foco são as promoções, é importante ler bem as regras para não haver frustração. Algumas ações, por exemplo, só valem para novos clientes. Além disso, o consumidor tem o direito de exigir que os itens sejam vendidos exatamente pelo preço e condição anunciados.

Segundo a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste), toda informação transmitida por meio de publicidade, embalagem ou declarações de vendedores deve ser cumprida pelos lojistas.

Mensalidade. Com a inflação em alta, as escolas privadas também têm enfrentado dificuldades para repassar os aumentos de custos e manter os alunos. Levantamento realizado pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp) indicou um aumento de 7,13% no número de inadimplentes no acumulado do ano até agosto, em comparação com o mesmo período de 2014.

O químico Rogério Bertacini recentemente mudou o filho Guilherme, de 16 anos, de escola e notou a preocupação do local em atrair novos alunos. “Durante a negociação, a escola ofereceu algumas vantagens”, diz. Localizado em Limeira (SP), o novo colégio de Guilherme propôs um desconto de até 15% para os pais com interesse em garantir a anuidade completa de 2016. “A diretoria informou que há uma aceitação muito grande desse benefício”, conta Bertacini.

O setor imobiliário também perdeu fôlego com o esfriamento da economia, e os efeitos já aparecem no mercado de locação. O número de residências alugadas na capital paulista caiu 2,19% em 2015 até agosto, segundo dados do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP). E com a oferta em alta, o preço do aluguel inicial pedido por locadores passou a acumular queda nominal, sem considerar a inflação, de 2,51% até setembro, de acordo com o FipeZap.

Há um mês, a professora de inglês Mariana Siqueira, de 24 anos, começou a buscar um novo apartamento na capital paulista. O primeiro que visitou tinha aluguel de R$ 2,1 mil. “Por acaso conheci outra corretora, que me contou que já havia alugado um apartamento no mesmo prédio por R$ 1,9 mil. Frisei ao proprietário que eu e os outros moradores estamos em início de carreira e que o desconto ajudaria muito.” Assim, Mariana conseguiu o novo lar com o abatimento de R$ 200.

Contra-ataque. Antes motor da economia, o consumo das famílias agora fraqueja. A intenção de realizar compras recuou 1,8% em outubro e atingiu o menor nível desde 2010. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 70,7% das famílias consideram o momento atual como desfavorável para a aquisição de bens duráveis.

Para tentar reverter esse quadro, comerciantes traçam novas estratégias. Rosangela Lyra, presidente da Associação dos Lojistas dos Jardins, conta que as lojas da região têm buscado mais contato com o consumidor e realizado pequenos lançamentos. A associação também passou a distribuir mapas em hotéis. “Os turistas têm contrabalançado a crise”, diz Rosangela.

Outra baixa foi a registrada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de São Paulo (Abrasel), que calculou em 8% a queda das vendas no 2° trimestre ante os três primeiros meses do ano. Para a Abrasel, os únicos estabelecimentos com uma perspectiva melhor são aqueles com preço médio abaixo de R$ 30. Ricardo Thamer está apostando nesse caminho. Ele se uniu a três sócios para abrir um restaurante econômico. “Há um espaço interessante para empreender com o conceito de prato único.”

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