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Cresce procura de grupos estrangeiros por empresas brasileiras do agronegócio

Valorização do dólar, que chega a quase 60% em um ano, é principal motivador

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Clarice Couto,
O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 19h45

O maior interesse em investir no agronegócio no Brasil fez crescer a procura por escritórios de advocacia. Esse movimento tem sido especialmente observado entre investidores estrangeiros, interessados em operações de fusão ou aquisição de empresas brasileiras, sobretudo no segmento de fertilizantes. "O agronegócio é um dos poucos setores que nos últimos anos efetivamente tem dado muito certo no Brasil. Tem havido maior procura sim", disse ao Broadcast Agro, serviço de informações da Agência Estado, Alexei Bonamim, sócio na área de mercados de capitais da Tozzini Freire Advogados. Nos últimos oito meses, o escritório vem assessorando cerca de 15 empresas e fundos de investimento que buscam companhias de todo o setor para operações de fusão e aquisição. A procura, de acordo com Bonamim, foi significativamente maior neste período que no ano anterior.

Os escritórios Pinheiro Neto Advogados e Mattos Filho têm a mesma percepção. O primeiro trabalha neste momento com duas operações envolvendo misturadoras de fertilizantes e grupos estrangeiros. Já o sócio do Mattos Filho, Pedro Whitaker de Souza Dias, disse que o escritório recebeu, entre julho do ano passado e a primeira quinzena de 2016, um número maior de demandas tanto de empresas de fora do País interessadas em comprar como de brasileiras propensas a vender ou se unir a outras. O maior interesse dos estrangeiros, segundo Dias, tem sido por unidades de fertilizantes.

"Somos procurados pelos dois lados. Tem sido comum nos depararmos com nomes de empresas totalmente desconhecidas de fronteiras agrícolas, tanto produtoras como distribuidoras de adubo, com uma atratividade grande", afirmou Dias. Caso transações em curso no escritório avancem, devem ser finalizadas ainda no primeiro semestre deste ano, estimou o sócio da Mattos Filho.

Uma das principais razões para o maior apetite de grupos e fundos estrangeiros por empresas do agronegócio é a firme valorização do dólar ante o real no último ano (59,9% até hoje). Apenas em janeiro, a moeda norte-americana acumula alta de 5% ante a brasileira. Neste cenário, ativos brasileiros do agronegócio, cotados em real, se tornaram bem mais baratos para os estrangeiros, que pagam em dólar. Além disso, o agronegócio já era visto como oportunidade mesmo quando o real não estava tão desvalorizado.

Em contrapartida, o enfraquecimento de alguns pilares econômicos do País, dentre os quais a moeda real, os juros mais altos e o aumento da inflação acabam por atingir algumas empresas do setor mais endividadas e que, no ano passado, encontraram dificuldades para acessar crédito nos bancos, lembrou Bonamim. O sócio da área empresarial da Pinheiro Neto Advogados, Fernando Meira, considera ainda que algumas delas, como revendas e distribuidoras de insumos, viram seus débitos atrelados ao dólar aumentarem junto com a valorização da moeda.

Quem está vindo às compras não são os investidores tradicionais, segundo as fontes ouvidas. "Muitos clientes acreditam que não é o momento de investir no Brasil. Os americanos não estão vindo. Quem tem manifestado interesse em colocar recursos aqui são os europeus, dentre eles os russos, e os chineses. Eles sabem que o Brasil é um mercado de altos e baixos, mas acreditam no seu potencial de longo prazo", afirmou Meira. Os russos, complementou, estão entre os interessados em uma das operações do escritório envolvendo misturadoras de fertilizantes brasileiras.

Bonamim, da TozziniFreire, conta que das 15 operações sob assessoria do escritório, a maioria ainda não foi concluída. Elas contemplam revendas de insumos, projetos de armazenamento em terminais portuários, plantas de beneficiamento de produtos agrícolas, dentre outros negócios. Se concretizadas, somarão investimentos da ordem de R$ 6 bilhões.

"Algumas devem ser fechadas ainda no primeiro trimestre", estimou Bonamim. Para ele, a procura de estrangeiros por ativos brasileiros do agronegócio só deve aumentar. "As duas principais variáveis de estímulo deste cenário são os ativos baratos (devido à depreciação do real ante o dólar) e as empresas brasileiras que precisam de dinheiro. Não vejo nenhuma delas se alterando ao longo de 2016", complementou o advogado.

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