Contradições de uma retomada duvidosa

Investidores privados retraem e não investem, temendo a recessão, desemprego, queda de renda e vendas e não recuperar o dinheiro que aplicaram

Suely Caldas*, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2017 | 05h00

Uma onda de otimismo vem seduzindo consultores e analistas que vivem de projetar o futuro da economia. Dois prognósticos no radar deles: 1. Passo seguro e irreversível, a economia descolou mesmo da política, caminha com as próprias pernas e não sofre mais influência de incertezas e instabilidades decorrentes da crise que explode em Brasília; 2. A recessão já é passado, a retomada da economia está em marcha, segue em frente e sem recuos. Seria isso possível? Chegou o momento da virada, o País finalmente ganha esperança de respirar aliviado, três anos depois de um cenário devastador, de empresas fechando, desemprego multiplicando, famílias estraçalhadas?

O otimismo se apoia em alguns indicadores econômicos recentes. Porém, a esperada (e não confirmada) transição que vivemos traz contradições e contrapontos que precisam ser levados em conta:

Pelo segundo mês consecutivo a produção industrial cresceu em maio e começa a tirar do buraco montadoras automobilísticas e a indústria de bens de capital, cujo crescimento de 3,5% pode resultar em investimento produtivo em outros setores industriais. Mas o desemprego, a renda das famílias em queda, o consumo em baixa e o recuo de 2,1% da confiança dos empresários, medido pela FGV, não garantem uma tendência de crescimento firme e inquestionável para os próximos meses.

As vendas nos shopping centers cresceram 4,6% em maio, em relação ao mesmo mês de 2016. Porém, o fechamento de lojas nos shoppings até recuou um pouco, mas continua. O IBGE apurou uma alta raquítica de 1% nas vendas do comércio em abril, depois de muitos meses de queda.

Impulsionadas pela safra agrícola, as exportações têm produzido megassuperávits comerciais para o País e aliviam o faturamento de setores industriais com vendas internas fracas.

Massacradas pelo governo Dilma, a Petrobrás e a Eletrobrás começam a sair do sufoco: ganharam gestão profissional, frearam investimentos, reorganizam as finanças, vendem ativos e começam a aliviar o cofre vazio. Com isso querem voltar a investir. Em parceria com empresa chinesa, a Petrobrás vai retomar as obras de uma refinaria no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), que já sugou R$ 13 bilhões nos governos Lula e Dilma, a maior parte em corrupção e propina, sem nada construir. Mais combalida pelas trapalhadas de Dilma, que deixou o setor elétrico de pernas para o ar, a Eletrobrás desfez as trapalhadas, vai vender as velhas usinas, que podem render R$ 30 bilhões, e partir para a privatização de subsidiárias.

Se na crise do governo Dilma a Bovespa caiu para 45 mil pontos e o câmbio saltou para R$ 4,50, desta vez os dois têm oscilado levemente, em torno de 63 mil pontos e R$ 3,30. Neste campo sim, a economia parece ter descolado da política, mas é decorrente da confiança dos agentes financeiros na gestão macroeconômica Fazenda/BC, que inexistia no governo Dilma. O descolamento e o contraste entre os dois governos surgem também na inflação, que recuou de 10% com Dilma para uma expectativa de 3% em 2017 e até deflação em junho, e na queda dos juros, com a taxa Selic recuando para 8,5% em dezembro próximo, com zero de artificialismos e interferências políticas.

É possível que o Senado aprove a reforma trabalhista na terça-feira. É um bom avanço, se a versão final não sair esmagada e o imposto sindical sobreviver, por fraqueza política de Temer e pressão das centrais sindicais. Mas a previdenciária corre o risco de não sair com ou sem Temer, ou Maia, ou um novo nome na Presidência, o que pode desencadear uma série de desequilíbrios, que comprometem a retomada da economia. Com a arrecadação tributária em queda, a receita do governo será crescentemente desviada para pagar aposentadorias, escasseando verbas para saúde, educação, segurança, saneamento, programas sociais e investimentos públicos. Além disso, os investidores privados retraem e não investem, temendo a recessão, desemprego, queda de renda e vendas e não recuperar o dinheiro que aplicaram.

Diante desse quadro, leitor, é difícil falar hoje em retomada da economia e seu divórcio da crise política.

*jornalista

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