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Desaceleração da China bate na vida real

Demanda por cimento cai, número de telefones celulares diminui, consumo de carne suína se estabiliza e até setor de refrigerante perde fôlego

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Fernando Nakagawa,
ENVIADO ESPECIAL / XANGAI

27 Fevereiro 2016 | 18h38

O país mais populoso do mundo passa por um histórico momento de transição. Após anos de crescimento exuberante, puxado por exportações e investimentos do Estado, a China tenta mudar o norte para crescer com o gigantesco mercado de 1,3 bilhão de habitantes. Essa troca diminui a marcha do motor chinês, que girava com velocidade de dois dígitos na década passada, reduziu o ritmo para 6,9% em 2015 e deve desacelerar mais.

É verdade que o número ainda é invejável. Mas há sinais de cansaço na vida real: a demanda por cimento cai, o número de celulares começa a diminuir, o consumo de carne de porco estagnou e até a produção de refrigerantes perdeu fôlego.

Na noite de sexta-feira, o frio de 10 graus não impediu que milhares de pessoas lotassem o calçadão da Nanjing Road, a maior via comercial de Xangai. Famílias com crianças, casais de namorados, jovens e turistas eram atraídos pelas luzes e vitrines de nomes como Apple, GAP e Forever 21. Poucos carregavam sacolas, mas o barulho mostrava que o ânimo prevalecia. Às 20h, a Pizza Hut perto da loja da Samsung estava deserta. Por trás dos grandes cartazes colados na vitrine com a oferta de pizzas a 39 yuans – cerca de R$ 23 –, apenas 2 das mais de 20 mesas estavam ocupadas. 

O fraco movimento não é uma novidade para a Yum! Brands, dona da rede na China. O último balanço mostra que o faturamento dos restaurantes tem caído sistematicamente há dois anos. No quarto trimestre de 2015, filiais da pizzaria abertas há mais de um ano venderam 8% menos. Em todo 2015, o faturamento dos mais de 1.800 endereços caiu 5%. 

Mais que um simples negócio em dificuldade, a empresa pode ser um exemplo da mudança chinesa, diz Marc Fabers, gestor suíço que ficou famoso por previsões contundentes como a “Segunda-Feira Negra” de Wall Street em 1987 e a crise asiática do fim da década de 90. “Se você quer saber o que realmente acontece na China, pergunte ao pessoal da Yum!”, sugeriu Fabers no ano passado, em uma entrevista que ficou famosa pelo alerta de que há risco de “proporções épicas” na China, especialmente uma eventual bolha de crédito. Para o gestor, a situação é pior do que a vendida pelo governo.

Sediado em Pequim, o Escritório de Estatísticas Nacionais é o órgão governamental responsável pelo cálculo e divulgação de uma série de indicadores que vão desde o Produto Interno Bruto até a produção de refrigerante. Apesar da desconfiança de alguns analistas que questionam certos indicadores – que seriam otimistas demais –, os dados do próprio órgão confirmam que a desaceleração da economia parece chegar cada vez mais longe. 

A produção de cimento é um bom exemplo. Nos recentes anos dourados, a produção mensal cresceu a uma velocidade média de 20,5% em 2009, na comparação com o ano anterior, ou 16,7%, em 2011. No ano passado, porém, tudo mudou e a produção caiu 6,4%. O caso do cimento é especialmente simbólico porque o produto é considerado quase perecível por sua característica que impede o armazenamento por longos períodos. Então, a indústria trabalha muito próxima da demanda.

Os sinais de cansaço econômico se propagam na vida cotidiana. A base de clientes da telefonia celular 3G, que chegou a crescer a um ritmo médio de 118% em 2012 e de 80% em 2013, teve retração de 2% no ano passado. A produção de refrigerantes, que cresceu de 17% a 23% entre 2009 e 2011, perdeu o gás e avançou com ritmo médio de 5,3% em 2015.

O fenômeno também alcança itens bem mais caros que uma lata de refrigerante. Em 2015, o mercado de artigos de luxo diminuiu 2% na China, estima a consultoria Bain & Company. Relógios, roupas masculinas e artigos de couro puxaram as vendas para baixo e nomes famosos sentiram o baque. Segundo a imprensa local, a franco-italiana Gucci fechou cinco lojas e francesa Louis Vuitton encerrou as atividades em três endereços desde o fim de 2015. 

Até a carne mais popular entre os chineses, a suína, tem sofrido. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o consumo de carne de porco chegou a crescer 8,9% em 2008. Em 2014, o volume já havia desacelerado para 3,1% e o apetite estagnou no ano passado. 

Elogios. O Fundo Monetário Internacional (FMI) não parece muito preocupado com os efeitos colaterais dessa transição e apoia o foco no mercado interno. A diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, fez uma série de elogios aos chineses na reunião das 20 maiores economias do mundo, o G-20. Para Lagarde, Pequim operava um modelo com tanto crescimento do crédito e investimento que vulnerabilidades começaram a surgir, como no campo fiscal, imobiliário, financeiro e dívida corporativa. Com a mudança, o Fundo acredita que a China terá ritmo mais sustentável de crescimento no futuro. 

Mesmo com os elogios, o FMI cita em documentos que a China tem de fazer ainda mais. Entre as prioridades, pede que seja realizada ampla reforma do sistema financeiro com liberalização das atividades bancárias e também seja repensado o papel do Estado nas estatais.

Bem longe do alcance dos olhos do FMI, os donos da Pizza Hut também entenderam que é preciso reagir e fazer mais. Diante de mesas vazias e vendas em queda, as promoções com pizza, bebida e sobremesa não são mais suficientes. Por isso, a empresa decidiu cortar na própria carne e o avião de US$ 15 milhões de propriedade da companhia no país foi colocado à venda para cortar custos. Azar dos executivos da Yum! Brands, que terão de viajar em voos comerciais. Sorte das empresas aéreas chinesas que, pelo menos nessa, ganharam um punhado de novos passageiros.

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