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Depois de se queixar de ‘extorsão’, Argentina aceita negociar com credores

Marina Guimarães, correspondente - Agência Estado

20 Junho 2014 | 15h 46

Cristina Kirchner muda tom do discurso de confronto e diz que está disposta a chegar a um acordo, desde que 'condições sejam justas'

BUENOS AIRES - Depois de uma semana de sinais contraditórios, a presidente Cristina Kirchner anunciou nesta sexta-feira, 20, que quer negociar com os credores da dívida da Argentina beneficiados pela sentença do juiz americano Thomas Griesa.

No início da semana, Cristina havia se queixado de “extorsão” e havia indicado que não ia negociar com fundos de investimento “abutres”. Nesta quarta, ela mudou o tom do discurso.

“Dei instruções ao ministro de Economia para que nossos advogados peçam ao juiz que gerem condições para chegar a um acordo que nos possibilite cumprir com 100% dos credores”, afirmou a presidente em discurso em cadeia nacional de Rádio e TV, durante ato pelo Dia da Bandeira, em Rosario. 

As declarações foram feitas em meio a temores de que a Argentina dê calote ou desacate a sentença americana que determina o pagamento de US$ 1,33 bilhão mais juros, chegando a US$ 1,5 bilhão, a um grupo de credores liderados por NML Capital, unidade do hedge fund Elliott Management, do bilionário Paul Singer. Esses credores não participaram das renegociações de dívida da Argentina.

“Queremos cumprir com os 92,4% dos credores que aceitaram as trocas (de dívida) de 2005 e de 2010 e também queremos cumprir com os que não entraram na reestruturação. Só pedimos que gerem para nós condições de negociação justas, de acordo com a Constituição da Argentina, com as leis internacionais e com os contratos que também firmamos com esses 92,4%de nossos credores”, disse Cristina.

Ela defendeu um acordo “benéfico e igualitário” para todos os credores. “Não posso acreditar que uma legislação de qualquer país do mundo privilegie 1% dos credores em detrimento” da maioria de 92%, disse.

A menção aos contratos não foram ao acaso. Cristina referiu-se à cláusula de direitos de ofertas futuras, denominada Rufo, pela sigla em inglês, que impede o governo de oferecer, voluntariamente, condições superiores aos credores de títulos reestruturados que aos “holdouts” (credores que não aceitaram renegociar a dívida). A cláusula vence no fim de dezembro.

Idas e vindas. Na quinta-feira, o chefe de Gabinete de Ministros, Jorge Capitanich, provocou tensão no mercado ao negar o envio de uma missão negociadora à Nova York. No dia anterior, o ministro da Economia, Axel Kicillof, havia dito que o país não ia pagar em Nova York a dívida renegociada que vence no dia 30 de junho por culpa da decisão da Justiça americana. 

Em audiência com Griesa, na terça-feira, os advogados haviam dito que a Argentina mandaria funcionários para negociar. O juiz se mostrou desconfiado e disse que o discurso presidencial não gerava confiança de que a Argentina cumpriria suas obrigações.

No pronunciamento, Cristina assoprou e mordeu. Depois de dizer que seu país vai “cumprir com o dever”, ela ressaltou a boa fé para negociar, em clara resposta ao juiz. “Na Argentina, o que sobra é boa fé”, afirmou citando como exemplo as recentes negociações de pagamento da dívida ao Clube de Paris e a indenização à Repsol pela estatização da YPF.

Cristina manteve, porém, um tom conciliador e afastou, por enquanto, a hipótese de um calote. O governo corre contra o relógio para conseguir um acordo antes do dia 30 de junho, quando vence uma dívida reestruturada de US$ 900 milhões. 

Entre as propostas que a Argentina poderia oferecer para os “holdouts” seria pagar parte da dívida com dinheiro e outra parte com títulos e esticar os prazos até o vencimento da cláusula Rufo, para evitar processos promovido por credores regulares. Elliott Management já manifestou que estaria disposto a aceitar um mix de pagamento.