Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Debate eleitoral inclui privatização e tamanho do Estado

Na avaliação de economistas, crise econômica obrigará candidatos a tratar de temas que foram ‘interditados’ em outras eleições

Renata Agostini, Douglas Gravas e Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Ciro Gomes aposta em juros baixos e estatais fortes. Geraldo Alckmin quer ser o candidato da responsabilidade fiscal. João Doria bate na tecla das privatizações. Marina Silva fala em ajustes, mas acha o receituário de Michel Temer excessivo. Lula fala em crédito farto para incentivar o consumo. Jair Bolsonaro defende um Estado menor.

Os nomes mais fortes hoje na corrida ao Planalto testam discursos para o combate à crise, prevendo encontrar um eleitorado afoito por soluções que levem à volta do crescimento.

Ciro Gomes, por exemplo, indica já ter uma posição bem definida e tem girado universidades do País para apresentá-la. O ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda, que pretende se lançar pelo PDT, se diz adepto do novo desenvolvimentismo. Defende redução dos juros para conter a dívida pública, incentivos às empresas nacionais e adota defesa do Estado forte, ao falar na retomada de campos de petróleo leiloados e reversão de eventual venda da Eletrobrás.

Ele mantém o ex-ministro e filósofo Mangabeira Unger como um de seus principais colaboradores. Recentemente, indicou apoio ao manifesto do economista Luiz Carlos Bresser-Pereira que, entre outras coisas, condena as privatizações.

Já Marina Silva tenta se equilibrar na defesa do controle de gastos públicos e na manutenção de estatais como a Petrobrás. Segue tendo no economista Eduardo Giannetti da Fonseca um de seus principais colaboradores.

Liderando pesquisas de intenção de voto, Lula tem levantado bandeiras como o uso de reservas internacionais do País para investimentos em infraestrutura e a realização de um referendo para revogar medidas de Temer, como a limitação para gastos do governo e a reforma trabalhista. O discurso, por ora, segundo admitem aliados, é mais uma peça política para mobilizar a base eleitoral do petista do que uma proposta real de política econômica.

Ele tem se aconselhado com economistas da Unicamp, como Luís Gonzaga Belluzzo e Ricardo Carneiro, e antigos parceiros do governo PT, como os ex-ministros Guido Mantega, Nelson Barbosa e Aloizio Mercadante. As conversas, sob coordenação de Márcio Pochmann, ocorrem de forma regular desde o ano passado, mas não têm objetivo de formar um programa econômico, diz Belluzzo. 

Segundo aliados de Lula, o plano para a economia deve ser o último a ser formatado. O ex-presidente quer esperar os resultados do governo Temer e elaborar propostas em cima da “herança” do peemedebista, a depender dos resultados. O PT não quer repetir o erro de 1994, quando foi contra o Plano Real, diz um interlocutor de Lula.

Por ora, está descartada uma nova Carta ao Povo Brasileiro. Segundo Gilberto Carvalho, ex-ministro da secretaria-geral da Presidência, os governos Lula deram provas suficientes de compromisso com a responsabilidade fiscal.

Ambiente renovado. Economistas de visão social-democrata e liberal apostam, porém, que a crise desgastou essa visão de País. “Antes, estávamos na subida da maré petista, com resultados do Estado grande e empresário. Agora, estamos vivendo a maior crise da história”, afirma Samuel Pessôa, do Ibre-FGV. 

Presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica no primeiro mandato de Lula, Marcos Lisboa acredita que o debate eleitoral em 2018 estará aberto a temas antes interditados, como as privatizações e a redução do Estado.

“Há um reconhecimento do imenso fracasso nos últimos anos. A sociedade está mais aberta a políticas que enfatizem disciplina fiscal, focar em poucas áreas, como saúde e segurança. Ganha força na sociedade a abordagem que é mais próxima dos países da Europa Ocidental do que a da tradição do nacional-desenvolvimentismo do segundo governo Lula”, diz. 

É nesse ambiente que pretendem surfar Alckmin, Doria, mas também candidatos neófitos como Jair Bolsonaro e João Amoedo, do Novo, sigla que defende o Estado mínimo. 

Emissários de Bolsonaro sondaram ao menos dois economistas de renome nos últimos meses, consultando-os sobre o interesse em se tornarem guru do ex-militar, segundo relatos dos abordados, que pediram reserva.

Lula, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro não quiseram dar entrevista sobre seus pensamentos econômicos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Pré-candidatos buscam agenda anticrise para disputa presidencial do ano que vem

Presidenciáveis tentam atrair economistas para construir um discurso econômico e pavimentar a caminhada para o Palácio do Planalto numa disputa que deve ser acirrada e realizada no momento em que o País começa a deixar para trás quase três anos de recessão

Renata Agostini, Douglas Gavras e Ricardo Galhardo, O Estado de São Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Políticos que pretendem se lançar na corrida presidencial de 2018 começam a moldar seu discurso econômico e tentam atrair economistas de peso para dar consistência aos seus projetos eleitorais. O tema, em geral inescapável ao debate, deve predominar no próximo pleito, que ocorrerá com o País ainda tentando se desvencilhar de uma das mais severas crises de sua história. 

Os presidenciáveis ainda tateiam a abordagem que usarão, mas já há pistas, seja em declarações ou nos nomes que tentam aglutinar ao seu redor, sobre a visão econômica que tentarão vender. Lula (PT) reuniu ex-parceiros de governo num grupo de economistas para pensar o País e intensifica discurso que agrada à sua base eleitoral. Geraldo Alckmin e João Doria (PSDB) cortejam economistas liberais. Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) retornam com antigos aliados. Jair Bolsonaro (PSC) quer colar em si o rótulo de liberal, mas ainda busca um nome disposto a compor seu receituário. 

 

Postulante à sucessão de Michel Temer, o governador de São Paulo tem ensaiado nova roupagem, com viés mais liberal. Sua defesa da austeridade nos gastos sempre agradou a pensadores dessa ala, mas posições defendidas pelo tucano na eleição de 2006, como interferência do governo nos juros e no câmbio, e sua defesa de estatais costumavam deixar muitos deles desconfiados.

Alckmin dá sinais de que deseja distanciar sua imagem da de economistas considerados “desenvolvimentistas”, como Yoshiaki Nakano, da FGV-SP, referência na área econômica na campanha em que o tucano perdeu para Lula. Desde o início do ano está em contato com o ex-presidente do Banco Central Persio Arida, que foi levado a encontro com ele por intermédio do cientista político Luiz Felipe D’Ávila. Apoiadores advogam que ele anuncie oficialmente o desejo de ter Arida como fiador de seu plano econômico. Arida não comentou.

Alckmin buscou ainda conselhos de Armínio Fraga, ex-chefe do BC, e de Joaquim Levy, ex-ministro da Fazenda – ambos de visão liberal. Testou o discurso no Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), que reúne economistas, banqueiros e empresários, e causou boa impressão, dizem participantes. Fez ode à austeridade, com congelamento de salários durante a crise, e defendeu as parcerias público-privadas. 

Doria, que ensaia uma candidatura, também tenta atrair economistas que orbitam o tucanato. Arida e Fraga foram procurados, apurou o Estado. Mas o prefeito de São Paulo já tem uma guru para moldar seu ideário, declaradamente liberal e privatista. Ana Carla Abraão Costa, ex-executiva do Itaú e ex-secretária de Fazenda de Goiás, é sua referência, segundo o prefeito. Ela é presidente do Conselho de Gestão Fiscal do Município.

Encontrou algum erro? Entre em contato

'Se privatizar a Eletrobras, tomaremos de volta', diz Ciro Gomes

Presidenciável diz que não há razão para juros não estarem menores e que Petrobrás é vital para o desenvolvimento

Entrevista com

Ciro Gomes, ex-ministro da Fazenda e da Integração Nacional

Renata Agostini, O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Para o ex-ministro Ciro Gomes (PDT), o atual sistema previdenciário morreu, mas é preciso fazer uma reforma que contemple aspectos regionais e crie um regime de capitalização público. O ex-governador do Ceará é contra a privatização da Petrobrás e diz que tomará de volta a Eletrobrás se ela for desestatizada. 

Previdência

“A sociedade está dividida entre os que imaginam, sem estudar o assunto, que o País precisa de reforma da Previdência para ontem, o que é mentira. E os que querem simplesmente, em homenagem ao corporativismo, negar a necessidade de reforma. A virtude está no meio. Tínhamos seis pessoas ocupadas para financiar uma aposentadoria. Hoje, temos 1,6 empregado para financiar um aposentado. Esse sistema morreu. Precisamos pôr em debate um novo: um sistema de capitalização público, sob controle dos trabalhadores, administrado por executivos premiados e punidos pelo êxito, e com uma agência de risco objetiva para fazer o filtro da alocação desses estoques de poupança compulsória vinculada a investimento de longo prazo. A idade mínima é uma obviedade, mas há de ser com equidade. É absolutamente insustentável moralmente estabelecer a idade mínima de 65 anos para um cidadão que trabalha no semiárido do Nordeste e aquele que trabalha engravatado na Avenida Paulista.”

Corte de juros

“A Previdência vem em segundo lugar no debate da dívida pública. Juro vem em primeiro. As pessoas esquecem que juros têm efeito fiscal. Todo gasto com juro é gasto corrente. A Dilma entregou com 14,25% ao ano. Hoje, está em 8,25%. Jogaram 2017 fora. Já podia ter feito isso (redução da Selic). É uma janela que vai se fechar. Jogamos fora oito anos de juro negativo no exterior. Como faz para baixar? É só fazer. No curto prazo, não há razão estrutural para o juro não estar lá embaixo. E tem de ser mantido assim pelos próximos quatro anos.”

Privatizações

“Nem pensar em privatizar Petrobrás e Eletrobrás. Não é questão de esquerdismo infantil. Brasil e Venezuela têm petróleo excedente e os EUA consomem mais petróleo do que produzem. Por que vamos entregar isso aos estrangeiros? Isso é estratégico, é uma vantagem que vamos ter de usar por 30 anos. A população, zangada com ineficiências do Estado, começa a acreditar que para acabar com o carrapato tem de matar a vaca. Qualquer venda de parcela do petróleo brasileiro feita com a mudança da lei de partilha, se eu for presidente, será desapropriada, com a devida indenização. Se privatizarem a Eletrobrás, também tomaremos de volta. Pode conceder estradas, mas o que faz o gênio brasileiro nos aeroportos? Privatiza os que dão lucro e deixa o resto onerando o Tesouro.”

Banco Central

“Qual Banco Central sério do planeta tem mandato de perseguir inflação como único tiro? O nosso. Precisamos alterar o mandato do BC. Precisamos introduzir o mundo real no Comitê de Políticas Monetárias. Em um governo meu, o BC vai perseguir a menor inflação a pleno emprego.”

Crise fiscal

“A sanidade fiscal é um valor em si mesmo, não para ganhar confiança do sistema, mas para dispensá-la. É preciso ter em mente que sou ex-governador. Isso que me choca às vezes no debate, quererem me transformar num doidão. O Ceará tinha dívida mobiliária muito grande. Faz sentido, só porque venceria em 15 anos, deixar para o futuro? Peguei 3,4% da receita, fui ao mercado e comprei 100% da dívida do Estado. Por que o Ceará é o mais líquido do País? Não tem a ver com a minha história de austeridade?”

Tamanho do Estado

“Não foi o espontaneísmo do mercado que transformou os EUA no que são. Qual é o maior polo exportador de calçados no Brasil? O Ceará. Sem ter todos os insumos, sem ter grande mercado consumidor. Conseguimos com incentivo fiscal, de crédito, capacitação, treinamento, eficiência de infraestrutura. Vou governar com a taxa de juros abaixo da rentabilidade média dos negócios. No Ceará, você pega nota do imposto que pagou, apresenta no banco e tem direito a tomar empréstimo de 75% do que foi pago. Esse empréstimo é subsidiado. Existiria agronegócio sem subsídio? Quer destruir essa dinâmica extraordinária, é só entrar nesses ‘dorianismos’ e ‘alckmismos’.”

Mais conteúdo sobre:
Ciro Gomes

Encontrou algum erro? Entre em contato

'O Brasil não precisa de mais impostos, mas de eficiência', diz João Doria

Tucano quer privatização gradual da Petrobrás e defende idade mínima de aposentadoria igual para homens e mulheres

Entrevista com

João Doria, prefeito de São Paulo

O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

Para o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), o Brasil não precisa de mais impostos, mas de uma gestão tributária eficiente. O tucano também diz acreditar que o Estado é inchado demais e defende a venda da Eletrobrás e uma privatização gradual da Petrobrás.

Prioridades

“Geração de renda e emprego. Combater a miséria e o desemprego é essencial. Para isso, é preciso estar com a economia estável para promover a retomada de investimentos. É através da volta de investimentos que se vai produzir novos empregos, garantir estabilidade para os empregos existentes e gerar oportunidades de renda. A política econômica do presidente Michel Temer está bem fundamentada. Ela deu autonomia e independência ao Banco Central, previsibilidade à taxa de juros, estabeleceu política fiscal de controle de gastos, manteve a máquina pública sob controle. Esses princípios são bons. A continuidade seria uma medida acertada.” 

Reforma da Previdência 

“É necessária. Talvez o governo não consiga fazer a reforma completa, mas se conseguir estabelecer um teto, já vai ser muito importante, sem tirar os direitos adquiridos. No Congresso, a idade mínima está em 65 anos para homens e 62 para mulheres. Embora minha defesa seja o patamar igual, de 65 para homens e mulheres, nos fundamentos, concordo com a reforma atual proposta. Não conheço todos os detalhes, mas os fundamentos. As regras têm de ser iguais e a reforma da Previdência tem de atender tanto setor privado quanto setor público. Evidente que você pode sempre debruçar um olhar maior sobre aquela ou essa área. Sempre vai haver muito debate. O ideal é não haver distinção (da aposentadoria dos militares), mas não sou contra debate.” 

Tamanho do Estado

“O Estado é inchado de maneira geral em todas as áreas e, como tal, perde eficiência. (O caminho para resolver é) privatização. Colocar o setor privado para ser também um agente prestador de serviços para a população. Primeiro, você diminui despesas. Segundo, melhora os serviços e rendimentos. Em terceiro, gera receitas. Isso permite que os recursos sejam focados para onde o Estado se faz necessário: saúde, educação, habitação, segurança pública. O limite da privatização é o limite da eficiência. Não deve haver intocabilidade, deve haver oportunidade, bom senso. Apoio a privatização da Eletrobrás. E fui o primeiro a manifestar claramente minha posição em defesa da privatização gradual da Petrobrás. Por que gradual? Para que possa ser bem-feita. Um processo gradual vai evitar desemprego e uma fragilidade para funcionários e técnicos da Petrobrás que, na sua expressiva maioria, são pessoas valorosas. Também defendo o fortalecimento de uma agência reguladora independente, que possa fazer regulação equilibrada.” 

Impostos

“Sou contra o aumento de imposto, não tem necessidade. Tem de fazer boa administração tributária. Óbvio que dá para apostar numa reforma tributária, mas não para aumentar impostos. O Brasil não precisa de mais impostos. O Brasil precisa de eficiência na administração dos impostos. Considero ser preciso melhorar a eficiência de gestão tributária e ser mais rigoroso na cobrança dos inadimplentes. Há muito perdularismo. Muita gente devendo, poucos pagando. Precisamos de uma política fiscal mais rigorosa para cobrar créditos que ainda não foram consolidados, mesmo que para isso seja preciso criar PPIs, programas de parcelamento, para que pessoas e empresas de bem possam pagar.”

Bancos públicos

“Defendo gradual fusão da Caixa com o Banco do Brasil, duas instituições sérias que cumprem papéis importantes e são complementares hoje. Elas podem fazer parte gradualmente de uma única estrutura muito fortalecida com todos os seus campos de capilaridade para financiamento do campo, da produção, da casa própria.” 

Juros

“Banco Central tem de ter independência para ter respeitabilidade. Ter uma política de juros com uma visão muito precisa. Diria que quase um acompanhamento semanal da economia. E evitar usar o BC como agente de execução de política fiscal ou econômica. O banco tem de refletir o mercado. Ele tem de ter um sentimento de mercado, ter essa grandeza de interpretação que faça com que ele não gere um conflito com o mercado e, com isso, coloque em debilidade o processo econômico. O mundo é globalizado e o Brasil precisa entender isso.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.