HULU/NY
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Disputa dos streamings vai além da Netflix

Depois de HBO lançar versão digital no País, Sony e Fox seguem pelo mesmo caminho

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 05h00

Embora a Netflix tenha presença dominante, a empresa não navega mais sozinha no mercado brasileiro de streaming. A concorrência, antes restrita a pequenos operadores locais, como o Looke, agora inclui pesos-pesados controlados por grandes conglomerados de mídia. Além da HBO, que lançou seu app HBO Go no fim de 2017, acotovelam-se neste segmento agora a Fox Mais – que desde a semana passada oferece a programação dos 11 canais do grupo – e o Crackle, que pertence a outra gigante, a Sony Entertainment.

À medida que o mercado amadurece, cada produtor de conteúdo tenta preservar seus produtos para exibição em uma plataforma própria. Globalmente, a Disney está prestes a lançar um serviço de streaming que deverá tirar animações e filmes “assinados” pela casa do Mickey Mouse que hoje são licenciados a diferentes grupos. Essa preservação do conteúdo original hoje também norteia as estratégias de Crackle, Fox Mais e HBO Go no Brasil.

Diversos modelos. As empresas estão adotando diferentes modelos para a comunicação com o consumidor final. A HBO Go, por exemplo, pode ser assinada diretamente pela internet ou mesmo por lojas como AppStore e Google Play. Já a Fox Mais, que foi lançada no início de abril, está se unindo não somente às operadoras de TV a cabo, mas também às provedoras de internet do País – para poder assinar o serviço, o consumidor precisará estar ligado a determinados provedores parceiros da companhia.

O diretor de marketing da Fox Networks Group, Sérgio Domanico, diz que o novo desenho de parcerias ampliou muito o público potencial da Fox Mais – o serviço de streaming já existia, com algumas diferenças, para clientes que assinavam os pacotes da Fox no mercado de TV paga. “Hoje, as empresas de TV por assinatura estão em 25% dos domicílios brasileiros. Já as empresas de internet chegam a 90% dos brasileiros, seja por banda larga fixa ou móvel”, explica o executivo.

O Crackle, da Sony, traz no Brasil conteúdos como as séries exibidas nos canais AXN e Sony, além de filmes produzidos por diferentes estúdios. Ao contrário dos concorrentes, que buscam facilitar ao máximo o acesso do cliente ao conteúdo, o Crackle, ao menos por enquanto, só será oferecido atrelado à aquisição dos canais por meio de uma operadora de TV. Segundo o executivo TC Schultz, vice-presidente da Sony Television Networks na América Latina, o produto terá, no entanto, um diferencial importante: o objetivo é que o preço mensal fique por volta de US$ 3 por mês, abaixo dos valores praticados pela concorrência no mercado, que ganha cada vez mais relevância.

Conteúdo. Entre os executivos de estúdios, a aposta é que a briga pela sobrevivência vai se dar no conteúdo. É por essa razão que a tendência será cada empresa proteger mais suas propriedades. Nas plataformas de streaming é importante ter um bom catálogo de produtos – e não só as produções mais recentes que passaram no cinema. É por isso que todas as companhias que concorrem nesse mercado gastam cada vez mais com produções originais. Em 2018, a Netflix, por exemplo, anunciou um orçamento de US$ 8 bilhões para esse fim. O conteúdo próprio da Netflix tem incomodado as gigantes da indústria cinematográfica.

Embora a Fox tenha um conteúdo grande relacionado a esportes – o que pode ser um diferencial neste período de Copa do Mundo –, Domanico admite que o maior ponto de interesse dos assinantes reside nas séries originais (a Fox tem propriedades como The Walking Dead e Homeland, por exemplo). É por isso que cada serviço está em busca de uma “série evento”, um chamariz de público que seja só seu.

Às vezes, esses conteúdos surgem nos “nanicos” deste mercado, como o streaming americano Hulu – que sequer existe no Brasil. O Hulu conseguiu vencer o Emmy com The Handmaid’s Tale – O Conto da Aia, baseado no livro homônimo de Margaret Atwood. Por aqui, a série foi parar na TV por assinatura, sendo exibida pelo Paramount Channel.

Além de brigar no conteúdo, as companhias também tentam se diferenciar na tecnologia. A Fox Mais, por exemplo, vai permitir que o assinante de seu app – que custará R$ 34,90 – tenha acesso à programação recente e também ao catálogo de todas as temporadas das séries da companhia, o que é comum também entre as rivais. Além disso, porém, o aplicativo terá uma função que permitirá que o cliente assista a conteúdos exibidos ao longo das últimas 24 horas novamente – inclusive jogos de futebol que foram originalmente exibidos ao vivo.

Audiência. A exibição em streaming também muda o conceito de audiência. Segundo Schultz, da Sony, não dá mais para pensar com a mentalidade dos executivos de televisão. Na hora de decidir sobre a montagem do cardápio de conteúdos, diz ele, a audiência total atraída por uma série é importante, mas também é necessário entender se determinados programas são as razões para que certos consumidores paguem a assinatura mensal – se este for o caso, o investimento neles pode valer a pena ainda que seu público total não seja tão grande.

No mundo do streaming, afirma o executivo, vale mais um cardápio satisfatório do que somente um prato principal muito procurado.

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