JFDiorio/Estadão - 27/3/2018
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'Discurso pró-mercado não é suficiente', diz economista

Para presidente do Goldman Sachs no Brasil, futuro presidente da República precisa ter capacidade de trabalhar com establishment político

Entrevista com

Paulo Leme

Ricardo Grinbaum, Cátiz Luz e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 05h00

A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de ter sido um "processo difícil", foi positiva para o País, pois a Justiça cumpriu seu papel, na análise do presidente do Goldman Sachs no Brasil, Paulo Leme. Para ele, porém, a detenção não altera o cenário das eleições, que continua incerto. Leme vê o ex-governador Geraldo Alckmin como alguém com capacidade de implementação política e conhecedor dos limites contábeis – "dois upgrades grandes" – e compara a candidatura de Jair Bolsonaro a "um voo a dez mil metros de altitude e duas vezes a velocidade do som" feito com um "bimotor da Segunda Guerra".

A 20 dias de deixar a presidência do banco e passá-la para Maria Silvia Bastos Marques (ex-presidente do BNDES e da CSN), Leme afirmou não descartar propostas no setor público, mas negou considerar participar de campanhas. Disse que continuará trabalhando com economia, sem dar detalhes. Sobre a economia brasileira, afirmou que, apesar da conjuntura política desafiadora, o trabalho de terraplenagem foi feito e há uma boa base para o próximo governo.

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O Goldman Sachs está no Brasil há 11 anos, mas só começou a dar lucro em 2014 - ano em que o sr. assumiu a presidência e no início da recessão brasileira. O que aconteceu?

Uma organização com os padrões da Goldman em matéria de tecnologia, compliance e sistemas exige tempo até se tornar rentável. Ela começa com um custo fixo muito alto e demora para se conquistar parcelas significativas de mercado. Houve também um amadurecimento de alguns centros do banco, como a tesouraria. Em 2014, antecipamos uma deterioração no ambiente de negócios e começamos a racionalizar custos. Hoje, somos um banco enxuto, com estrutura de custos muito baixa e margem (receita em relação aos custos) muito alta. Ainda houve uma diminuição na concorrência, alguns bancos estavam com um balanço totalmente ocupado por crédito e tiveram de fazer provisionamento, redução do crédito. Nós não tínhamos esse problema. A concorrência estrangeira também reduziu, alguns bancos saíram do Brasil. Essa combinação de fatores nos favoreceu. No final, sempre é uma questão de pessoas e de decisões dessas pessoas. É mérito da equipe que temos aqui no Brasil.

Quais são seus planos para quando deixar o banco?

O que posso dizer é que será na área de finanças e economia. Estou vendo algumas coisas, mas não tem nada decidido ainda.

Será no Brasil?

Aqui ou lá fora. Gosto de mudanças e de novos desafios. É muito importante para o indivíduo e também para a própria organização. Uma das coisas que me chamou atenção quando vim trabalhar no Goldman era a natureza dinâmica: a cada dois ou três anos era um grupo completamente diferente de chefes. Isso tem uma razão de ser. A natureza dinâmica do mercado e do mundo exige cabeças novas e, na medida em que você passa muito tempo na organização, você tem o benefício da experiência e do discernimento, mas é natural ficar mais conservador e começar a não perceber a solução de novos problemas. É necessário ter uma liderança nova. É saudável para ambos os lados.

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Em 2016, o sr. falou que o mercado havia dado ao presidente Michel Temer o benefício da dúvida. Como estamos agora?

As partes de excelência são a redução da inflação - que também não surpreende devido à profundidade da recessão -, o ajuste externo e o fato de conseguirmos atravessar uma crise de crédito com o sistema financeiro e bancário sólidos. O ajuste externo foi muito significativo. Veja a virada do déficit de transações correntes, que vinha de US$104 bilhões, no pico do desequilíbrio, e foi para menos de US$ 10 bilhões. Isso foi alcançado em grande parte com sacrifício do setor privado, mas é extraordinário. Hoje temos um balanço de pagamentos com saldo comercial girando em US$ 65 bilhões e, agora, isso está sendo conquistado com o aumento das importações. A qualidade do ajuste externo é muito boa.

Já não tão favorável é a parte da atividade econômica e do desemprego. O resultado é satisfatório no sentido de que estamos saindo de contrações de 4% ao ano para uma expansão de 1%. Mas, na hora em que se tiram os efeitos da agricultura e do saque do FGTS, o que sobra (do crescimento do PIB) está mais próximo de 0% do que de 1%. O crescimento é de natureza e abrangência frágeis e, apesar de haver uma queda do desemprego, ele ainda é muito alto.

A parte preocupante é o déficit primário próximo a 2% do PIB e a dívida bruta indo para 80% do PIB. A parte de Previdência e os problemas dos Estados ainda não foram resolvidos. Outro grande desafio é o tamanho do Estado. Mas os resultados são bons dados os desafios políticos. A base é boa para um governo que se proponha a fazer um bom trabalho. Para gerar crescimento, entretanto, falta reformas estruturais que visem o aumento da produtividade, como uma tremenda abertura comercial. 

O sr. destacou que o PIB no ano passado foi impulsionado pelo FGTS e pelo agronegócio. No começo deste ano, observamos alguns indicadores de atividade econômica ainda fracos. Existe realmente uma tendência de crescimento sólida?

É sempre interessante ter um parâmetro de comparação. A economia mundial está crescendo muito e as economias emergentes vem crescendo muito bem. Nesse contexto, também era de se esperar que o Brasil tivesse crescendo mais e num ritmo mais acelerado. Minha preocupação é a intensidade da recuperação. Na ausência de grandes reformas estruturais e de um encolhimento maior do Estado, acho difícil manter um crescimento muito acima de 3%. Talvez fique até abaixo de 3%, o que não é satisfatório pra gerar emprego e renda.

Passamos por um impeachment recentemente e também houve denúncias contra o presidente Michel Temer.

Como isso impactou na imagem do Brasil lá fora e no olhar do investidor?

Minha primeira observação é que é surpreendente conseguir navegar por um desafio político de tal magnitude e manter uma ordem política. A economia continuar funcionando e conseguir se reerguer é bastante encorajador. Em relação à visão do investidor, a questão não é se ele gosta do Brasil ou de Brasília, é o retorno esperado do investimento. Não é que o investidor estrangeiro tem medo da politica, é que, em termos de rentabilidade relativa, os ativos do País deixaram de ser extremamente atrativos (com a queda da taxa de juros básica, a Selic) comparados com os estrangeiros. 

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O que muda no cenário brasileiro com a prisão do ex-presidente Lula?

Por um lado, e por mais difícil que tenha sido o processo, é positivo para as instituições que a Justiça tenha cumprido seu papel. Por outro, o cenário das eleições ainda é incerto. É difícil prever quem serão os candidatos e quem irá ganhar.

Como o sr. vê  esse cenário?

Um candidato do establishment político e empresarial brasileiro é o cenário mais provável (para vencer as eleições). Mas, apesar desse cenário, com probabilidade de 60% a 65%, ser um candidato que trabalhe bem com o setor privado, ainda há os cenários de caudas (extremos).

Jair Bolsonaro tinha um discurso estatizante e nacionalista, mas se associou ao economista Paulo Guedes, de discurso liberal. Como vê esse casamento?

Ter um discurso pró-mercado é uma condição necessária, mas não suficiente para um bom governo. Esse discurso pode até levar a um bom conjunto de medidas iniciais, mas elas (as medidas) só serão boas se sobreviverem. Que o establishment político possa trabalhar com esse novo ator é fundamental. Isso pode até acabar se comprovando possível, mas, para mim, não está claro. É assim: estou planejando voar a dez mil metros de altura e duas vezes a velocidade do som e me aparece um bimotor da Segunda Guerra Mundial.

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Como vê a candidatura de Ciro Gomes, que caminha para uma posição mais nacionalista?

Não me sinto confortável em falar de candidatos. Prefiro falar de programas. Pagamos um preço enorme, não só pela recessão, mas especialmente pela perda de oportunidades numa economia global competitiva, por dez anos de erros na matriz econômica (do governo Dilma Rousseff).

As candidaturas dentro desses 65% que o sr. comentou, de candidatos que podem trabalhar bem com o setor privado, se equivalem? Geraldo Alckmin equivale a um Temer, por exemplo?

Há diferença na capacidade de gestão e de entrega política. Não adianta um outsider com um excelente programa se não consegue administrar forças complexas no Congresso e no STF. Há diferenças no plano político e maiores ainda na capacidade de gestão política. Sem entrar em nomes.

Alckmin fez uma gestão preocupada com as contas públicas, mas não tinha um perfil liberal. Agora, colocou o Persio Arida, mais liberal, como coordenador de campanha. Que cara teria um governo Alckmin?

Seria um governo democraticamente eleito, o que traz uma estabilidade vantajosa em relação ao governo Temer. A capacidade de implementação política seria superior. Depois, não vai desafiar a lei da gravidade, ou seja, sabe que há limites contábeis. São dois upgrades grandes. Outro ponto é que, se precisamos de 30 grandes medidas econômicas e um governo entregar umas cinco, o resultado é  grande, especialmente se atender às reformas previdenciária e tributária, além da abertura comercial, e conseguir dar previsibilidade ao setor privado. O Alckmin tem experiência e pode fazer muito melhor do que fez até agora.

O sr. participaria de algum governo? Seu nome já foi citado para o governo Temer e para a presidência de diversas estatais.

Não gosto de trabalhar com hipóteses. Dependendo da pessoa e do momento, acho que está tudo em aberto.

O sr. vai participar de alguma campanha?

Não. Não planejo participar.

O que o próximo governo precisa fazer?

O mais importante é consolidação política. Passamos por um processo extremamente difícil nos últimos quatro anos. A segunda questão é a prestação de resultados. Quem for eleito tem de ser responsável por suas ações e apresentar resultados no plano econômico. No econômico, é necessário aumento da taxa de crescimento, queda do desemprego e redução da desigualdade. Também tem de entregar resultados no plano de serviços públicos, ou seja, segurança e saúde. Outra coisa importante é que o programa tem de ser focado em crescimento. Não pode ser um programa ortodoxo só visando o ajuste, apesar de que o problema principal no plano macroeconômico é o desequilíbrio fiscal. Mas problema fiscal só tem solução num contexto de aceleração da taxa de crescimento, e não é só porque, com o crescimento, você aumenta a receita e diminui a dívida pública em relação ao PIB, mas também porque as mudanças estruturais terão impacto de transferência de renda. Hoje, com a falta de solução do problema do setor público e da Previdência, pouquíssimos ganham em detrimento de todos. É preciso inverter essa situação.

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