Discrepâncias globais

Os Estados Unidos são um grande fator das discrepâncias globais; embora Steve Bannon tenha deixado a Casa Branca, suas ideias não deixaram

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2017 | 06h00

Talvez a sequência de furacões, terremotos e incêndios que abalaram o mundo em meses recentes seja uma mensagem divina. Os avanços políticos, sociais e internacionais do mundo dos últimos 70 anos parecem estar chegando ao fim. Só faltam a Arca de Noé e 40 dias e noites de chuvas para que possamos começar tudo de novo.

A redução recorde das armas nucleares, a criação de um mundo alfabetizado pós-colonial em contínuo crescimento, no qual a renda aumentou, a tecnologia avançou e a capacidade internacional de atender às diversas expectativas nacionais cresceu – tudo isso ficou frágil. 

Os Estados Unidos, obviamente, são um grande fator dessas discrepâncias globais. Embora Steve Bannon tenha deixado a Casa Branca, suas ideias não deixaram. Sua visão extremada de interesse nacional (com a exclusão do engajamento internacional) e atração pelo populismo branco, que haviam sido superados pelas mudanças tecnológicas, continuam dominando os EUA. A consequência é um turbilhão político interno, com incertezas domésticas sobre o acesso futuro à assistência de saúde – além de grandes déficits fiscais e impostos que beneficiam os ricos. Enquanto isso, crescem os gastos decorrentes do pendor de membros do governo por viagens em jatinhos exclusivos. 

Na frente externa, o quadro é mais sombrio. Acordos internacionais como o Nafta estão sob fogo crescente; a Parceria Transpacífica já era. As exportações para a China continuam ameaçadas. Um mercantilismo do século 17, que exige excedentes comerciais bilaterais, voltou a ser doutrina aceita. 

A Coreia do Norte e Trump estão empenhados em um jogo de não cooperação global no qual o dois agem de modo irracional. E aí está o Irã. Na sexta-feira, Trump deu ao Congresso 60 dias para discutir o acordo nuclear que envolve seis países. Espero que a discussão não leve ao uso de armas nucleares. 

Outro tema explosivo é a migração. Os EUA impuseram a deportação de imigrantes ilegais e a ameaça de construção de um muro na fronteira com o México como condições para manter o Daca, programa que dá a ilegais que chegaram ao país ainda crianças oportunidades de trabalho e educação. A Estátua da Liberdade está de luto. 

Mas os Estados Unidos não estão isolados na missão de agitar o mundo. Outros países participam dela. O problema mundial da imigração continua a acrescer. Os países só aceitam receber os melhores e mais brilhantes imigrantes. União Europeia, Austrália e outros países estão tomados por dissidências internas. Eleições na Grã-Bretanha, Holanda, França e Alemanha mostraram a influência de fortes movimentos dissidentes. Já outros ampliaram as limitações para entrada de imigrantes.

Além das conhecidas agitações internas no Oriente Médio, Turquia, Iraque e Irã se uniram na oposição aos esforços dos curdos de estabelecer seu país. A Catalunha, mesmo sem se tornar independente, mexe com a Espanha. A Myamar budista reagiu militarmente aos muçulmanos rohingyas, provocando um êxodo para Bangladesh. A Turquia prendeu cidadãos turcos, acusando-os de serem dissidentes agitadores. Mesmo a América Latina registra o triste caso da Venezuela. As eleições deste domingo serão um teste sobre o governo autocrático de Nicolás Maduro e o empobrecimento acentuado. Será que os resultados serão aceitos? 

E então chegamos à Rússia de Putin. Cada vez mais o presidente se comporta como um czar, conquistando militarmente a Crimeia e nacionalizando a Ucrânia oriental. Putin também se aventurou em vários outros países como agente político, provocando agitação e ruptura. A investigação sobre Trump nos EUA origina-se na aceitação de favores prestados por Putin à família do presidente.

Em comparação, as atividades da Lava Jato no Brasil parecem modestas, embora o produto da corrupção vá muito além do simples enriquecimento ilícito. O caso evoluiu rapidamente para o questionamento da própria legitimidade da atual estrutura de governo. Em 2018 haverá eleições nacionais, quanto a isso, não há dúvidas. Mas, será que o candidato vencedor conseguirá lidar com uma estrutura política decrépita, uma economia atrasada, a perda de relevância internacional e a continuidade de problemas como educação inadequada e desigualdade? A violência doméstica não é a causa desses problemas, mas consequência. 

Entretanto, talvez possamos tirar essas preocupações da cabeça. Existe uma previsão de que a Terra vai colidir hoje com Niburu, um planeta invisível. Ou, numa solução melhor, quem sabe passemos a nos dedicar à dura tarefa de trazer de volta nosso mundo recente. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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