Assine o Estadão
assine

Economia

TheEconomist

Dinheiro que dá em árvores

A economia brasileira vai de mal a pior, mas a situação das grandes fabricantes de celulose nunca foi tão favorável

0

The Economist,
O Estado de S.Paulo

25 Março 2016 | 05h00

Aisão de quem sobe os 120 metros da torre de branqueamento da fábrica de celulose Horizonte 1 e olha para o Norte é tomada pelos troncos esguios e a folhagem franzina de um mar de pés de eucalipto. A plantação começa junto aos portões da fábrica e se estende por um sem-fim de ondulações suaves, típicas do relevo do Mato Grosso do Sul, avançando até onde a vista alcança. “Essa é a nossa vantagem competitiva”, explica Alexandre Figueiredo, responsável pela produção da unidade industrial. A planta pertence à Fibria, maior produtora mundial de celulose de fibra curta, matéria-prima para itens como papel-jornal, fraldas e papel-moeda. (A celulose de fibra longa é utilizada na produção de papel de gramatura alta e embalagens.)

O Mato Grosso do Sul se caracteriza pela presença de vastas áreas de cerrado, boa parte das quais há muito tempo foi transformada em terras aráveis. Mais recentemente, as plantações de eucaliptos ocuparam uma parcela dessas terras. A maior parte dos 568 mil hectares de eucaliptos da Fibria está situada a até 200 quilômetros de sua fábrica. As distâncias percorridas pelos caminhões da concorrente Eldorado, cujas instalações industriais ficam do outro lado de Três Lagoas (município de 115 mil habitantes que está rapidamente se tornando importante centro do segmento de celulose brasileiro), são apenas ligeiramente superiores. Nenhuma outra companhia industrial do mundo tem acesso tão imediato a matéria-prima. Some-se a isso o clima ameno e o solo fértil das regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil – onde, como diz Joe Bormann, da agência de classificação de risco Fitch, eucaliptos “crescem como erva-daninha” – e não é difícil entender por que o País conquistou 40% do mercado mundial de celulose de fibra curta.

Os investimentos em tecnologia também estão dando retorno. No fim dos anos 1990, os brasileiros começaram a plantar uma variedade de eucalipto de crescimento acelerado, que pode ser colhida depois de sete anos de cultivo apenas; bem menos que os 20 anos, ou mais, necessários ao cultivo de pinheiros, principal fonte de celulose no Hemisfério Norte. Ao lado da Horizonte 1, a Fibria está construindo um viveiro de alta tecnologia, com técnicas desenvolvidas por floricultores holandeses. A Eldorado é pioneira na utilização de drones para mapear a topografia de suas plantações.

A bonança do setor de celulose se contrapõe ao desânimo da maior parte da economia brasileira. Do alto de seu mirante, Figueiredo aponta para a única clareira visível no meio do mar de árvores: as estruturas metálicas que despontam no descampado fazem parte de uma fábrica de fertilizantes que a Petrobrás pretendia erguer no local. A construção foi interrompida em 2014, quando a estatal se tornou o centro do escândalo bilionário de pagamento de propinas que pode resultar na queda da presidente Dilma Rousseff. A desolação do lugar contrasta com o ritmo frenético que se observa no interior da planta de celulose, onde está sendo instalada uma segunda linha de produção, no valor de R$ 8,7 bilhões. Quando estiver concluída, no fim de 2017, irá mais do que dobrar o 1,3 milhão de toneladas anuais que a fábrica é capaz de produzir atualmente.

De 2011 para cá, a recessão e a instabilidade política fizeram a moeda brasileira perder 60% de seu valor frente ao dólar. Para os fabricantes de celulose, isso é motivo de comemoração. Em 2015, segundo a agência de classificação de risco Standard & Poor’s, a desvalorização do real proporcionou uma queda de US$ 50 por tonelada nos custos de produção do setor; outros US$ 40 por tonelada puderam ser economizados na manutenção de instalações. Estimativas do banco UBS indicam que a cada 10 centavos que o real perde em relação ao dólar, os fabricantes brasileiros de celulose embolsam lucros de US$ 15 por tonelada.

Para melhorar as coisas, embora os preços das outras commodities produzidas pelo Brasil tenham sofrido queda acentuada nos últimos anos, os preços da celulose se mantiveram estáveis. Com a China reorientando sua economia para o consumo, o futuro das exportações brasileiras de minério de ferro não parece muito promissor, já que os chineses provavelmente passarão a construir menos pontes e outros equipamentos de infraestrutura. Mas o consumo de papel higiênico na potência asiática está em alta, e mais de 40% da produção dos fabricantes brasileiros de celulose é transformada em rolos de papel higiênico destinados aos chineses. De acordo com a consultoria RISI, entre 2013 e 2023 as vendas anuais de papel higiênico devem registrar crescimento de 7,4 milhões de toneladas, sendo que quase a metade disso será absorvida pelo mercado chinês.

A combinação de moeda desvalorizada e demanda aquecida fez com que as margens dos fabricantes brasileiros alcançassem níveis suculentos. As da Fibria chegaram a 53%, sobre faturamento recorde de R$ 10,1 bilhões no ano passado. Com lucros equivalentes a 75% das receitas geradas no quarto trimestre de 2015, as margens da Eldorado superaram todas as marcas já registradas no segmento. Isso ajudou a aliviar o peso do endividamento, que permanece alto em relação ao de suas concorrentes. A Klabin e a Suzano também tiveram um bom ano, ainda que, por produzirem não apenas celulose, mas também seus derivados, tenham visto suas unidades papeleiras serem atingidas pelo mesmo mal que aflige o restante da economia brasileira.

Futuro. Os bons tempos vão durar? O excesso de capacidade é fonte de preocupação. Em maio de 2015, a chilena CMPC inaugurou uma unidade no Rio Grande do Sul, com capacidade para produzir 1,3 milhão de toneladas por ano. Este mês, começou a funcionar uma planta que a Klabin construiu no Paraná, de cujos fornos sairão 1,5 milhão de toneladas anuais. Em Três Lagoas, a Eldorado está dando início a um projeto de expansão. E isso é só no Brasil. Em termos mundiais, a capacidade instalada deve ter aumento de 2,7 milhões de toneladas só este ano. Já o crescimento da demanda provavelmente ficará limitado a 1,5 milhão de toneladas. Cedo ou tarde, isso terá efeito nos preços. Além do mais, o real vem se valorizando frente ao dólar nas últimas semanas, já que o mercado começou a apostar numa mudança de governo e no fim da paralisia política e econômica do País.

Mas os fabricantes brasileiros de celulose continuam otimistas. Se os preços da celulose caírem, as plantas mais antigas, e de custos mais elevados, no Hemisfério Norte, talvez sejam desativadas, o que reduziria o excesso de capacidade. No longo prazo, a demanda por papel higiênico só tende a crescer. Como diz o presidente-executivo da Fibria, Marcelo Castelli, o consumo individual médio na China é de pouco mais de 5 quilos por ano, ao passo que em países desenvolvidos são consumidos entre 10 e 20 quilos.

Quanto à questão cambial, o diretor-presidente da Eldorado, José Carlos Grubisich, observa que os fabricantes de celulose sobreviveram quando o dólar era cotado a R$ 1,60. Com a moeda americana em torno de R$ 3,60, ainda vai demorar um pouco para o câmbio voltar a apertar o calo do segmento. 

Apesar do bom momento vivido pelo setor, os fabricantes brasileiros de celulose estão buscando novos usos para a madeira de eucalipto, dos biocombustíveis aos substitutos ecológicos para materiais plásticos. Nos últimos anos, a Fibria adquiriu participações em várias startups com tecnologias promissoras, incluindo uma jovem empresa canadense. A companhia tem duas outras aquisições em vista. “Dinheiro dá em árvore, sim”, assegura Castelli. “Só leva tempo.”

Mais conteúdo sobre:

Comentários