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Entrevista. José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV

Para Senna, a melhor opção era a Selic se manter estável, mas BC errou ao sinalizar ciclo de alta dos juros

‘Decisão deixa no ar possibilidade de influência política’

- Atualizado:20 Janeiro 2016 | 22h 27

Quadro recessivo limita ação do Banco Central, diz José Júlio Senna

Quadro recessivo limita ação do Banco Central, diz José Júlio Senna

SÃO PAULO - Na avaliação do chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), José Júlio Senna, a melhor opção para o Banco Central era, de fato, manter a taxa básica de juros (Selic) em 14,25% ao ano. O problema, afirma ele, foi a sinalização de que o BC retomaria um ciclo de alta dos juros. 

Na avaliação de Senna, ex-diretor do Banco Central, a confusão envolvendo a nota oficial emitida pelo presidente da instituição, Alexandre Tombini, sobre as perspectivas do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a economia brasileira e a consequente mudança de rota na política econômica provocaram um “dano à credibilidade” da instituição. “A decisão deixa no ar a possibilidade de interferência política”, afirmou Senna. 

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado

Como o sr. avalia o contexto da decisão do Banco Central?

A decisão foi precedida de uma sinalização excessivamente errática e deixa no ar a possibilidade de interferência política. A economia como um todo sai perdendo, não somente pelo dano à credibilidade da autoridade monetária, mas também pela alta dos juros mais longa e das inflações implícitas que se seguiu à nota do Banco Central da última terça-feira.

No cenário atual de inflação elevada, o Banco Central deveria ter aumentado os juros?

A melhor opção era, de fato, não ter elevado, mas sem que houvesse uma sinalização anterior do ciclo de alta do juro. 

Quais podem ser as consequências para a economia dessa má sinalização?

A sinalização errática seguramente provocará uma desancoragem das expectativas. De qualquer modo, chegamos a um ponto em que, sem ajustes fiscais profundos, as expectativas e a própria inflação não cederão. E o melhor que o BC pode fazer daqui em diante é evitar o agravamento das contas públicas e ajudar o público a compreender o quadro prevalecente no Brasil. 

O sr. mencionou a possibilidade de influência política. Poderia detalhar o impacto dessa questão na política monetária?

Subir juro é sempre uma tarefa árdua, especialmente no Brasil, onde as taxas já são extremamente elevadas. Alta de juro requer um timing correto. Lembremos o que aconteceu na primeira metade de 2015. O BC adotou comportamento convencional, agiu com firmeza, e teve certo sucesso. Deu início a uma reconquista de credibilidade e conseguiu trazer para baixo as expectativas inflacionárias. 

Por que isso ocorreu? 

Porque o clima era outro. A administração federal e o ministro Joaquim Levy sinalizavam uma nova política, indicavam importante mudança de rumo. Isso tudo abriu espaço para um ciclo de aperto monetário. Na medida do possível, esse aperto foi bem recebido, e aumentou a probabilidade de convergência da inflação para a meta. O BC deveria ter percebido a ausência de clima favorável para um ciclo de alta de juro e evitado dar a sinalização que deu a partir do fim de 2015. Ciclo de alta de juro não deve ser desperdiçado: deve ser programado quando são altas as chances de ser aceito política e economicamente e de produzir bons resultados. Pelo visto, o BC acabou entendendo isso da pior maneira possível.

O sr. já comentou sobre a necessidade de um ajuste fiscal. Há uma discussão se o Banco Central está isolado no combate à inflação. O sr. concorda, então?

O verdadeiro problema do País é fiscal. A deterioração de nossas contas levou o risco país (CDS, o seguro contra calote, de cinco anos) para cerca de 500 pontos. Sob tais circunstâncias, um impacto de alta expressiva do juro sobre as contas públicas pode agravar seriamente a percepção de risco, acarretando resultados contrários aos desejados. 

O sr. enxerga o risco de o País estar enfrentando um processo de dominância fiscal?

Ninguém pode estar seguro de que estejamos sob dominância fiscal. Não importa se, rigorosamente, estamos ou não nessa situação. O fato é que na situação atual, alta expressiva de juro pode ser mal recebida pelo mercado. O Banco Central desconsiderou esse raciocínio. Preferiu afirmar que o ambiente prevalecente não condicionaria a sua política. E sinalizou a retomada do ciclo de alta. Teria sido importante ter em mente que, sozinho, o BC não consegue trazer a inflação para baixo. Há limites severos para o que bancos centrais conseguem realizar. 

Como o Banco Central pode lidar com uma economia muito fraca que tem uma inflação acima do teto da meta? 

O quadro recessivo já é por demais severo. Num regime de metas de inflação, há uma hierarquia de objetivos. Combater a inflação é a prioridade. Mas não a qualquer custo. Quando a atividade econômica está muito fraca, e tende a se enfraquecer ainda mais, isso tem de ser levado em conta. 

Diante desse quadro, qual é a expectativa para a inflação? 

É preciso deixar claro também que quadro recessivo severo limita as ações de um banco central, mas não garante a queda da inflação. Vejo muita gente relativamente otimista com a inflação futura, acreditando que o elevado grau de capacidade ociosa da economia cuidará de levar a inflação para baixo. Quem pensa assim se esquece da influência do fator expectativas. As expectativas de inflação têm subido continuadamente desde o início do segundo semestre de 2015. Estão desancoradas. Esse é um fator que se contrapõe aos efeitos baixistas da recessão. 

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