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Desafio da Vale será recuperar imagem

Além da reputação manchada, empresa ainda terá de conviver, em 2016, com o baixo preço das commodities, que tem reflexo em suas receitas

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Mariana Durão,
O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2016 | 03h00

RIO

A Vale vai enfrentar neste ano velhos problemas e um desafio adicional: recuperar a imagem arranhada pela tragédia do rompimento da barragem de sua controlada Samarco, em Mariana (MG). Há um ano, o presidente da mineradora, Murilo Ferreira, previa um cenário difícil em 2015 frente à queda dos preços do minério de ferro e dificuldades na economia global em meio à implantação do bilionário projeto S11D, em Carajás (PA). 

Naquela época, a tonelada da commodity estava cotada a US$ 68, quase US$ 30 acima do preço atual, e nem as projeções mais nebulosas poderiam cogitar que a empresa enfrentaria o fator Samarco. O inferno astral da Vale se refletiu diretamente em sua performance na bolsa de valores e, diante da situação econômica do Brasil, levou ao rebaixamento de seu rating por agências de classificação de risco como Moody’s e Fitch. 

Como disse o próprio Ferreira, a estratégia de redução de custos e disciplina de capital foi “ofuscada pelo trágico acidente”. No dia 18, a Justiça Federal de Minas Gerais determinou o bloqueio de bens da Samarco e das acionistas Vale e BHP Billiton em ação civil pública movida pela União, reforçando a expectativa de que a Vale terá de arcar com os danos do acidente.

A ação preferencial da Vale fechou o ano valendo R$ 10,25, contra R$ 18,16 de 2014. O tombo dos papéis desde janeiro supera os 40%, enquanto o Ibovespa recuou cerca de 13%. Em 2015, a companhia perdeu R$ 49 bilhões em valor de mercado. Só no período que se seguiu ao desastre da Samarco, foram pelo ralo cerca de R$ 25 bilhões.

Hoje, a mineradora vale R$ 58,3 bilhões na bolsa, a maior perda nominal de valor entre as empresas da carteira do Ibovespa, segundo dados da Economática. Olhando para fevereiro de 2011, primeiro ano do mandato de Murilo Ferreira e auge do preço do minério de ferro, a Vale perdeu R$ 222 bilhões em valor de mercado. Naquela época, a tonelada da commodity atingiu o pico de US$ 191,70.

Com a cotação do minério agora batendo o piso da última década e a demanda enfraquecida, a Vale terá mais dificuldades em assegurar boas margens. A expectativa de analistas é que dificilmente os preços se recuperarem de forma significativa antes de 2017. Em 22 de dezembro, o metal era cotado a US$ 40,20 na China. Desde o início de 2015, a queda acumulada era de 15,4%.

Ao mesmo tempo, o acidente da Samarco deve prejudicar o balanço da companhia. A Vale projeta perda de receita de US$ 543 milhões em 2016 por causa da perda de produção e dividendos com o acidente. Mas o prejuízo total referente a eventuais multas e indenizações ainda é incerto e pesa como uma espada sobre a companhia.

Pior momento. Com passagem de mais de uma década na mineradora, o ex-diretor de Relações com Investidores da Vale Roberto Castello Branco avalia que a empresa vive o pior momento nos últimos 15 anos. “A Vale terá de enfrentar o episódio de Mariana, que demandará recursos, em um momento de escassez.” Na visão dele, 2015 já foi o fundo do poço. Embora este ano se apresente como desafiador, ele acredita que os preços tendem a se estabilizar, talvez em um patamar até um pouco melhor que US$ 40. 

Para o economista, a estratégia de reduzir custos e vender ativos que não façam parte da atividade principal para se capitalizar tem sido bem sucedida e ainda tem fôlego. Além disso, a Vale deverá concluir a maior parte do investimento S11D, reduzindo a necessidade de financiamento.

Já Adeodato Netto, sócio da casa de análise independente Eleven Financial, é mais pessimista. Sua empresa recomenda a venda do papel da mineradora, levando em conta o derretimento dos preços do minério e o aumento das despesas financeiras, que em sua avaliação dificilmente será compensado pelo esforço na redução de despesas e controle de custos.

A imprevisibilidade quanto às consequências econômico-financeiras do acidente da Samarco deve continuar pressionando os papéis da empresa, diz Netto, para quem a geração de caixa da Vale não suportará muito mais tempo, aumentando ainda mais a carga da despesa financeira. A Eleven avalia que a estrutura de dívida da Vale está descolada de seu resultado operacional e deveria ser redesenhada junto aos credores.

“O cenário é bastante estressado para a Vale, que tende a ter mais um ano conturbado”, diz o analista da Gradual Investimentos, Gesley Henrique Florentino. Ele lembra que o mercado já prevê que o preço do minério fique mesmo na casa dos US$ 40 ao menos até 2017. Isso se somará às incertezas do caso Samarco, à perda de reputação com o acidente e também à perspectiva de que a Vale sofra um cerco no que diz respeito à concessão de licenças. “A tendência é que a companhia seja mais auditada”, frisa.

Nesse contexto a Vale também perde o capital de boa pagadora de dividendos junto aos acionistas. A companhia já sinalizou que pode não pagar dividendos em 2016. A companhia vem enxugando o valor distribuído nos últimos anos. Após o recorde de US$ 9 bilhões em 2011, o valor caiu a US$ 6 bilhões em 2012, US$ 4,5 bilhões em 2013, US$ 4,2 bilhões em 2014 e US$ 1,5 bilhão em 2015.

Imagem. Netto, da Eleven, é um crítico ferrenho da postura da Vale no caso Samarco. No auge da tragédia, a Vale se declarou “mera acionista” da empresa. Para Netto, a mineradora brasileira errou ao tratar a controlada “como se fosse um filho rebelde que não pode ter a mãe responsabilizada por suas transgressões”, após ter recebido R$ 900 milhões em dividendos da empresa em 2014 e ter usado sua barragem para depositar rejeitos da mina de Alegria.

O publicitário Lula Vieira acredita que a tragédia da Samarco terá consequências para a imagem da Vale por mais de uma década. O desastre, diz ele, terá reflexos na relação da companhia com uma série de atores: sociedade, órgãos ambientais, governo, investidores. “O governo de Minas será cobrado a explicar a relação com as mineradoras, onde são aplicados os royalties do setor, se são suficientes. O mais humilde funcionário do Ibama pode se sentir constrangido em dar uma autorização à empresa. É como um alcoólatra que para de beber: tem de ficar anos sóbrio até acreditarem.”

Ele diz que a comunicação da empresa foi falha. “Desde 1942 a Vale nunca teve uma crise dessa natureza. A sociedade não percebeu uma reação à altura. Ninguém lembra que, tendo produzido bilhões de toneladas de minério e gerido 128 barragens próprias só em Minas, a Vale nunca havia tido um acidente.”

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