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Entrevista. Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV

Ex-ministro de Lula defende impeachment da presidente e afirma que não se faz um País sem o setor privado

‘Dilma perdeu o controle da gestão’

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, diz que há muita insegurança por parte dos investidores
Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, diz que há muita insegurança por parte dos investidores
Ex-ministro da Agricultura no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto Rodrigues, que está à frente do Centro de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV), vê o impeachment da presidente Dilma Rousseff como uma “solução para o momento delicado pelo qual o Brasil vive”. Para ex-ministro, não há alternativa a não ser a busca de entendimento em torno de um projeto maior, que é reconstruir o Brasil com o resgate de confiança dos empresários e uma aliança “com a parte mais lúcida da oposição e da situação”.

Rodrigues acredita que a presidente, ao convidar o ex-presidente Lula para assumir a Casa Civil, abriu mão de seu mandato. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O que é preciso para o Brasil sair dessa turbulência atual?

O Brasil tem de buscar um entendimento em torno de um projeto, independentemente de quem seja o comandante desse processo. É preciso juntar a parte mais lúcida da oposição e da situação e resgatar a retomada da confiança do setor privado para que eles possam voltar a investir no Brasil.

O que é preciso para recuperar a confiança do empresariado?

Um programa claro, com regras definidas e com segurança jurídica. Dar a certeza de que as coisas não vão mudar no meio do caminho.

A carta do PMDB, “Uma ponte para o futuro”, é um caminho?

É apenas um pedaço do caminho. Não está pronta ainda. Não contempla, por exemplo, a reforma previdenciária, que é indispensável. É um baita de um pepino que precisa ser revolvido. A Dilma tentou, mas o partido dela não quis. O (Michel) Temer (vice-presidente) ou um novo governo terá de ser um governo de construção, como foi Itamar (Franco, ex-presidente que assumiu após a renúncia de Collor). As classes políticas, empresariais e trabalhadoras atuaram, juntas, para sair do atoleiro. Hoje, a crise política e econômica é pior.

O mercado, de forma geral, tem reagido bem a uma eventual mudança de governo...

O mercado, na acepção da palavra, é um coisa etérea, com base em oferta e demanda, além de expectativas. Não dá para cravar nada ainda. As expectativas mudam.

A presidente Dilma não teria condições de conduzir esse processo de mudança no País?

Vejo que o atual governo perdeu a condição de comandar o processo político e de desenvolvimento. Perdeu a confiança do setor privado e não se faz um País sem o setor privado. Lembro quando o (ex-presidente) Lula, dois meses antes de ser eleito em 2002, convidou empresários e representantes de classe para participarem de um debate em São Paulo. Ele estava com a alta cúpula do PT e se dispôs a ouvir todos para tentar entender quais eram as principais dificuldades e o que poderia ser feito pelo País, caso ele fosse eleito.

O problema maior é a falta de interlocução no atual governo?

A Dilma tem uma posição completamente diferente da do Lula. O Lula tinha uma visão de que o setor privado era essencial e o governo ditaria as regras a serem seguidas. Ela tem a visão de que o Estado é o grande ator da economia. E esse modelo de intervenção fracassou, levando o País a esse momento de desconfiança.

Então, o sr. é a favor do processo de impeachment?

A Dilma perdeu o controle do processo de gestão. O PT insurge contra ela em temas importantes, como reforma da previdência, que é necessária. Tem também a base aliada desembarcando por não se sentir prestigiada pelo governo. O fato de a presidente convidar o ex-presidente Lula para a Casa Civil foi visto como um gesto de abdicação das funções pela sociedade. Ela abdicou do cargo, mas não renunciou. Talvez o Lula até conseguisse acertar a situação. Quem sabe? Lamento dizer, mas acho que a Dilma não tem capacidade de continuar o governo. Gostaria que ela compreendesse isso e renunciasse. Eu a conheço bem. Ela é bem-intencionada, correta. Ela não renunciaria. Então, a solução ideal seria a do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ter uma nova eleição. Embora eu ache que, neste momento, seria uma grande confusão nacional. Fazer uma eleição em momento turbulento é um risco grande. Pode aparecer um aventureiro de última hora.

O sr. não vê nova liderança que possa assumir essa função?

Tem, mas sob o ponto de vista eleitoral, não vejo nenhum nome forte. Temos ótimas pessoas, mas nenhum deles com condições de se empoderar em votos em uma sociedade que está confusa. Então, aceito o impeachment como solução chata, particularmente porque o comando da Câmara (dos Deputados) gera – como poderia dizer? – uma sensação de comprometimento da lisura do processo. Fica aquela sensação de que a Câmara é contra a Dilma. Esse é um momento diferente do Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello).

Diante de um processo provável de impeachment, o sr. acredita que o Temer pode fazer uma boa gestão?

Pode ser que (Temer) faça em torno dele uma articulação de um projeto correto, apartidário, apolítico, que recupere a credibilidade do País interna e externamente. Viajo muito e converso constantemente com investidores. Há uma clara sensação de insegurança por parte dos investidores, jurídica e institucional.

O sr. acredita que a Operação Lava Jato perde força em um eventual impeachment?

Essa é a grande novidade, uma mudança significativa no País. Fizemos um movimento parecido lá atrás, com o Mensalão, mas não chega aos pés da Lava Jato pela grandeza, pela magnitude (desse processo). Acho que esse é um ponto que não pode ser mais perdido. Me preocupa um pouco o risco da banalização do processo. A lista dos não sei quantos da Odebrecht, uma remissão aos anos 80. Não acho que esse seria o melhor caminho. O foco tem que ser mais em cima da Petrobrás e ir até o fim. Punir quem tem que ser punido e criar uma nova imagem para o País. A Lava Jato lava a alma do povo que se sente, de certa forma, compensado. Tem de continuar (a investigação).

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