Cooperativas e governança

Cooperativismo está agregando valor à produção primária, via indústrias de transformação, em todos os setores

Roberto Rodrigues, Impresso

09 Julho 2017 | 05h00

No primeiro sábado de julho, o mundo todo celebra o Dia Internacional do Cooperativismo. Não é para menos: esse modelo de desenvolvimento econômico e social existe praticamente em todos os países, independentemente do regime político praticado. Com isso, os associados a qualquer tipo de cooperativa já somam mais de um bilhão de pessoas. Se cada um tiver três dependentes diretos, são quatro bilhões de seres (mais da metade dos terráqueos) ligados a esse movimento que começou na Inglaterra em meados do século 19 como consequência da Revolução Industrial, responsável por enorme exclusão social.

No Brasil, são cooperados cerca de 13,2 milhões de pessoas que, se também tiverem três dependentes cada um, vão somar 52,8 milhões, ou apenas 26% da população brasileira.

Embora porcentualmente bem menor que a representatividade no mundo, nosso cooperativismo vem crescendo bastante no setor rural, onde mais de 50% do valor da produção passa por cooperativas. E com duas características notáveis: a primeira tem a ver com o fato de que, na economia globalizada, a renda rural se faz na escala, visto que a margem por unidade de produto está muito estreita. Ora, o pequeno produtor, por definição, não tem escala individual, e só pode alcançá-la em cooperativas, somando sua produção com a de seus iguais. E a segunda é que as cooperativas estão agregando valor à produção primária, via indústrias de transformação, em todos os setores: leite, carnes, óleos vegetais, açúcar e álcool, café, frutas e alimentos pré-cozidos, acessando mercados os mais diversos.

Claro que a função essencial da cooperativa é melhorar a renda do associado, e faz isso levando a ele os insumos tecnicamente necessários a um preço que o pequeno jamais conseguiria sozinho, e vendendo melhor a produção, inclusive na exportação.

Mas não é só no agro que nosso cooperativismo vem aumentando. Temos 13 ramos diferentes, e um dos que mais avançam é o de crédito. São já dois sistemas fortes, o Sicredi e o Sicoob, aos quais se somam outros dois crescentes, o Unicredi e o Cresol (dos assentados e pequenos produtores). As cooperativas de crédito funcionam como pequenos bancos, com a vantagem que o seu mutuário é também seu dono, de modo que o resultado do ano é distribuído aos cooperados. E elas operam com clientes pequenos que muitas vezes não interessam aos bancos comerciais. Se todas as cooperativas de crédito estivessem ligadas a um único banco cooperativo (o que acontecerá um dia), este já seria o sexto do País em ativos, atrás apenas de Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander.

E há outros ramos, como o de saúde, onde estão Unimed e Uniodonto (entre outras), o de consumo, como a grande Coop do ABC, o de trabalho, os habitacionais, os de transporte e assim por diante. Não existe atividade em que as cooperativas não possam operar.

Mas hoje há um tema novo que vem “pegando” nelas, sem que o desejem: temos visto seguidas manifestações sobre a erosão da democracia como sistema de representação adequado. Há um crescimento do desejo, na sociedade moderna, de maior participação na governança nas empresas, nas comunidades, no Estado, e fazem isso via redes sociais, provocando mudanças radicais, como ocorreu na Primavera Árabe.

Ora, é sabido que o que diferencia uma nação desenvolvida de uma não desenvolvida é o grau de organização da sua sociedade. Quanto mais organizada, menos sujeita ela é à exploração política e à corrupção. E a cooperativa é o braço econômico da organização social. Nela, as pessoas aprendem a operar em conjunto na direção do interesse de todos. Governam seus destinos econômicos.

A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) é órgão consultivo do governo, de modo que deve assumir crescentemente a responsabilidade na busca de maior participação na governança nacional. E isso já vem acontecendo em função de uma eficiente Frente Parlamentar do Cooperativismo existente no Parlamento. Mas ainda há muito a fazer, especialmente para defender a democracia.

* EX-MINISTRO DA AGRICULTURA E COORDENADOR DO CENTRO DE AGRONEGÓCIO DA FGV

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