FOTO TIAGO QUEIROZ / ESTAD?O
FOTO TIAGO QUEIROZ / ESTAD?O

Desemprego longo reduz chances de recolocação

Segundo o IBGE, 3 milhões de brasileiros já estão há mais de 2 anos sem emprego

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2017 | 05h00

O número de pessoas desempregadas há mais de dois anos dobrou de 2015 para cá, com o prolongamento da crise econômica. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse grupo já soma quase 3 milhões de pessoas sem emprego fixo e com baixa perspectiva de se recolocar no mercado de trabalho. Para esses trabalhadores, a busca pelo emprego virou uma corrida contra o relógio, já que quanto mais tempo fora do mercado, maior a dificuldade para retornar.

A situação é mais complicada entre os profissionais com idade entre 18 e 24 anos e 30 e 39 anos (ver quadro ao lado). Só nessas duas faixas, o número de pessoas sem emprego há mais de dois anos soma 1,5 milhão. “Em geral, essas pessoas têm menos qualificação. Com o passar do tempo, não conseguem mais entrar no mercado de trabalho”, afirma o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). 

Segundo ele, esses profissionais vão começar a sentir ainda mais esse efeito quando a economia voltar a crescer e demandar mão de obra. Além de enfrentar o preconceito das empresas em relação ao tempo sem um emprego fixo, também podem sofrer com as mudanças tecnológicas. Para Barbosa, esse grupo vai merecer atenção especial, caso contrário a crise atual terá efeitos permanentes em sua empregabilidade.

Se para os jovens a situação é complicada, entre os mais velhos chega a ser dramática. Embora não represente o maior número de pessoas sem trabalho há mais de dois anos, a faixa etária que teve o maior avanço no índice de desemprego desde 2015 foi aquela entre 50 e 59 anos. Esse grupo cresceu 140% e passou a somar 248 mil pessoas. “Uma característica dessa crise é exatamente o fato de que vários chefes de família estão perdendo o emprego”, afirma o economista Renan De Pieri, professor do Insper. “São pessoas mais experientes e que ganham mais.”

Tecnologia. Segundo os economistas, alguns fatores explicam a dificuldade para se recolocar depois de um tempo longo sem emprego fixo. Uma delas é a rapidez das mudanças tecnológicas na economia. “Se um profissional que está na ativa já sente a mudança de tecnologia, imagine uma pessoa que fica dois, três ou quatro anos desempregado”, alerta Barbosa. Isso sem contar que, nesse meio tempo, a própria função do trabalhador pode desaparecer. Em algumas áreas, como o setor bancário, por exemplo, a automatização está alterando muito a dinâmica do mercado de trabalho.

Flexibilidade. Segundo o diretor executivo da empresa de recrutamento Michael Page, Ricardo Basaglia, depois de uma crise os empregos não voltam com as mesmas características, o que exige dos candidatos maior flexibilidade para se adequar às novas funções. Num primeiro momento, diz ele, o trabalhador se mostra resistente a mudanças e à redução da remuneração. Mas com o passar do tempo e o afastamento do mercado, ele começa a ser mais flexível. “Nesse momento, ele terá de responder ao empregador por que está há tanto tempo fora do mercado de trabalho.” 

De Pieri, do Insper, diz que há preconceito por parte das empresas em relação aos trabalhadores que ficam muito tempo sem emprego fixo. “A justificativa é que esse profissional perde habilidade técnica e de liderança.” Por isso, completa o professor, é importante manter contato com pessoas do mercado para não se distanciar muito da realidade. É o que tem feito o web designer Wado Cravo. 

Sem emprego há mais de dois anos, ele busca os antigos contatos para se manter atualizado e fazer bicos. São os trabalhos esporádicos que têm garantido seu sustento durante esse tempo. Mas o dinheiro só dá para cobrir o básico, diz ele. 

“Tive de cortar quase tudo. Hoje, moro de favor na casa da minha filha.” Apesar de procurar emprego com frequência e mandar currículos para empresas, ele não tem tido sucesso para se recolocar. “Nunca tinha vivido algo nessa magnitude. A crise está matando muitos profissionais dessa área.”

"Os bicos só dão para pagar o básico"

Maria Queiroz era pesquisadora do Ibope até outubro de 2014, quando foi demitida. Desde então, vive dos trabalhos que surgem esporadicamente. “É muito sazonal. Às vezes fico semanas sem um trabalho e, quando consigo, pagam muito mal.” Aos 57 anos, ela diz que teve de reduzir muito seu padrão de vida para se enquadrar à nova realidade financeira.

Maria já teve uma empresa de pisos laminados e administrou um restaurante antes de se tornar pesquisadora social. Enquanto estava empregada, vivia numa casa confortável e bem localizada. “Hoje, moro na periferia da zona leste, num apartamento de conjunto popular. Meu padrão de vida foi extremamente reduzido.”

O que ganha fazendo “bicos” é suficiente só para pagar as contas básicas. E duas semanas sem nenhum trabalho significa ficar 45 dias sem nenhum ganho. “Isso, claro, se a empresa pagar no tempo esperado. Se atrasar, são pelo menos dois meses de penúria.”

Apesar de estar há quase três anos sem emprego fixo, ela não perdeu as esperanças de conseguir se recolocar. “Só assim vou conseguir recuperar meu padrão antigo, limpar meu nome e pagar as dívidas.” 

"Tenho vivido uma avanlanche"

De 2015 para cá, a vida do designer gráfico Gustavo Fernochi passou por uma reviravolta. Em janeiro daquele ano, ele entrou no corte de gastos da empresa onde trabalhava há dois anos e meio e foi demitido. Ao mesmo tempo, recebeu a notícia de que, em breve, seria pai. Desde então ele vem fazendo todo o tipo de trabalho esporádico para conseguir complementar a renda da mulher, que continua trabalhando. “Faço de tudo, até trabalhar em obra”, afirma o profissional.

Os esforços, no entanto, não têm sido suficientes, especialmente com uma criança pequena em casa. “Temos recebido ajuda financeira da família para arcar com os compromissos, incluindo o aluguel.” 

Fernochi diz que, apesar da crise e da redução dos postos de trabalho no País, continua mandando currículos para empresas e procurando vagas em agências de emprego. Mas lá se vão dois anos e meio de busca sem sucesso. “É como se eu fosse experiente demais para uma vaga de salário mais baixo. Mas eu estou topando qualquer coisa, mesmo que seja para ocupar outra função.”

Aos 30 anos, o designer faz parte de uma geração que vive a primeira grande crise econômica brasileira. “Tenho vivido uma avalanche.”

‘Faço evento até em velório'

Luis Fernando Alves quase não se lembra de como é viver com um emprego fixo. Há cinco anos ele perdeu o emprego e desde então vive da renda de eventos. “Vou aonde me chamam. Faço festa infantil, de debutantes, chá de bebê e, acredite, até velório.” Alves foi contratado para chorar durante duas horas e ganhou R$ 200.

Mas, mesmo nos meses mais cheios, ele não consegue ter a mesma renda que tinha quando trabalhava como designer gráfico. “Meus ganhos chegavam a R$ 5 mil. Agora não consigo mais esse valor.”

Casado e com a mulher também desempregada, ele perdeu o apartamento que o casal vinha pagando nos últimos anos. Com o desemprego, as parcelas foram se acumulando e ele perdeu o imóvel. “Hoje, moramos de favor na casa da minha sogra.”

A queda na renda também fez o casal rever as prioridades e cortar “na carne” os gastos. Antes, os dois iam muito ao cinema, shows e faziam viagens. Além disso, compravam coisas por impulso, às vezes sem necessidade. Mas tudo mudou. Dependendo do mês, os dois precisam de ajuda da família para conseguir fechar no azul. “Mas ainda tenho o sonho de trabalhar com o que realmente gosto.”

Mais conteúdo sobre:
IBGE Desemprego

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.