Chip East/Reuters
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Dirigentes do Fed divergem em público sobre juros

Em diferentes eventos, dirigentes regionais do banco central americano manifestaram opiniões diversas sobre o momentos de elevar a taxa de juros no país

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2015 | 02h01

NOVA YORK - Dirigentes regionais do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) emitiram ontem opiniões desencontradas de quando seria a hora de o Fed dar início à elevação dos juros. O presidente do Federal Reserve de Nova York, William Dudley, afirmou que continua acreditando que os dirigentes do banco central dos EUA poderão começar a normalizar a política monetária antes do fim de 2015. "Minha expectativa é de que provavelmente elevaremos os juros mais tarde neste ano", disse Dudley em entrevista ao Wall Street Journal.

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'Minha expectativa é de que provavelmente elevaremos os juros mais tarde neste ano.' - William Dudley, presidente do Fed de Nova York
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Dudley também destacou que qualquer reunião de política monetária no restante deste ano pode ser usada para agir sobre os juros. No entanto, o dirigente observou as ações do Fed serão sempre guiadas pelo desempenho da economia americana e que as decisões do Fed são afetadas pelas condições financeiras e por acontecimentos internacionais.

O presidente do Fed de Nova York teve papel importante na tentativa de orientar os observadores a não esperarem uma elevação dos juros em setembro. No fim de agosto, Dudley afirmou que os argumentos para a alta das taxas havia se tornado "menos convincente" em razão da volatilidade nos mercados provocada por preocupações com a fraqueza das economias emergentes.

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'Dado o progresso que fizemos e continuamos a fazer em nossos objetivos, eu vejo como próximo passo adequado a elevação gradual das taxas de juros, provavelmente começando em algum momento no final deste ano' - John Williams, presidente do Fed de San Francisco
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Também o presidente do Fed de San Francisco, John Williams, disse esperar um aumento dos juros este ano no país. "Dado o progresso que fizemos e continuamos a fazer em nossos objetivos, eu vejo como próximo passo adequado a elevação gradual das taxas de juros, provavelmente começando em algum momento no final deste ano", afirmou. Para ele, essa perspectiva sobre as taxas "não é imutável e vai responder à evolução econômica ao longo do tempo".

Os comentários de Williams foram feitos em um discurso preparado para um evento da Ucla Anderson School of Management, em Los Angeles. O dirigente vota nas decisões deste ano do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), que há pouco mais de uma semana manteve inalterada a taxa de juros no país, por causa de desenvolvimentos econômicos no exterior e da baixa inflação.

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'Essa expectativa sobre as taxas não é imutável e vai responder à evolução econômica ao longo do tempo' - John Williams, presidente do Fed de San Francisco
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Desde essa reunião, diversos dirigentes do Fed, como a presidente Janet Yellen e Williams, disseram que ainda acham que a instituição será capaz de elevar os juros ainda este ano. Williams ressaltou a necessidade de um cuidadoso equilíbrio nas decisões de política monetária dos EUA, na qual as autoridades têm pouco espaço para responder a novos problemas econômicos.

O dirigente adicionou uma nova questão-chave para o mix de fatores que os tomadores de decisão terão de enfrentar. "Eu estou começando a ver sinais de desequilíbrios emergindo na forma de preços elevados dos ativos, especialmente no setor imobiliário", afirmou. Segundo ele, a história mostra que os dirigentes do Fed têm de lidar com esses desequilíbrios antes que eles se tornem grandes demais. "Eu não acho que estamos em um ponto de inflexão ainda no setor imobiliário, mas eu estou olhando para o caminho em que estamos e observo potenciais desafios."

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'Antes de elevar as taxas, eu gostaria de ter mais confiança que tenho hoje de que a inflação está de fato começando a acelerar. Eu acredito que isso pode ser em meados do próximo ano' - Charles Evans, presidente do Fed de Chicago
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Apesar das ponderações, Williams foi amplamente otimista sobre a economia americana em seu discurso, ao afirmar que "as coisas estão melhorando".

O outro lado. Já o presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, acredita que a taxa de juros não deve ser elevada até meados do próximo ano, pelo menos, pelo fato de a inflação ter se mantido persistentemente abaixo da meta do banco central dos Estados Unidos. "Antes de elevar as taxas, eu gostaria de ter mais confiança que tenho hoje de que a inflação está de fato começando a acelerar", disse Evans.

"Eu acredito que isso pode ser em meados do próximo ano, quando os ventos contrários causados pelos preços mais baixos de energia e pelo dólar mais forte se dissiparem o suficiente para que nós comecemos a ver um movimento para cima mais sustentável no núcleo da inflação", afirmou o dirigente. "Após a primeira alta, eu acho que seria apropriado elevar os juros muito gradualmente."

Evans alertou para o risco de uma elevação prematura. Segundo ele, isso pode acabar forçando o Fed a ter de voltar a reduzir a taxa de juros para zero ou até a lançar mão de um programa de relaxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês).

As palavras do dirigente constam de um discurso preparado para um fórum em Milwaukee. Evans tem se posicionado há algum tempo contra uma alta nos juros, acreditando que, ainda que tenha ocorrido avanços no mercado de trabalho, o Fed ainda está longe de conseguir atingir sua meta de inflação a 2%.

O banco central dos Estados Unidos não consegue atingir sua meta de 2% de inflação ao ano nos últimos três anos e não deve atingi-la até 2018. Evans disse querer ver mais evidências de que os preços estão subindo, antes de defender uma alta nos juros. Em seu discurso, ele afirmou que uma alta prematura nos juros poderia ter um custo real para o banco central, por isso os dirigentes devem agir com cautela.

Evans avalia que não seria um problema superar um pouco a meta, durante um período breve. Já o fracasso em defender a meta de inflação poderia enfraquecer a credibilidade do Fed, opina ele.

O presidente do Fed de Chicago disse não esperar que a inflação chegue a 2% até o fim de 2018, mas mostra-se mais otimista em relação ao mercado de trabalho. "O crescimento econômico parece ganhar impulso suficiente para que eu esteja razoavelmente confiante de que atingiremos nossa meta de pleno emprego dentro de um período razoável", afirmou ele. / Dow Jones Newswires

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