Da prata à sequência de dados, a moeda está em mutação

Quando as autoridades passarem a controlar as transações com criptomoedas, a demanda deverá cair e, com ela, as cotações

Celso Ming, Impresso

30 Dezembro 2017 | 18h05

O conceito de moeda está em mutação. Já não é um pedaço de metal que leva a efígie do imperador ou do maioral local. Nem mesmo pode-se dizer que seja algo físico, porque o total do papel moeda e das moedas propriamente ditas em circulação hoje corresponde a apenas uma fração do que são os meios de pagamento de um país. O volume maior do dinheiro que gira no mercado não passa de expressão contábil.

Qualquer manual de Economia Política explica que são três as principais funções da moeda. Ela é meio de pagamento, ou seja, serve para comprar e faturar com mercadorias e serviços; é reserva de valor, pois aplicada ou guardada em cofre faz parte de um patrimônio pessoal ou familiar; e é medida de valor. Se alguém diz que um apartamento vale R$ 500 mil, está medindo em reais o preço de mercado do imóvel.

Um bitcoin ou outra criptomoeda não funciona assim. É apenas parcialmente meio de pagamento, porque não se pode pagar qualquer coisa com bitcoins. Serve de reserva de valor, na medida em que os proprietários ganharam muito dinheiro. Mas, diante da enorme volatilidade do seu preço em outras moedas, também essa função ficou prejudicada, bem como a função de medida de valor. Ninguém vai à imobiliária e diz que o apartamento vale 10 mil bitcoins.

Mas isso não significa que bitcoins e as 1,3 mil que vieram atrás deles não operem no mercado como moedas. O que se pode dizer é que tais novidades estão, de alguma maneira, mudando o conceito tradicional de moeda.

Mais duas observações. Parte da grande procura e da valorização aconteceu porque, pelo anonimato que prometem, passaram a ser procuradas por gente metida em lavagem de dinheiro, narcotráfico e atividades ilícitas. Quando as autoridades passarem a controlar as transações com criptomoedas, a demanda deverá cair e, com ela, as cotações.

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E, também, para que seja confiável, a moeda não precisa ser garantida pelo governo ou banco central. Muitas contaram ou contam com esse guarda-chuva e, no entanto, viraram ou estão virando pó. Assim foi com o marco alemão da República de Weimar; com o cruzeiro e outras moedas do Brasil sacramentadas por lei e pelo Banco Central; e com o atual peso venezuelano. Ou seja, em muitos casos, governos não garantiram ou não garantem grande coisa.

Várias moedas foram emitidas por bancos comuns ou até mesmo por autoridades locais e tiveram boa aceitação. O papel moeda nasceu como recibo de depósitos bancários. O dólar, por sua vez, nasceu em 1519, num vilarejo Jáchymov, na antiga Boêmia, onde havia uma mina de prata. Lá foram cunhadas moedas nomeadas de Joachimsthalergulden, cuja tradução livre do alemão é dourado do vale do Joaquim. O palavrão foi abreviado para thaler (vale) e, depois, täler. Teve ampla circulação na Europa – e fora dela – e na Inglaterra ganhou o nome de dollar.

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