Xu Guang/Embaixada da China
Xu Guang/Embaixada da China

Dificuldades no crescimento do Brasil são temporárias, diz embaixador da China no Brasil

Em entrevista ao Estado, Li Jinzhang afirmou que o País segue como um dos principais receptores de investimentos de seu país

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2017 | 13h20

BRASÍLIA - O Brasil passa por dificuldades em seu crescimento, mas tem bom potencial no médio e longo prazos, avaliou o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang. Mesmo com a instabilidade política, o País segue como um dos principais receptores de investimentos de seu país, que agora avançam para áreas como energia limpa e tecnologia da informação.

Também segue firme o interesse na infraestrutura. O Brasil foi, entre os fornecedores de petróleo bruto para a China, o que registrou o crescimento mais acelerado nos últimos anos. Por isso, há forte interesse nos leilões de áreas para exploração programados para setembro, sobretudo após a adoção de regras mais flexíveis para esses investimentos. Abaixo, os principais trechos da entrevista concedida por escrito ao Estado.

Que posição o Brasil ocupa no panorama do investimento no exterior da China?

O investimento chinês no Brasil está crescendo rápido e, hoje, totaliza US$ 40 bilhões. Tanto no fluxo como no estoque, o Brasil é um dos principais destinos, sobretudo entre os mercados emergentes. Esse investimento vem subindo na cadeia de produção, para manufatura de ponta, energias limpas e tecnologia da informação. E é cada vez mais sólido o apoio financeiro dado a essa cooperação. Pouco tempo atrás, foi lançado o Fundo de Cooperação para a Expansão da Capacidade Produtiva Brasil-China, com aporte de US$ 20 bilhões. Além de dar novas oportunidades para a cooperação bilateral, a criação desse fundo é um sinal da confiança que a China deposita no desenvolvimento brasileiro. Os dois países devem estabelecer um paradigma de cooperação para as economias emergentes.

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As empresas chineses tornaram-se as principais investidoras na geração e transmissão de energia no Brasil. O governo brasileiro pretende leiloar este ano empresas de distribuição. Há interesse nelas?

A cooperação bilateral no setor de energia elétrica teve um crescimento notável. Empresas chinesas como a CTG e a CGGC estão aumentando sua capacidade instalada em operação e a State Grid trouxe ao Brasil a tecnologia mais avançada do mundo em transmissão de energia em ultra-alta tensão, além de suas experiências de gestão. Adquiriu recentemente ativos da CPFL, o que ampliou seus negócios para a área de distribuição e novas energias. Acredito que empresas chinesas devam avançar na área de distribuição, atendendo à demanda do mercado brasileiro e atuando conforme as regras comerciais.

Há muitas notícias sobre interesse chinês em ferrovias. A Transoceânica segue como um ponto de interesse?

Em termos de construção de infraestrutura, empresas chinesas possuem tecnologia avançada, rico know-how e capital abundante. A cooperação entre os dois países beneficiará a formação de um sistema integrado de logística no Brasil para fomentar a economia. No que diz respeito a projetos específicos como as ferrovias Transoceânica, Norte-Sul e Fiol, o lado chinês incentiva as empresas que levam em consideração o plano de desenvolvimento da infraestrutura e participam desse processo baseadas em estudos de viabilidade e orientação de mercado. O recém-lançado Fundo bilateral e o Fundo de Cooperação Chinês para Investimento na América Latina (Claifund), com aporte de US$ 30 bilhões, darão o suporte de financiamento.

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A China está interessada nos leilões de petróleo programados para este ano?

Nos últimos anos, o Brasil está se consolidando como fornecedor de energia para a China, de maneira que as vendas de petróleo bruto brasileiro registraram o aumento mais acelerado dentre todos os fornecedores. Segundo estatísticas, entre janeiro e maio, o Brasil exportou US$ 4,72 bilhões de petróleo para a China, uma alta de 104% sobre o mesmo período do ano passado. Nesse contexto, a China atribui grande importância ao estabelecimento de parceria estável com o Brasil nesse quesito e está disposta a participar da prospecção e exploração de campos petrolíferos do Brasil através de investimento direto e do mecanismo "petróleo por empréstimo". Acredito que as medidas que visam afrouxar as restrições do setor e atrair mais investimentos estrangeiros chamarão mais atenção de empresas chinesas na hora de desenvolver uma cooperação mais abrangente de toda a cadeia de produção de petróleo e gás.

As empresas chinesas planejam entrar no setor de produção e processamento de alimentos do Brasil?

A China é o maior destino de exportação de produtos agrícolas do Brasil, que lidera a venda de soja e carne de aves para lá. Os desembarques de café e açúcar também estão em alta. A cooperação de investimento em agronegócio está em ascensão. Há uma grande complementaridade nesse setor entre os dois países. Haverá na China um déficit de produtos como soja, algodão, óleo comestível, milho, açúcar, laticínios e aves, enquanto o Brasil é o principal produtor desses itens com um fornecimento estável. Com o avanço da reforma agrária no lado de oferta, empresas chinesas vão priorizar a integração dos mercados e recursos nacionais e internacionais, cultivando melhor o agronegócio brasileiro. Vão desenvolver formas diversas de cooperação que cobrem as etapas de produção, aquisição, beneficiamento e logística, focando em áreas altamente complementares para casar de forma mais eficaz a produção e a demanda, conquistando um maior desenvolvimento da cooperação agrícola bilateral.

A crise política do Brasil afeta diretamente o crescimento da economia. Isso tem impacto sobre os interesses chineses no Brasil?

Nesse momento, o crescimento econômico do Brasil enfrenta alguns desafios. Porém, graças aos esforços conjuntos dos dois países, as relações bilaterais mantêm a estabilidade e o avanço, com resultados frutíferos em áreas como política, economia e comércio, investimento e finanças. O Brasil possui uma vasta extensão territorial, uma economia de grande escala e resiliência, um quadro jurídico completo e uma boa tendência para o desenvolvimento de médio e longo prazos. Muitos empresários chineses com negócios neste País têm dito que as dificuldades que o Brasil enfrenta são efêmeras e ocasionais. Com uma visão de longo prazo, eles continuam vendo com bons olhos as oportunidades de investimento no País e vão permanecer aqui, junto com os brasileiros, para receber um novo ciclo de prosperidade quando a crise terminar.

As empresas chinesas apontam como problema o aumento de custo de investimento por causa das legislações trabalhista e ambiental. Como se adaptam?

O governo chinês sempre exige que, ao investir no exterior, as empresas chinesas cumpram rigorosamente as leis locais, incluindo as legislações trabalhistas e ambientais. As mais 200 empresas de investimento chinês no Brasil estão implementando cada vez mais a estratégia de contratar pessoas do local para atuar nas áreas de gestão, pesquisa e desenvolvimento, produção e aquisição, criando mais oportunidades de trabalho para o povo brasileiro. Por exemplo, mais de 80% dos funcionários da Huawei Brasil são locais, sendo a subsidiária com maior taxa de localização entre todas as unidades do mundo.

E quanto à área ambiental?

O conceito de crescimento “verde” é cada vez mais aceito na China, e a proteção do meio ambiente já é uma atitude consciente das empresas chinesas com visão de longo prazo no desenvolvimento de negócios no Brasil. A COFCO, por exemplo, define claramente a responsabilidade pelo desenvolvimento sustentável no seu processo de compra de soja. Ela não compra, não comercializa e não financia grãos produzidos com o prejuízo da Amazônia Legal. Vale lembrar que, com a nova etapa das cooperações pragmáticas entre os dois países, o desenvolvimento verde alcançou resultados significativos. Recentemente, a BYD inaugurou em Campinas sua fábrica de painéis fotovoltaicos, introduzindo tecnologia avançada de energia limpa. Um projeto que, além de ambientalmente amigável, também criou mais de 300 postos de emprego para a população local.

QUEM É

Li Jinzhang, 63 anos, é embaixador no Brasil desde 2012. Diplomata de carreira, serviu também em Cuba, na Nicarágua e no México.

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