Cripto-ouro de tolos?

Sucesso da moeda virtual depende de reações de governos em relação a como regular transações

Kenneth Rogoff*, O Estado de S. Paulo

23 Outubro 2017 | 05h00

Será que a moeda virtual bitcoin é a maior bolha do mundo hoje em dia, ou uma grande aposta de investimento na vanguarda da tecnologia financeira da nova era? O meu melhor palpite é que, a longo prazo, a tecnologia vai prosperar, mas o preço do bitcoin vai despencar.

Se você não tem acompanhado a história do bitcoin, seu preço teve alta de 600% nos últimos 12 meses e de 1.600% nos últimos 24 meses. Custando mais de US$ 4,2 mil (em 5 de outubro), uma única unidade da moeda virtual vale agora mais do que três vezes uma onça de ouro. Alguns dos pregadores da moeda virtual bitcoin veem a moeda subindo ainda mais nos próximos anos.

O que acontecerá de agora em diante depende muito das reações dos governos. Será que eles vão tolerar sistemas anônimos de pagamento que facilitam a evasão fiscal e o crime? Criarão suas próprias moedas digitais? Outra importante questão é com que sucesso os inúmeros concorrentes “alt-coin” (alternativas reais de moedas digitais) de bitcoin podem penetrar no mercado.

Em princípio, a tecnologia bitcoin é extremamente fácil de clonar ou melhorar. O que não é tão fácil é duplicar a liderança estabelecida pelo bitcoin em credibilidade e o amplo ecossistema de aplicações que cresceram em torno dele.

Por enquanto, o ambiente de regulamentação continua a ser um vale-tudo. O governo da China, preocupado com o uso de bitcoin na fuga de capitais e evasão fiscal, recentemente proibiu o câmbio da moeda virtual. O Japão, de sua parte, consagrou bitcoin como uma cotação legal de preços, em aparente tentativa de se tornar o centro global de inovações tecnológicas voltadas para o mercado financeiro, com as fintechs.

Os Estados Unidos tentam adotar medidas provisórias para acompanhar o Japão na regulamentação de fintechs, embora o final do jogo esteja longe de ser claro. Mas o mais importante é que o bitcoin não precisa ganhar todas as batalhas para justificar um preço extremamente elevado. O Japão, a terceira maior economia do mundo, tem um coeficiente moeda/renda extraordinariamente alto (cerca de 20%), portanto o sucesso de bitcoin é um importante triunfo.

Contratos. No Vale do Silício, embasbacados executivos estão tanto investindo em bitcoin como despejando dinheiro em concorrentes. Depois de bitcoin, a mais importante é ethereum. A ambição da ethereum é permitir que seus usuários empreguem a mesma tecnologia que está por trás da moeda, a blockchain, para negociar e redigir “contratos inteligentes” para quase tudo.

No início de outubro, o valor de mercado da ethereum ficou em US$ 28 bilhões, ante US$ 72 bilhões para o bitcoin. Ripple, uma plataforma defendida pelo setor bancário para reduzir os custos de transação em transferências de um banco para outro e transferências para o exterior, vem num distante terceiro lugar, com US$ 9 bilhões. Abaixo dos três principais há dezenas de competidores novatos.

A maior parte dos especialistas concorda que a engenhosa tecnologia por trás das moedas virtuais pode ter amplas aplicações para a segurança cibernética, que hoje apresenta um dos maiores desafios à estabilidade do sistema financeiro global. Para muitos desenvolvedores, a meta de se chegar a um mecanismo de pagamentos mais barato e mais seguro é superior à ambição do bitcoin de substituir os dólares.

Mas é insensato achar que o bitcoin chegará a ter a permissão de suplantar a quantidade de dinheiro emitido pelos Bancos Centrais. Uma coisa seria a existência de governos permitindo pequenas transações anônimas com moedas virtuais; na verdade, isso seria até desejável. Mas trata-se de uma questão inteiramente diferente para os governos, pois permitir pagamentos anônimos em larga escala dificultaria de forma extrema a cobrança de impostos ou o combate à atividades criminosas. Claro, como alerto no meu recente livro sobre moedas antigas, atuais e futuras, os governos que emitem letras de alta denominação também correm risco de ajudar a evasão fiscal e o crime. Mas o dinheiro pelo menos tem volume, ao contrário da moeda virtual.

Será interessante observar como evolui a experiência japonesa. O governo indicou que forçará as bolsas de bitcoin a estarem atentas a atividades criminosas e a coletar informações sobre depositantes. Ainda assim, pode-se ter certeza de que os sonegadores fiscais globais encontrarão meios de adquirir o bitcoin anonimamente no exterior e, em seguida, lavar seu dinheiro por meio de contas japonesas.

O transporte de papel-moeda para dentro e para fora de um país tem um custo importante para sonegadores e criminosos. Ao adotar moedas virtuais, o Japão corre o risco de tornar-se um paraíso fiscal semelhante à Suíça – com as leis de sigilo bancário embutidas na tecnologia.

Caso a moeda bitcoin perdesse seu quase anonimato, seria difícil justificar o preço atual. Talvez os especuladores de bitcoin estejam apostando que sempre haverá um consórcio de países desgarrados que permitam o uso anônimo de bitcoin, ou mesmo nações, como a Coreia do Norte, que o explorarão.

Será que o preço do bitcoin cairia para zero se os governos pudessem observar perfeitamente as transações? Talvez não. Mesmo que as transações em bitcoin exijam uma quantidade exorbitante de eletricidade, com algumas melhorias, uma bitcoin ainda pode vencer as taxas de 2% cobradas pelos grandes bancos em cartões de crédito e débito.

Finalmente, é difícil ver o que iria impedir os Bancos Centrais de criar suas próprias moedas digitais e usar a regulamentação para fazer pender o espaço de manobra, até vencerem. A longa história da moeda nos mostra que o que as empresas inova, o estado acaba regulamentando e se apropria. Não tenho ideia de onde estará o preço da bitcoin nos próximos dois anos, mas não há motivos para esperar que uma moeda virtual evite um destino semelhante.

*KENNETH ROGOFF, EX-ECONOMISTA CHEFE DO FMI, É PROFESSOR DE ECONOMIA E POLÍTICAS PÚBLICAS NA UNIVERSIDADE HARVARD

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