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De lucros e profecias

- Atualizado: 11 Fevereiro 2016 | 05h 00

Os voos altos da Alphabet, a holding do Google, que revelou o quanto a empresa investe em seus projetos visionários

No jogo de críquete, uma “googly” é uma bola lançada com tanto efeito que é difícil determinar sua trajetória. Por vários anos, o desempenho do Google, que divulgava apenas dados básicos sobre seus negócios, era igualmente inescrutável. A Alphabet, sua recém-constituída holding, apresenta trajetória ligeiramente mais bem definida: no comunicado que divulgou na semana passada, informando seus resultados financeiros, a companhia revelou pela primeira vez quanto investe em projetos visionários, como carros autônomos, internet ultrarrápida e exploração espacial. Em 2015, a holding perdeu cerca de US$ 3,6 bilhões com essas iniciativas ousadas — uma quantia vultosa, mas não tão elevada quanto receavam alguns analistas. Já o Google, principal empresa do grupo, conseguiu aumentar faturamento e lucros.

Em vista disso, as ações da Alphabet tiveram forte alta, levando-a a superar a Apple, ainda que só por um breve instante, na condição de empresa de capital aberto de maior valor de mercado do mundo. Atualmente a holding do Google é uma empresa que, vivendo à base de anúncios publicitários, tem potencial para se transformar em gigante também em outros segmentos — muito embora não esteja claro exatamente que segmentos serão esses.

Sergey Brin (D), do Google, com os balões do ‘Project Loon’
Sergey Brin (D), do Google, com os balões do ‘Project Loon’
No ano passado, a companhia obteve quase a totalidade de seu faturamento de US$ 75 bilhões com anúncios publicitários. A maior parte dessa receita foi gerada pelo mecanismo de buscas do Google, que exibe, entre seus resultados, anúncios de produtos relacionados com as coisas que as pessoas procuram online. A empresa detém cerca de 70% do mercado global de buscas.

O Google vem lucrando muito por ter antecipado duas tendências importantes: a ascensão dos telefones celulares e dos vídeos online. São sete produtos que sustentam ter um bilhão ou mais de usuários cada, incluindo o mecanismo de buscas, o serviço de mapas, o Gmail, o YouTube, a loja de aplicativos, filmes, música e livros Google Play, o sistema operacional Android e o navegador Chrome. É mais do que qualquer outra empresa de internet.

E quanto mais tempo as pessoas passam usando os serviços do Google, mais a empresa aprende sobre elas e maior é o número de anúncios que são veiculados por seu intermédio. Para outras companhias, a fórmula não tem dado tão certo. Na terça-feira da semana passada, o Yahoo anunciou que irá cortar 15% de sua folha de pagamentos e deu a entender que cogita vender seu negócio de internet, o que deve deixar sem emprego a presidente e CEO da empresa, Marissa Mayer.

Por ora, Alphabet pode aplicar em projetos sonhadores; analistas não parecem muito preocupados com isso
Os fãs da Alphabet acreditam que a companhia acumulará um sucesso atrás do outro. A holding começa a parecer um conglomerado, com interesses nos mais variados setores, do segmento automobilístico às áreas de saúde, finanças e exploração espacial, sempre com o objetivo de identificar qual será o próximo grande “hit” da nova economia. A maioria dos projetos que a Alphabet desenvolve fora do segmento de anúncios publicitários não dá lucro, mas alguns deles começam a apresentar sinais promissores.

Em 2015, as receitas geradas com esses projetos somaram cerca de US$ 450 milhões. Apesar de a Alphabet não revelar a origem de tal faturamento, é provável que ele se concentre no Google Fibre, uma empresa de internet ultrarrápida com atuação em diversas cidades americanas, e no Nest, uma fabricante de dispositivos domésticos inteligentes que o Google comprou em 2014, por US$ 3,2 bilhões.

O fato, porém, é que a maioria dos investimentos da Alphabet deve levar anos para se pagar — e é quase certo que alguns deles nunca se pagarão. Como acontece com os balões de alta altitude usados pela Alphabet no Project Loon, uma iniciativa que tem como objetivo conectar as áreas mais afastadas e remotas do mundo à internet, no horizonte dos projetos mirabolantes da holding do Google descortinam-se duas possibilidades: ou voar alto, ou se esborrachar no chão.

Tolerância. Por ora, a Alphabet pode aplicar à vontade recursos em projetos sonhadores. Investidores e analistas não parecem demasiadamente preocupados com os investimentos da companhia. No ano passado, a holding destinou a estonteante quantia de US$ 5,2 bilhões à remuneração de funcionários com base em ações, além de ter expandido em 15% sua folha de pagamentos, que chegou a 62 mil funcionários.

Mark Mahaney, analista do banco de investimentos RBC Capital, acha que muitas empresas de internet, como AOL e Yahoo, perderam o embalo inicial por não terem aproveitado o momento em que as coisas iam de vento em popa para investir em projetos que reforçassem seus negócios. Por isso, não se incomoda que a Alphabet realize investimentos pensando no futuro. É uma atitude de tolerância que se costuma observar quando tudo vai bem, mas que pode evaporar de uma hora para a outra.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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