De Minas ao Rio, por baixo da terra

Mineroduto com mais de 500 km de extensão vai levar minério de ferro direto da mina ao porto e reduzir custo de transporte

Cley Scholz,Marcelo Portela, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2014 | 12h56

 

SÃO PAULO - Com 525 quilômetros de extensão, o mineroduto do Projeto Minas-Rio será o maior do mundo quando estiver pronto. Em 2015, deve operar com capacidade de 11 milhões de toneladas por ano, devendo atingir a capacidade total, de 26,5 milhões de toneladas, após 18 a 20 meses de operação.

O projeto estabelece uma ligação por tubos ao longo de 32 municípios de Minas Gerais e Rio de Janeiro. São cerca de 44 mil tubos com 24 ou 26 polegadas – aproximadamente 60 a 66 centímetros de diâmetro – , quase todos enterrados. Há ainda 11 túneis e furos direcionais para desviar de, por exemplo, sítios arqueológicos.

O minério de ferro das montanhas de Alvorada de Minas vai chegar ao terminal do Porto do Açu, em São João da Barra, no Rio de Janeiro, em 85 horas e 14 minutos. O sistema de transporte por dutos é a alternativa mais barata e segura para levar o minério ao porto a preços competitivos.

O Brasil tem outros minerodutos em funcionamento. A Samarco usa dois e está construindo um terceiro com 400 km de extensão, atravessando 25 municípios mineiros e capixabas para transportar 20 milhões de toneladas anuais. O minério será exportado pelo grupo anglo-sul-africano para a China e Oriente Médio a um custo de US$ 35 a tonelada.

O Minas-Rio está sendo construído com investimentos da Anglo American, uma das maiores mineradoras do mundo, em parceria com a Prumo Logística Global, antiga LLX, controlada desde outubro de 2013, pela americana EIG Global Energy Partners.

A Anglo American destaca a importância do sistema em termos ambientais, por substituir caminhões ou trens. A empresa já obteve licença de operação do porto e aguarda para o terceiro trimestre as licenças da mina, da planta de beneficiamento e do mineroduto.

Funcionamento. O minério é transportado por um sistema de bombas de pistão de alta pressão. Principal projeto mundial da Anglo American, o Minas-Rio começou em 2007, com a compra de uma reserva da MMX, do empresário Eike Batista. Do investimento total de US$ 8,8 bilhões, já foram feitos aportes de R$ 6,6 bilhões e mais US$ 1 bilhão será gasto ainda este ano. O restante será investido em 2015, para a conclusão de obras no terminal de minério de ferro do porto e aquisição de equipamentos.

A mina a céu aberto explora reservas de 1,5 bilhão de toneladas. A tubulação, fornecida pela Techint, foi fabricada no Japão e na Argentina. Em junho, o presidente global da Anglo American, Mark Cutifani, testemunhou a última das 288 mil soldas para conectar os tubos. Eles vão permitir à sexta maior mineradora do mundo adicionar entre US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão a mais por ano ao seu caixa, a partir de 2016, quando alcançar a capacidade total de transporte.

Com melhorias operacionais, a capacidade de produção da mina poderia chegar a 30 milhões de toneladas/ano. Para instalar a tubulação, estão sendo escavados 24 milhões de metros cúbicos de terra. A Camargo Corrêa iniciou a obra em abril de 2008, com previsão de conclusão em 2012, mas o cronograma atrasou. A obra atravessa rios e montanhas, as vezes através de túneis. O maior deles, no município de Sem Peixe (MG), tem 1.200 metros de extensão.

A tubulação é enterrada a pelo menos 76 centímetros de profundidade. Entre os críticos da obra está o engenheiro ambiental Eduardo Barcelos, da Associação dos Geógrafos Brasileiros. Ele questiona a forma de licenciamento por três diferentes órgãos públicos, sem considerar o conjunto. A mina, pelo órgão ambiental estadual de Minas (Supram), o mineroduto pelo Ibama, que é federal e o porto pelo órgão estadual carioca.

Denúncias no Ministério Público, remoção de famílias, gastos judiciais, imprevistos geológicos e arqueológicos e demora na obtenção de licenças ambientais causaram sucessivos adiamentos. Em 2012, o maior deles provocou baixa contábil de US$ 4 bilhões, o que teria causado o afastamento da presidente global da companhia, Cynthia Carroll.

 

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