Dilma critica austeridade na Europa

Em discurso na Cúpula Ibero-Americana, presidente cita estagnação do Brasil nos anos 80 e 90 para criticar rigor fiscal europeu

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / CÁDIZ, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2012 | 02h08

Evocando o rigor fiscal e a influência do Fundo Monetário Internacional (FMI) na década perdida do Brasil nos anos 80, a presidente Dilma Rousseff fez neste sábado uma crítica frontal à política de austeridade em curso na Europa. Em discurso na Cúpula Ibero-Americana, realizada em Cádiz, a chefe de Estado brasileira advertiu Espanha e Portugal sobre o "risco de agravamento" da recessão causada por "políticas exclusivas, que só enfatizam a austeridade e vêm mostrando seus limites".

Dilma chegou ao Palácio de Congressos de Cádiz pouco depois das 10h30, horário local. Minutos depois de saldar o rei Juan Carlos e o primeiro-ministro Mariano Rajoy, os 16 chefes de Estado e de governo presentes se encontraram. Ao tomar a palavra, a presidente fez um breve elogio às relações históricas entre a Espanha e Portugal e a América Latina e passou a seguir a falar da turbulência na Europa. "A crise financeira golpeia de forma particular a península ibérica", lembrou.

"Temos assistido, nos últimos anos, aos enormes sacrifícios por parte da população dos países que estão mergulhados na crise: reduções de salários, desemprego, perda de benefícios", disse a presidente, que confundiu duas vezes os déficits - em queda na Europa - com as dívidas, que seguem aumentando.

"As políticas exclusivas, que só enfatizam a austeridade, vêm mostrando seus limites: em virtude do baixo crescimento, e apesar do austero corte de gastos, assistimos ao crescimento dos déficits fiscais e não a sua redução."

A presidente então evocou a posição do Brasil nos fóruns multilaterais, como o G-20, para lembrar da oposição do País às políticas de austeridade sem estímulos ao crescimento. "A consolidação fiscal exagerada e simultânea em todos os países não é a melhor resposta para a crise mundial - e pode, inclusive, agravá-la, levando a uma maior recessão", afirmou. "O equívoco é achar que a consolidação fiscal coletiva, simultânea e acelerada seja benéfica e resulte numa solução efetiva."

Para Dilma, o rigor fiscal pode até estar afastando o risco de quebra financeira na Europa, mas não está recobrando a confiança dos mercados financeiros, nem da população. "Confiança não se constrói apenas com sacrifícios", ensinou.

A presidente lembrou ainda a cúpula de Guadalajara, a primeira ibero-americana, nos anos 90, para citar o exemplo da crise das dívidas da América Latina, que só teria acabado com o retorno do crescimento.

"Os governantes de então, aconselhados pelo Fundo Monetário Internacional, acreditavam, erradamente, que apenas com drásticos e fortes ajustes fiscais poderíamos superar com rapidez as gravíssimas dificuldades econômicas e sociais nas quais estávamos mergulhados", afirmou.

"Levamos assim duas décadas de ajuste fiscal rigoroso tentando digerir a crise da dívida soberana e a crise bancária que nos afetava e, por isso, neste período, o Brasil estagnou, deixou de crescer e tornou-se um exemplo de desigualdade social."

Apelo. Além de Mariano Rajoy, estavam na sala o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, dois executivos criticados pela opinião pública por aplicarem medidas de austeridade. Minutos antes, Rajoy já havia feito um apelo aos países latino-americanos para que auxiliem a Europa a superar a crise.

"Hoje a América Latina tem uma posição melhor. Se a América Latina é uma oportunidade para a Europa, nós também somos uma para vocês. Não preciso dizer que seus investimentos serão recebidos de braços abertos", disse Rajoy. Insistindo no tema, o premiê espanhol fez, então, um convite formal: "Estamos mais abertos do que nunca à América Latina. Convidamos vocês a investir na Espanha e na Europa".

Menos direto, mas também tentando seduzir os líderes latino-americanos, Barroso lembrou que "os investimentos da União Europeia no Brasil são maiores do que na Rússia e Índia juntos". Ele nem precisou dizer o que estava implícito em seu discurso: agora, em meio à crise, espera o mesmo do Brasil e da América Latina.

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