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Crise cria cidade fantasma na Espanha

Fernando Nakagawa - O Estado de S.Paulo

12 Junho 2011 | 00h 00

Construída para receber 30 mil pessoas, Valdeluz tem apenas 726 moradores e virou símbolo do estouro da bolha imobiliária

ESPECIAL PARA O ESTADO

Ruas desertas, prédios vazios, poucos carros e muitas placas de "vende-se" ou "aluga-se". Essa é Ciudad Valdeluz, a 70 quilômetros de Madri. Planejada para ser o lar de 30 mil pessoas, o distrito tem exatos 726 habitantes contados no mais recente levantamento oficial. Conhecida como "Cidade Fantasma", Valdeluz é o principal símbolo do estouro da bolha imobiliária espanhola.

Caminhar por Valdeluz é uma experiência um tanto esquisita. Em uma cidade com quase 100 quarteirões devidamente arborizados, pouco mais de 15 têm algum tipo de construção. Na área habitada, existem alguns condomínios com casas e vários edifícios de até sete andares, em uma rara mistura que lembra o urbanismo do centro de Alphaville, na Grande São Paulo, com a arquitetura da Riviera de São Lourenço, no litoral norte paulista.

Uma larga avenida de quatro faixas e 1,5 quilômetro de extensão corta Valdeluz. Ao lado, há um parque com lago, fontes, esculturas abstratas e playgrounds. Nas redondezas funcionam dois bares, uma loja de roupas, uma papelaria e uma imobiliária.

Improvisada, a igreja fica em um espaço que deveria abrigar uma loja. Prometida para 2008, a farmácia ainda não saiu do papel. A uns 500 metros desse "centro", o supermercado fica, estranhamente, no meio de vários quarteirões vazios.

O posto de saúde funciona apenas duas horas por dia. Não há açougue, cabeleireiro, posto de gasolina nem delegacia.

No fim de semana passado, após uma rápida chuva, o sol apareceu entre nuvens e a temperatura subiu até 23 graus. Mesmo assim, poucos estavam na rua. Não há números oficiais, mas moradores estimam que a ocupação dos mais de 1.500 apartamentos prontos não chega a 20%. Alguns prédios já se aproximam do terceiro aniversário e continuam completamente vazios.

"Não há muita vida social. Vemos muita TV e saímos para passear com os cachorros. À noite, como não acontece nada, escutamos perfeitamente o trem-bala que passa a alguns quilômetros daqui", diz o bombeiro Jose Luiz Gonzales, 28 anos, que mora há quase dois anos em Valdeluz e trabalha em uma cidade vizinha.

Gonzales foi para a cidade fantasma para cortar gastos. Já com a crise econômica em pleno curso, deixou o apartamento de dois quartos e 65 metros quadrados em Alcalá de Henares, vizinha a Madrid, onde pagava aluguel de 650 (R$ 1.500) em busca de algo mais barato.

Encontrou em Valdeluz: um dúplex com mais de 250 metros quadrados pela bagatela de 450 (R$ 1.000). É uma casa três vezes maior com um preço um terço menor.

O apartamento grande e moderno, porém, não foi suficiente para convencer a namorada Alejandra Fernandez, 21. Ela vive e estuda em Madri e não pensa em mudar. Sem carro, precisaria pagar todos os dias 38 (R$ 87) para ir e voltar de trem-bala, que chega em 31 minutos ao centro de Madri.

"Impossível. O gasto de um dia é quase o que pago em um mês em transporte público". Na capital espanhola, o passe mensal para viagens ilimitadas em ônibus e metrô custa 48 (R$ 110).

Nova cidade. O transporte que hoje causa reclamação foi a principal razão para a criação da nova cidade. No fim da década de 1990, a Espanha vivia uma bonança econômica nunca vista. Com bilhões em investimentos da União Europeia e mudanças nas leis do solo e trabalho, o setor imobiliário vivia tempos de ouro.

Nessa época, o empresário Rafael Santamaría teve uma ideia: aproveitar a construção do trem-bala para criar e vender uma nova cidade. O local foi cuidadosamente escolhido: uma área de 450 hectares ao lado da primeira parada da viagem de Madri a Barcelona. Lá, a empresa de Santamaría, a incorporadora Reyal Urbis, tinha um plano audacioso: investir 1,1 bilhão (R$ 2,6 bilhões) para construir uma opção para a classe média alta madrilenha que, com mais dinheiro naquela época, poderia morar em uma cidade verde e planejada sem perder o agito de Madri, que está a meia hora no trem rápido.

Quando começaram os primeiros estudos para Valdeluz, no começo da década de 2000, o metro quadrado dos imóveis negociados em Madri rondava 2 mil, na média. Mas, com o otimismo e a expectativa de contínua valorização, o preço passou a subir rapidamente.

Nem o baque do 11 de setembro de 2001 foi capaz de mudar o ritmo e, segundo levantamento da Foro Consultores, o metro quadrado tocou 3 mil em 2002 e passou dos 4 mil no ano seguinte. Os números foram mais que suficientes para que Santamaría convencesse os primeiros compradores a investir no projeto. E, assim, os primeiros prédios de Ciudad Valdeluz começaram a subir em 2004.

Poucos meses depois, porém, a situação mudou. Com a inflação em alta na maioria dos países da região, o Banco Central Europeu começou um gradual processo de aumento do juro no fim de 2005. A notícia gerou alertas de alguns economistas sobre uma eventual bolha, mas o setor imobiliário espanhol fez troça com as preocupações.

Umas das frases mais repetidas pelos corretores na época era "o preço dos imóveis nunca cai". Foi assim que, em 2005, a Espanha construiu mais imóveis que a Alemanha, França e Itália juntos.

Desvalorização. Construtores não deram bola, mas o gradual aperto no juro começou a estourar a bolha em seguida, em meados de 2007: com taxa mais alta, famílias passam a comprometer parcela maior do salário para o financiamento do imóvel e, por isso, muitos não conseguiram manter os pagamentos em dia.

Assim, bancos começaram a retomar os apartamentos para tentar vender e recuperar o dinheiro. Mas, com a economia em desaceleração e o aumento do desemprego, compradores sumiram e os preços despencaram. A situação foi ainda piorada em 2008 com a crise financeira vinda dos Estados Unidos.

Ciudad Valdeluz sofreu com tudo isso: antes do estouro da bolha, alguns apartamentos do prédio do bombeiro Jose Luiz Gonzales foram vendidos por até 450 mil. Hoje, valem 250 mil e, mesmo assim, não há interessados. Sorte dos dois cachorros de Gonzales e Alejandra que, sem vizinhos por perto, podem continuar latindo à vontade.

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