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Itawi Albuquerque|Futura Press

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Corte na Selic surpreende, mas analistas apostam em redução igual nas próximas reuniões

Analistas veem como justificável a postura mais agressiva do BC, porém destacam que reformas econômicas ainda não saíram do papel

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Álvaro Campos, André Ítalo Rocha, Eduardo Laguna ,
O Estado de S.Paulo

11 Janeiro 2017 | 20h41

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central surpreendeu ao anunciar um corte de 0,75 ponto porcentual (pp) na Selic, que caiu para 13,00%. A maioria dos analistas e também o mercado financeiro esperavam uma baixa mais agressiva que a do encontro anterior, mas com redução de 0,50 pp. Ainda assim, boa parte dos economistas ouvidos pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, não viu um exagero na decisão de hoje e agora aposta em novo corte de 0,75 pp em fevereiro.

Para o economista-chefe da Porto Seguro Investimentos, José Pena, o corte agressivo adotado pelo Copom é plenamente justificável do ponto de vista dos fundamentos econômicos. "Não vejo como seria possível atacar tecnicamente essa decisão". O economista-chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, também não critica a redução, mas ressalta que a comunicação do BC poderia ter sido um pouco melhor. "O BC deveria ter sinalizado melhor que poderia ser mais agressivo. Eu achava que eles iam cortar 0,50 pp hoje e abrir a aposta de 0,75 pp para a próxima reunião", conta.

O professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Rogério Mori concorda que "os indicadores sancionam uma redução de 0,75 pp" e acredita que o BC sinaliza estar empenhado em tentar reativar a economia, além de controlar a inflação. "A política monetária se tornou o único instrumento para isso, porque na política fiscal não há espaço para isso, já que o governo não pode gastar mais ou tributar menos", diz. "A retomada dos investimentos é chave para a recuperação da economia e a Selic é elemento crucial para os investimentos privados. O BC não pode estar totalmente alheio à situação do País. Os juros podem ficar mais baixos para recuperar a atividade desde que não interrompam o processo de desinflação", acrescenta o economista da 4E Consultoria Thiago Curado.

Entre as poucas vozes destoantes, o professor do Insper Otto Nogami diz que o corte agressivo traz preocupação sobre uma eventual influência política nos juros. "As condições da economia não permitiam um afrouxamento mais rápido. Essa decisão pode reverter a tendência de acomodação da inflação", comenta. "A redução brusca, por um BC que estava relutante em reduzir a Selic em 0,50 ponto, cheira mais a componente político do que técnico".

O economista-chefe da Gradual Investimentos, André Perfeito, aponta que as decisões do BC dependem da aprovação das reformas econômicas e "este processo é ainda para nós bastante incerto dada a complexidade política atual". "Eles podem estar certos (com esse corte mais ousado), mas esse é definitivamente um caminho mais arriscado", diz o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman.

O fato é que agora o BC parece calibrar as projeções para a reunião de fevereiro para novo corte de 0,75pp. "Ao se referir 'ao novo ciclo de flexibilização', ou seja, com um artigo definido, o BC deixa claro que a próximo corte deve ser de 0,75 pp. Quer dizer que eles vão fazer mais rápido, não necessariamente mais", comenta Pena. Ele ainda mantém sua projeção de que o atual ciclo vai levar a Selic para 10,5%, mas admite que o risco para a sua projeção é de baixa. "Uma taxa de juros de um dígito é uma possibilidade, não é ainda uma probabilidade. Porém, se houver uma surpresa positiva com a reforma da Previdência, por exemplo, isso começa a ficar mais provável", opina. "A continuidade deste ritmo ou a redução para um passo mais lento dependerá da evolução do cenário prospectivo, mas as chances de a taxa Selic atingir novamente o nível de um dígito ainda este ano aumentaram bastante", dizem os analistas do Haitong em relatório.

O Santander espera mais três cortes de 0,75 pp, segundo a economista Tatiana Pinheiro. O banco mantém a previsão de Selic em 9,75% no fim deste ano e de 8,5% em 2018. Para a analista, a taxa real de juros, descontando a inflação projetada, segue acima da chamada taxa neutra: de 5,5%, no cálculo mais pessimista, ou de 3% a 4% nas contas mais otimistas. "A situação ainda é apertada no ponto de vista monetário", afirma. 

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