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Credor quer barrar crédito da China para obras na Argentina

Ariel Palacios, Correspondente - O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2014 | 02h 04

NML solicitou aplicação da norma de 'discovery' para detectar bens argentinos incluídos nos US$ 6,8 bi de operações de banco chinês

BUENOS AIRES  - O fundo hedge NML, que exige ao governo Kirchner nos tribunais americanos o pagamento de US$ 1,3 bilhão referentes aos títulos argentinos que possui em estado de calote, pretende embargar créditos da China para obras públicas na Argentina. O NML, comandando pelo financista Paul Singer, solicitou a aplicação da norma de "discovery" para detectar bens da Argentina incluídos nos US$ 6,8 bilhões de operações financeiras que o Bank of China implementará com o governo Kirchner.

O fundo hedge pediu informações a essa entidade financeira sobre os contratos de financiamento feitos entre a China e a Argentina para a construção das represas hidrelétricas "Jorge Cepernic" e "Néstor Kirchner" na província de Santa Cruz, além de obras e modernização do equipamento na linha ferroviária Belgrano Cargas. O NML também solicitou informações sobre o swap cambial assinado entre a China e o Banco Central argentino há um mês. Os analistas indicam que o processo de investigação promete ser prolongado. Mas, sustentam, esse é um sinal da determinação do fundo hedge de obter o pagamento integral dos títulos da dívida pela Argentina.

O NML está fazendo uma manobra de atacar o governo Kirchner por vários flancos. Além do pedido de embargo ao juiz federal de Manhattan, Thomas Griesa, o fundo hedge obteve no dia 12 de agosto do juiz Cam Ferenbach a autorização para proceder com ações na Justiça dos Estados Unidos para pedir o embargo de dinheiro do empresário argentino Lázaro Báez.

O empresário, amigo do casal Kirchner e seu ex-sócio em empreendimentos imobiliários na Patagônia, é investigado na Argentina pela suposta lavagem de 65 milhões. Segundo os partidos da oposição, Báez foi testa de ferro de supostas negociatas realizadas pelos Kirchners.

"Não há dúvidas de que Báez desfalcou fundos da Argentina. E uma pessoa que desvia dinheiro, ou um ladrão, não adquire propriedade sobre aquilo que rouba", argumentou o juiz Ferenbach, abrindo a possibilidade do embargo. O NML sustenta que, por meio das investigações sobre as contas de Báez também poderiam descobrir contas não declaradas da presidente Cristina.

Proposta. O chanceler Héctor Timerman e o ministro da Economia, Axel Kicillof, anunciaram ontem que o governo argentino proporá na ONU a implementação de uma convenção multilateral para "dar marco jurídico aos processos de renegociação das dívidas soberanas".

Segundo os ministros, essa seria a forma adequada de dar sustentabilidade ao sistema financeiro internacional e permitir o crescimento dos países endividados.

"Caso a maioria dos países vote de forma afirmativa, em menos de um ano a Argentina terá dado ao mundo uma convenção para resolver em forma justa e não sob ameaças de um sistema que pode ser estabelecido por um juiz ou um país, mas sim em base ao que os Estados membros da ONU decidam", disse Timerman.

Segundo o ministro Kicillof, o confronto da Argentina com os "fundos abutres" é um "leading case" no sistema financeiro e judiciário internacional.